poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

CAPITU É CULPADA OU INOCENTE? NÃO IMPORTA!

Em pleno 2015, ainda estamos mais preocupados com quem a Capitu transa do que com as construções estéticas brilhantes do Machado de Assis? Façamos um favor à memória do nosso escritor maior e esqueçamos essa história absurda, absurdíssima! como diria José Dias.


capitu.jpg Reprodução: Globo

Muitas pessoas, após lerem ou relerem “Dom Casmurro” (pois, de acordo com Ítalo Calvino, clássico é aquela obra que nunca estamos lendo, mas sempre relendo), fecham o livro e esbravejam: CAPITU É CULPADA! ou CAPITU É INOCENTE!. E, com o advento das redes sociais, frequentemente vejo essa discussão alongada em inúmeras plataformas: sites literários, twitter, facebook ou blogs - sem deixar de lado os famosos julgamentos nas aulas de literatura do ensino médio! A questão é: por que, depois de lermos uma obra-prima como “Dom Casmurro”, nos preocupamos com quem a Capitu transou ou não? Será que foi pra isso que o bruxo do cosme velho lançou sua magia nesse livro impecável?

Eu, humildemente uma mera estudante de literatura, acredito que não. Após conhecer a teoria literária, passei a me ater mais aos detalhes estéticos; construções ficcionais; artimanhas que o escritor usa para atingir os seus fins poéticos. Creio que o natural seja se preocupar mais, sim, com os enredos - no caso, a tal da dúvida -, mas, ao mesmo tempo, me sinto na obrigação moral de desconstruir isso em “Dom Casmurro”, especificamente.

Primeiramente, querendo ou não, focar todo o conflito principal do livro no adultério de Capitu é.... machista. Ignoramos a agressividade, a negligência e as tendências assassinas de Bentinho - quem não ficou morrendo de ódio dele na cena do café?! Ou na hora que ele deseja a morte da própria mãe? - para fiscalizar a cama de Capitu. E essa atitude é, senhoras e senhores, um reflexo da nossa sociedade machista que repreende e condena a sexualidade feminina!

Porém, não é isso que quero destacar - apesar de Bentinho ser, provavelmente, o marido mais machista e babaca da literatura brasileira. A primeira escolha estética de Machado, que singulariza o livro, é o narrador-personagem. Já que a história é contada pelo Bentinho/Bento Santiago/Dom Casmurro, nós, leitores, a recebemos exclusivamente pelo seu ponto de vista. Ou seja, a voz dos outros personagens não existe. Afinal, se é ele que está contando, pode distorcê-las o quanto quiser - quem irá desmenti-lo?

bentinho.jpg Reprodução: Globo

O seu objetivo, desde o início da narrativa, é “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência” (capítulo II). Para tal, reconta sua juventude com os olhos da maturidade - e isso muda tudo. Ao escrever o livro, ele não é mais Bentinho nem Bento Santiago: já se tornou Dom Casmurro, um velho recluso, ensimesmado, que vive em uma casa-cópia da de Matacavalos no Engenho Novo. Portanto, crê plenamente na traição da esposa, e vai redigir toda a sua história, desde o começo, a partir dessa perspectiva.

Dessa forma, o casmurro narrador - lembremos da insistência dele para não consultarmos dicionários (capítulo I), já que o primeiro significado de casmurro é “que ou quem costuma teimar ou insistir numa ideia. = CABEÇUDO, TEIMOSO” (Dicionário Priberam) - constrói toda a personalidade de Capitu como alguém dissimulada, dando indícios dessa falta de caráter desde a infância da amiga; "a fruta dentro da casca". A rápida recomposição em frente aos pais; as ideias astutas e perspicazes; a simulação de alegria quando na verdade estava triste; a sua curiosidade; até o seguinte trecho, quando Bentinho ficou com ciúmes de um cavaleiro que passou: “Se olhara para ele, era prova exatamente de não haver nada entre ambos; se houvesse, era natural dissimular” (capítulo LXXVII); tudo servia para entranhar na mente do leitor que a moça era uma atriz nata.

Depois de se casarem, o narrador continua fazendo questão de nos dar evidências do mau-caráter da mulher, por meio do episódio das libras esterlinas; da vez que ele foi ao teatro, voltou mais cedo e deu de cara com Escobar; e dos clássicos olhos de ressaca no enterro do amigo. Além disso, ao longo do livro, Bentinho tece todo um discurso de bom moço, rapaz sério, que faz questão de expor tudo que fosse importante à história; portanto, merecedor da boa opinião - e mais, da confiança - do seu leitor.

olhos de ressaca.jpg Reprodução: Globo

E essa construção de discurso é brilhante. Machado concebe um narrador-personagem mimado, descarado, agressivo, ciumento, possivelmente um doente mental; que o tempo todo procura persuadir o leitor que é uma boa pessoa. E, como todo ser humano, Bentinho também, sem querer, deixa escapar algumas virtudes de Capitu. Ela, afinal, cumpriu a promessa da adolescência, o esperando e se casando com ele; além de ser uma boa mãe e dona de casa, econômica, séria e “amiga da gente”.

Por fim, o maior contra-argumento de todos: as semelhanças esquisitas. Ainda seminarista, Bentinho vai visitar Capitu na casa de Sancha, que estava doente. Fica um tempo na sala conversando com o pai da moça, que o mostra uma foto da falecida esposa, comparando-a com Capitu. Disse que as duas eram parecidíssimas, e que muitas pessoas comentavam essa correspondência física, para depois concluir: “na vida há dessas semelhanças assim esquisitas” (capítulo LXXXIII). Touché! Então quer dizer que duas pessoas, sem parentesco algum, podem se parecer? Interessante, Bentinho, interessante…

Poderíamos continuar desmembrando passagens e outros artifícios machadianos, porém, creio que, por agora, é suficiente. Que, no futuro, sejamos leitores mais maduros literariamente, sabendo apreciar mais as construções estéticas feitas para sustentar a tão famosa dúvida do que a dúvida em si. Quem sabe assim faremos nosso bruxo do cosme velho orgulhoso… não, orgulhoso não: orgulhosíssimo!

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Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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