poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

CRÔNICA: REDUÇÃO DA EMPATIA E DA HUMANIDADE

Uma crônica sobre as duras reflexões de pessoas sensíveis sobre os cancros da nossa sociedade: desde a aprovação da redução da maioridade penal até a falta da noção básica de empatia.


reduçao.jpg Charge: Latuff

Certa vez, vi o seguinte diálogo por essas páginas de internet, e ele me ficou muito marcado na memória. "Paulo me perguntou: — Como podem existir pessoas sem sentimentos? Respondi: — Ora, Paulo, alguém tem que compensar nossos excessos.”

Sou extremamente sensível e empática. Antes, tomava por mim que isso eram qualidades. Porém, depois de tanta porrada, de tanta decepção, de tanto sofrimento, a única conclusão possível a se fazer é que são, irrevogavelmente, defeitos. Claro que, na hora de escrever ou de produzir qualquer tipo de arte, podem ser ótimas cartas na manga; mas e na vida real? Onde isso me ajuda?

Não ajuda. Piora tudo. A empatia acaba comigo. Não consigo ficar cinco minutos parada no trânsito caótico de BH sem me colocar no lugar daquele menino fazendo malabarismo no sinal. Por que ele tá ali? Será que já comeu hoje? Ele tem pais que o levam pra escola? E pronto: minha viagem está comprometida. Fico emocionada, abalada, tremendo e quase chorando no meio do ônibus.

Percebam que nem estou falando aqui de problemas pessoais – pois a sensibilidade me faz de gato e sapato nisso também. Mas meus pequenos e prosaicos problemas de coração nada são comparados com a dura realidade de minhas irmãs e irmãos mundo afora. Resumindo: das estatísticas. Essa coisa que pra alguns é puramente matemática, pros sensíveis é um soco no estômago. A humanidade reduzida a números. Somos todos Jean Valjean, marcados a ferro com um 24601 na testa?

paulo-me.jpg Foto: frasesparaoface.com

Uma em cinco mulheres é estuprada em algum momento da vida. 796.011.540 pessoas desnutridas no mundo. 13.025 pessoas morreram de fome hoje. 692.620.092 pessoas sem acesso à água potável. 536.018 suicídios esse ano. 3.799.425 mortes de crianças menores de cinco anos. (atualização dos dados às 10:09 de hoje, 02.07.15)

A pessoa fria lê esse parágrafo tranquilamente: são apenas algarismos e letras. Já os sentimentais não dormem a noite. Enquanto eu estava olhando os dados, de vez em quando, os números subiam. Cada coisinha a mais ali era uma vida sendo tirada. Um ser humano morrendo de fome. Uma criança sem água. E, a partir de hoje, uma criança sendo presa.

O que eu acho engraçado nessa bagunça é: na hora dos intolerantes bradarem que são contra o casamento gay, a vida do outro importa pra ele. Agora, no momento de reduzir a maioridade penal, a vida toda de uma criança não faz diferença. Afinal, realmente, é muito mais importante fiscalizar o amor alheio do que tirar a chance de um menor se redimir por meio da educação: punir é mais fácil e mais barato. O amor não é solução. Olho por olho, dente por dente. Se matou, tem que morrer. Ou ser torturado. A minha dor é mais importante que a sua.

Ser empática nesse mundo de hoje é terrível. Porque nós, os sensíveis, absorvemos todos os sentimentos que faltam nos intolerantes, nos Eduardos Cunhas, nos estupradores, nos agressores, nos preconceituosos. Agora eu entendo como eles conseguem fazer as suas barbaridades. A humanidade ficou toda aqui com a gente.

Às 10:35, já perdemos 3.799.745 crianças menores de cinco anos.

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Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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