poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

A MENINA SÍRIA, A VIOLÊNCIA INTRÍNSECA E CLARICE LISPECTOR

Tenho uma prova importantíssima amanhã e tudo que eu consigo pensar é: a menina síria que se rendeu a uma câmera fotográfica, pensando ser uma arma. Como estudar, como fazer qualquer coisa nesse mundo em que a reação à violência é tão espontânea?


menina siria.jpeg Foto: Divulgação

Creio que, a essa altura do campeonato, todos já devem ter visto a imagem que tem tirado meu sono e enchido meus olhos de lágrimas: a menina síria se rendendo a uma câmera, por confundi-la com uma arma. Antes de tudo, é válido lembrar que eu possuo descendência síria - de linhagens Kalil e Salomão - e venho acompanhando a guerra civil que neste mês completou 4 anos. Tenho familiares que fugiram aqui pro Brasil, e existem pessoas da minha família que foram mortas pelo conflito. Os números são assustadores: 215 mil mortes e 4 milhões de refugiados (dados da ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos).

Talvez, seja por essa razão que a foto da menina me desnorteou tanto. Ou talvez, seja simplesmente porque eu sou um ser humano. Nos dias de hoje, onde os jornais expõem, cruas, as crueldades dos homens, aprendemos a endurecer nossos corações e a consumir esse conteúdo, gerando principalmente duas coisas: conformismo e medo. Conformismo porque aceitamos que a violência existe e está enraizada, e medo porque acreditamos que ela está sempre no outro, nunca em nós. Porém, justamente por nos conformarmos, autorizamos que essa violência continue acontecendo e se perpetuando.

E eu, completamente perturbada, com o rosto inchado de tanto chorar, me orgulho em dizer que não deixei meu coração endurecer. Não permiti que isso acontecesse porque estou, às vésperas de uma prova significativa, jorrando essa emoção toda pra fora, numa catarse causada pela expressão dos olhos daquela criança. Para ela, o gesto de rendição foi tão natural, tão espontâneo, tão instintivo: o motivo da comoção geral. A sua vida, que coincide com os quatro anos de duração do conflito, foi pautada toda em temor e em pânico. Sua infância provavelmente nem deve ter existido, já que as crianças, em tempos de guerra, são totalmente adultizadas, para que consigam entender e se portar de forma madura em situações difíceis.

A questão da violência relacionada à desumanização está em discussão há vários anos, também na literatura brasileira. Clarice Lispector, em 1962, escreveu sobre o fuzilamento de um criminoso procuradíssimo no Rio de Janeiro, morto por policiais com 13 tiros. A partir dessa atrocidade, ela advoga em favor dos direitos humanos, reiterando a prepotência e a arrogância dos policiais ao atirarem treze vezes, algumas à queima-roupa. Clarice toca na brutalidade de forma magistral, colocando em pauta até que ponto vai a dita “justiça”. No ponto mais alto da crônica, ela contabiliza: “Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro. Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.”

Reprodução / Youtube: canal ConselhoEscolar

Uma de suas críticas mais mordazes é a nós mesmos, que consentimos viver nessa cultura calados, como já abordei anteriormente. Somos hipócritas: “Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais — vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu — que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem.” (conto completo: http://bit.ly/1iuTKc1)

Então, tanto Mineirinho quanto a menina síria foram nossas vítimas. Foram reflexos do buraco que nós mesmos cavamos. Dessa violência intrínseca que nos passa despercebida, em algumas vezes até querida - semana passada não tinha gente pedindo regime militar? Por que queremos ver o sofrimento do outro? Estamos desumanizados a esse ponto? Perdemos a noção de espécie, de irmandade, de respeito básico ao próximo? Tento acreditar que não, mas aí chega um Mineirinho, uma menina síria, uma Clarice Lispector, e a minha esperança se acinzenta.

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Meu outro texto sobre a temática da guerra na Síria.


Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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