poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

REFUGIADAS DE NÓS MESMAS

Sobre ser mulher, síria e refugiada.


siria_refugiadas_01.jpg Foto: Dubes Sônego e Yan Boechat / Revista Marie Claire

Sou mulher e tenho descendência Síria - uma interseção perigosa. Corre nas minhas veias o sangue da resistência, a inquietação tão intrínseca àquelas que são impedidas de ser e de escolher. Carrego comigo um legado de silêncios, de trabalho, de fortalezas - características tão inerentemente femininas.

O meu nome me denuncia: Kalil, um povo vindo da aldeia de Sadad, citada na Bíblia, cujo nome indica limite entre as regiões. A família da minha avó, Salomão, veio de Zaidal, na década de 1920, no meio da loucura pós primeira guerra mundial. Seu pai, o homem, veio antes; deixando a mulher para trás, na casa do sogro. A principal motivação para essa mudança súbita foi a falta de espaço: filho de uma grande família, meu bisavô não tinha mais extensão de terra para fazer sua agricultura, e viu na América chances de desbravar o novo mundo.

Eis aí o nosso primeiro norte do texto: a diáspora. Essa fuga pela sobrevivência, mirando no Brasil como porto salvador. Viemos aos montes, em navios lotados, às vezes só com os documentos no bolso (passaportes da Turquia, já que ela dominava a Síria - daí vem a denominação “turcos”) e a esperança no coração. E, no meio desse caos, só podíamos contar com as mulheres.

Foram elas - fomos nós - que mantivemos tudo em ordem. Acalmando nossos maridos, alimentando nossos filhos, cuidando da casa, segurando as pontas. Mas será que alguém nos perguntou se era isso mesmo que queríamos? Em algum momento, tivemos qualquer poder de escolha?

Para criar uma tese nesse meu textinho, como fez Virginia Woolf e sua irmã de Shakespeare, irei ficcionalizar. Imaginemos que, na Síria, às vésperas dos anos 2000, vivia uma moça chamada Mariam. Com seus 19 anos, a mocinha morava com os pais, estava aprendendo a cozinhar e a ser comportada. De repente, seu pai decidiu que era hora dela casar. Tratou, então, de arranjar tudo: conseguiu-lhe um marido, uma igreja e um vestido. Até que chegou o grande dia. Mariam despediu-se dos pais, levando consigo seus poucos pertences, já que agora moraria com a família do esposo.

No altar, conheceu o homem que seria seu marido, recém chegado do Brasil. Suponhemos que o rapaz se chamasse Jorge. Esses dois estranhos, agora unidos pela graça de Deus, tinham uma obrigação: perpetuar a raça. Amar ficava pra depois. E conseguiram, pois ela engravidou duas vezes, dando à luz debaixo do teto familiar, enquanto era observada por toda a genealogia de Jorge. Estava tudo bem, ela cuidando da casa, do homem, dos filhos: até que a guerra. As ruas foram tomadas por armas, gases, humanos desesperados.

Mariam não sabia o que fazer, pois fora treinada para cuidar de uma casa e uma família - como lidar com um conflito armado no quintal? A salvação veio derradeira: Jorge tem família no Brasil, vamos pra lá. A terra tupiniquim se tornou, novamente, sinônimo da existência de um futuro, um lugar seguro onde os filhos poderiam prosperar.

Porém, a sua sogra não queria ir. Voltar pro Brasil eu não volto, dizia, não desejo ser estrangeira de mim. E arredou o pé, não ia, não ia. Até que de novo a guerra. E ela, essa síria fiel a seu chão, foi baleada no meio de um tiroteio. Havia sido traída pela terra que amara tanto. Sem saída, Mariam e sua família decidiram: o Brasil se fazia necessário. Ao chegar, com os documentos e a esperança, perceberam: junto de tantas lembranças dolorosas, traziam também uma nova alcunha. Refugiados. Gringos. Turcos. E, no solo quente brasileiro, fizeram de tudo para se reconstruir, tentando erguer novamente os seus próprios alicerces.

Aqui acaba a nossa ficção - só que a única coisa ficcional nessa narrativa é o nome da mulher. Porque ela, assim como muitas outras com histórias semelhantes, está viva. Vive no Brasil, na esquina da nossa casa, lutando para sobreviver, para acalmar seu marido, para alimentar os filhos: andando na corda bamba do exílio diário que é morar em um teto desconhecido. Segurem as pontas, minhas irmãs. Se serve de consolo, termino com uma máxima que assola nossa espécie desde os primórdios dos tempos - somos, e sempre fomos, refugiadas de nós mesmas.

Meu outro texto sobre a temática da guerra na Síria.

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Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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