poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

A BENDIÇÃO GROTESCA E A MALDIÇÃO POÉTICA EM BAUDELAIRE

"Os que ele quer amar olham-no com receio,
Ou confiando demais na sua amenidade,
Empenham-se em tirar-lhe um queixume do seio,
E experimentam nele a sua atrocidade."
O artigo que se segue é uma análise do poema "Bendição", pertencente ao livro "As Flores do Mal", de Charles Baudelaire.


Thumbnail image for baudelaire2.jpg Foto: blog ATerceiraNoite.org

Antes de se estudar poesia, é comum pensar que a poética se baseia apenas na expressão de sentimentos íntimos e amorosos do eu-lírico. Porém, ao penetrar mais fundo no universo das entrelinhas, descobre-se que a poesia vai além do que se lê na folha de papel.

Charles Baudelaire (1821–1867), conhecido como um dos “poetas malditos”, representava o lado incomum da literatura, escrevendo sobre o grotesco, o hediondo, o imoral. Primeiro nome a impôr o sentido atual de “modernidade”, Baudelaire antecipou a crise da poesia, momento em que a própria poesia é a crise em si, sabendo do seu não-valor e o expressando. Marcos Siscar, estudioso da crise da lírica, afirmou que “constatar o fim dos tempos da poesia é um modo de a poesia realizar a modernidade poética” (SISCAR, 2007). Precursor do simbolismo e observador meticuloso da nova cidade urbanizada, Baudelaire escreveu uma poética revoltada, consciente de seu impasse. Além disso, começou a materializar a poesia do mal, através da descaracterização do belo e da destruição da moral social vigente, sendo um poeta do êxtase e do horror ao mesmo tempo.

O poema que será analisado pertence ao livro "Les Fleurs du Mal" (As Flores do Mal), publicado na França em 1857. A obra é considerada orgânica, devendo ser lida como um todo, se levando em conta a relação entre os poemas. Baudelaire divide o seu livro em seis partes, começando pela "Spleen Et Ideal", secção aberta pelo poema em questão, "Bénédiction" (Bendição), que será lido na tradução de Guilherme de Almeida (ver foto anexa). Neste primeiro segmento, há o desejo de transcendência frente à frustração do Poeta, que se sente uma pessoa à margem, diferente das outras. Ezra Pound, em 1934, definiu o artista como “antena da raça”, criando uma visão romântica desse ser sensível que percebe o mundo de uma maneira acima da média – e esse conceito se aplica bem às ideias presentes em “Bendição”. Baudelaire concebe um ser divino, não pertencente ao mundo humano, que aqui vivendo é incompreendido e mal tratado: “Eles misturam cinza a impuras cusparadas; / Rejeitam tudo o que ele toca, e se lamentam / Por ter sujado os pés seguindo-lhe as pegadas.”. Esse mesmo tema aparece no próximo poema do "Spleen Et Ideal", “L’albatros”, onde o Poeta é comparado a um albatroz exilado no chão, cujas grandes asas – só adequadas no voo – são inúteis na terra, impedindo-o de andar.

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Apesar da grande mudança na temática e na maneira com que ela é tratada, Baudelaire segue a tradição formal europeia, escrevendo com rimas alternadas (ABAB) e métrica (na tradução, os versos são alexandrinos), tudo organizado em dezenove estrofes. A dicção do poema é erudita, devido ao vocabulário culto escolhido, a fim de confirmar a ideia de que o Poeta é superior intelectualmente. Mas, de certo modo, também é prosaica, uma vez que o poema segue um esquema narrativo, em tempos e espaços determinados.

Ainda que não haja um eu-lírico explícito, existem três vozes marcantes: o próprio Poeta, sua mãe e sua esposa. A subjetividade no poema vem desses distintos pontos de vista, que são escritos através de falas em primeira pessoa, como uma peça de teatro. São expostas as visões pessoais de cada um, interligadas por um narrador que esboça as cenas e descreve os cenários.

Ezra Pound, em seu “ABC of Reading” (1934), estabeleceu os três modos expressivos da poesia: a fanopeia, que trata das imagens evocadas; a melopeia, referente aos sons; e a logopeia, que aborda as ideias no poema. Em “Bendição”, há um pouco de cada um. A fanopeia é construída pelas inúmeras imagens que vão aparecendo, em sua maioria substantivos concretos positivos (céu, festa, trono, diadema, luz, anjo, sol, néctar, etc.). As rimas e a métrica geram um ritmo monótono, esboçando uma melopeia melancólica, que remete à sina triste da sensação de “exílio” do Poeta. Há muita logopeia, que com a ajuda da fanopeia, produz um contraste entre as ideias/imagens que direcionam o poema: céu X inferno; néctar X cusparada; delícias X imundícias; anjo X serpente. As ideias são organizadas de modo definido, através de conjunções e conectivos, formando o que chamamos de hipotaxe.

Baudelaire constrói o belo e o divino através do feio e do grotesco, trabalhando em cima das contradições. No discurso da mãe e da mulher do Poeta, se destacam as ideias negativas, como se cada uma rogasse uma praga com o intuito de amaldiçoá-lo. Já na fala dele mesmo, aparecem imagens de serenidade, como o anjo, o sol e a nuvem. Ao final, se percebe que há a predominância das ideias positivas. Portanto, não importa quantas maldições perpassem o caminho, a bendição de ser Poeta sempre será maior; pois a poesia vale toda a dor e todo o sofrimento vividos no inferno terreno.´

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Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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