poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

PORQUE BOYHOOD FOI ESNOBADO PELO OSCAR

Difícil compreender porque a Academia não reconheceu a sensibilidade tão humana que Richard Linklater pôs em seu “Boyhood”. Sei que a “award season” já passou, mas o filme demorou 12 anos pra ser feito, então acho que estou perdoada.


It's like it's always right now, (1).png Foto: Divulgação

Quando eu vi “Boyhood” pela primeira vez, me reiniciei. Terminei de assistir, pelo computador (pois ficou apenas duas semanas em cartaz na minha cidade, e eu não tive tempo de ir ao cinema), e me deitei. Fiquei encarando o teto por quinze minutos, e chorei. Chorei demais. Chorei porque me vi no espelho. Chorei porque contemplei meu lado humano, retratado em três horas belíssimas de filme. Bati o martelo: vai ganhar o Oscar.

Alguns dias depois, após a enorme repercussão do filme nas mídias, essa obra de arte voltou para as telonas, e eu decidi que veria novamente, apenas pelo prazer cinéfilo de enxergar grande e em alta definição. Combinei de ir com o pessoal da minha família - mãe, irmã, vó, tia, prima, namorado da prima, amigo. Assim que a luz se apagou e os créditos começaram a rolar, passei por todo aquele processo catártico novamente: mas segurei as lágrimas. Olhei para o lado e vi minhas companhias divididas - metade com caras emocionadas e a outra metade… confusa? Irritada? Cansada?

O que eles disseram foi: “não acontece nada”, “muito longo”, “muito cansativo”. E aí me ficou a dúvida: por que eu gostei tanto desse filme e eles não? O que tem de errado com eles? O que tem de errado comigo? A metade que gostou concordou comigo, nas questões de delicadeza e humanidade que apareceram no enredo. Mas a insatisfação dos outros ficou na minha cabeça. É a clássica história de focar no meio vazio do copo.

Pra quem não assistiu ao filme e está descontextualizado: “Boyhood” narra a história de um garoto, dos 6 aos 18 anos. Só isso. Passando pela infância até a juventude, abordando temáticas como: pais separados; padrastos violentos; descobrimento da sexualidade; auto-conhecimento; ou seja, colocando na tela a nossa vivência - com um plano de fundo cuidadosamente pensado, desde a trilha sonora até referências à cultura pop de cada ano.

Mas aí vocês me apontam o dedo: e que graça tem ver a vida na tela se eu já vivo isso todo dia? Meus queridos, é aí que está, tem toda a graça. Na literatura, existe um conceito amplamente discutido e polêmico chamado “mimeses”, para abordar a relação espelhada entre a ficção e a realidade. O trunfo de “Boyhood” foi confundir ainda mais a mimeses entre o cinema e a vida. A película foi filmada durante doze anos, com os mesmos atores, acompanhando a trajetória de cada um, com o roteiro sendo construído a cada ano. Chega um momento em que não se sabe quem está na tela: se é Mason Jr. ou o ator que o interpreta, Ellar Coltrane.

Como se não bastasse provocar a linha tênue entre vida e ficção, Richard Linklater tocou num tema tão universal quanto particular de forma primorosa: a passagem do tempo. O grande acontecimento de “Boyhood” é o tempo. Foi tratado com tanta vulnerabilidade, com tanto zelo, fazendo com que entremos na vida da família retratada, e consigamos nos identificar com ela. (Apenas um parênteses: minha maior crítica ao filme é a falta de diversidade. É um menino, branco, heterossexual, de classe média, com apenas pessoas assim ao seu redor. Mas nada é perfeito, infelizmente.)

Por que, então, a Academia não legitimou a revolução estética e ideológica feita pelo filme? Por que ela escolheu “Birdman”, apesar desse ser um pastiche da própria Hollywood? Sem tirar seus méritos, pois foi um dos meus preferidos também, mas eu esperava uma divisão dos prêmios principais entre os dois. Apostei que “Boyhood” levasse melhor filme, melhor montagem e talvez melhor roteiro original. Porém, apenas Patricia Arquette recebeu a estatueta em nome da obra. Por que? A verdade é: não sei. Não há como saber. Talvez os juízes tenham se dividido da mesma maneira que eu e os meus: metade se deslumbrou, metade não viu nada. A arte tem dessas coisas. Por ser subjetiva, depende da bagagem pessoal de cada um para se concretizar. E “Boyhood” foi tão intrínseco, tão íntimo, tão frágil, que é até pecado cobrar a sua recognição de todo mundo.

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Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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