poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

DEZ INCRÍVEIS DISCUSSÕES SOCIAIS NA 3ª TEMPORADA DE ORANGE IS THE NEW BLACK

O grande e irrevogável trunfo de Orange Is The New Black é a representatividade. Não basta dar voz a um grupo historicamente silenciado, as mulheres, a produção da Netflix faz questão de repartir essa visibilidade com uma grande diversidade: negras, latinas, brancas, idosas, lésbicas, transgêneros, altas, baixas, magras, gordas. Só por isso a série já seria sensacional. Porém, com essa terceira temporada, fica claro que a ambição do seriado é maior do que se pensa. Estão listadas abaixo algumas das fortíssimas discussões dos novos episódios, com o mínimo de spoilers que consegui!


orange.bmp.jpg Foto: Reprodução / Netflix

Invisibilidade

Desde o início do programa, se aborda a invisibilidade de vários grupos. Sejam idosas, lésbicas, transgêneros, negras, estrangeiras; ou simplesmente mulheres. Muitas das prisioneiras de Litchfield tiveram vidas horríveis, e o tratamento desse problema tão delicado na vida de tantas mulheres foi feito com maestria. Acompanhamos e sentimos o que elas passam.

Maternidade e aborto

Eventualmente, ao contar uma história sobre o mundo feminino, se esbarra na questão da maternidade. Entretanto, além de abordar a relação entre mães e filhas na vida real, OITNB traz a discussão a um outro nível: como é ser mãe na prisão, com barreiras físicas que distanciam as mães dos filhos? E não para por aí: uma das cenas mais espetaculares já aparece no primeiro episódio, derrubando por terra toda espécie de censura. Duas personagens conversam abertamente sobre aborto, e concluem que ele pode ser necessário e venturoso. Um baita avanço para a discussão.

mother.gif Gif: Tumblr / Netflix

Cultura da violência e do estupro

Uma das minhas falas preferidas nessa terceira temporada foi: “Estamos na América. Violência é boa e legal, mas sexo? Deus do céu, não!”. Isso abre margem para inúmeras questões, tanto a cultura da violência quanto a do estupro. Se não se fala sobre sexo, é difícil ajudar quem pode estar sendo forçada a fazê-lo. O foco maior foi no estupro, apresentando situações terríveis onde a culpabilização da vítima é tão grande que ela mesma acaba acreditando que pediu por aquilo.

Religiosidade

“Essas mulheres estão desesperadas para acreditar em qualquer coisa.” A falta de contato com o mundo, a constante relação com a morte, os pensamentos suicidas; tudo culmina na religiosidade. Desde tratar cultura judaica até o uso místico de velas latinas, passando pela criação de uma nova crença, vemos como a prisão se torna uma espécie de purgatório. Porém, a discussão não para por aí: há ainda uma forte crítica a intolerância religiosa com as minorias, realidade que infelizmente não está nada distante da nossa.

Intertextualidades literárias

No encarceramento, é natural procurar um escape. E algumas detentas encontram essa evasão na literatura. Foram inúmeras (e muito bem colocadas) as citações literárias nessa temporada. Desde livros e autores mais modernos como Harry Potter, Stephen King, e O Poderoso Chefão; até clássicos como Hamlet, Les Misérables (as melhores cenas), e 1984. Sem contar a metáfora incrível do SPOILER funeral dos livros, e todos os autores citados.

les mis.png Foto: Tumblr / Netflix

Feminismo e o empoderamento

Há diálogos geniais que abordam a luta contra o machismo. Para não dar tantos spoilers, vou apenas citar os pontos chave na discussão feminista. Um monólogo sobre como o patriarcado oprime a nossa sexualidade, mas ao mesmo tempo cultua o cheiro da vagina, tenta provocar a auto-aceitação dos corpos e odores femininos. Em uma conversa entre a mãe transgênero e seu filho, ao falarem sobre uma situação de opressão feminina que ocorre na adolescência, o filho a pergunta: "Você realmente quer ser mulher num mundo onde os homens fazem isso?". Por fim, ao ser questionada sobre sua capacidade de consertar um objeto, Piper ironiza: "Talvez eu consiga, se esforçar bastante o meu cérebro de mulher"; discussão que tudo tem a ver com o último caso de machismo na ciência.

A mídia segregadora

Ao observarem revistas de beleza, as personagens percebem a falta de diversidade e a imposição dos padrões impostos pela mídia. Elas até brincam quantas páginas são necessárias para aparecer uma modelo negra - e quando ela é retratada, possui traços europeus e pele mais clara.

O silenciamento feminino

Uma das personagens é muda. E essa é talvez a metáfora mais bem pensada da série, pois ela representa todas as mulheres silenciadas, que a vida inteira só receberam ordens de opressores. Spoiler de uma fala pesadíssima que nos obriga a pensar: “Você é uma escrava. Fale, mulher!”

silenciamento.jpg Foto: Tumblr / Netflix

Crítica ao capitalismo feroz

Essa temporada chutou o balde: estendeu também os debates à esfera econômica. Não vou aprofundar no assunto para evitar spoilers, mas há uma ousada crítica ao capitalismo feroz de grandes corporações, que se aproveitam de trabalho quase escravo. Aparece novamente o silenciamento, mas dessa vez, do indivíduo pequenino frente a enormidade das instituições. Além disso, os personagens condenam o sistema prisional americano, que possui “mais presos do que professores e engenheiros”.

A solidão, o amor e a humanidade selvagem

Finalmente, o ponto que, a meu ver, é o objetivo da série. Ao aprisionar seres humanos, o que acontece é o contato daquele ser racional civilizado com o seu lado animal. Por outro lado, o reverso disso também acontece: a reclusão solitária intensifica a necessidade do amor que humaniza. Muitas detentas têm namoradas, e os grupos étnicos se chamam de famílias, numa tentativa desesperada de cultivar afeto naquela floresta indomável. E aí deixo a minha reflexão: nós, tão adestrados e sofisticados, enfurnados nos nossos condomínios e presos nas telas dos celulares, estamos realmente livres? Faz bem reprimir nossa humanidade selvagem?

Quando eu terminei a terceira temporada, refleti incansavelmente. E é assim que a cultura deve ser, instigante, provocadora. Impulsionando-nos a não aceitar nada passivamente - assim como as mulheres invencíveis de Litchfield.

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Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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