poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

O QUE NÃO EXISTE MAIS MAS EXISTE AINDA

Resenha do livro "o que não existe mais", de Krishna Monteiro.


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Paulo Leminski, em um de seus poemas, resume a dialética de literatura em simples versos: “você / não existe / preciso criá-lo” (LEMINSKI, 2013, p.95). Pois é seguindo esse norte – da inexistência literária para a existência – que Krishna Monteiro constrói os sete contos de “o que não existe mais”, seu livro de estreia. Através da dialética das lacunas, a obra procura dar destaque às ausências e às faltas.

Quem não existe mais? As narrativas perpassam a evocação do passado familiar, análoga a arqueologia; ressucitando a mãe, o pai, o avô, uma velha contadora de histórias. O encontro entre o que existe e o que não existe mais só se torna possível na lembrança e na literatura. Nestas páginas, o eu narrativo pôde rever várias sombras do seu passado – todas, possivelmente mortas, inexistentes em corpo, ainda que vivas em tinta e papel. O ser humano é finito, porém, sua lembrança é uma ferramente qua o mantêm vivo.

Além da perpetuação do humano pela literatura, é interessante pensar na continuidade da vida do avô no pai e do pai no filho, que faz dessa imortalidade descendente, literária – no livro, aquele homem que não existe mais sempre existirá. No fim do conto que dá título a obra, o narrador conclui, de forma genuína: “(...) percebo que nunca, nunca poderei dizer: ‘Encerrado, ponto final, tu não existes mais’. Não, o espelho traz consigo um veredicto: tu, pai, estás encerrado em mim.” (MONTEIRO, 2015, p.22)

A relação íntima entre o corpo e a palavra extrapola os limites da matéria, no conto “As Encruzilhadas do Doutor Rosa”: “(...) já não mais morava em meus aposentos, e sim no interior, nas entrelinhas do texto que ele, o médico, me confiara no topo da montanha. Percebi que, revestido, aninhado, envolto pelo cobertor daquelas páginas, eu agora habitava o ser, o cerne delas, as palavras.” (MONTEIRO, 2015, p.33) Nesse mesmo conto, há uma referência clara a Guimarães Rosa e ao seu ‘Grande Sertão: Veredas’, trazendo mais uma vez a lacuna, por meio do neologismo “nonada”, que significa coisa sem importância.

Outra temática interessante é a questão do outro, que pode ser desde o seu próprio reflexo até um suicida prestes a se matar. A empatia, qualidade hoje tão esquecida, aparece na narrativa de Monteiro como algo natural – e um desdobramento disso são os discursos entrecortados, a multiplicidade de vozes que, esteticamente, esboça uma inquieta polifonia. O ápice é em “Monte Castelo”, quando o avô do narrador conta sobre a sua experiência na segunda guerra mundial, e o resultado disso é uma mistura do passado – já que esse avô não existe mais – com um passado ainda mais remoto – da sua juventude.

Extremamente metalinguística, a obra toca em pontos como a morte literária (ou a eterna condição de um livro só existir quando é lido): “‘Mataram o poeta como quem mata um poema’, dizia. ‘Aprisionado na gaveta, soterrado entre papéis e poeira. (...) Mataram-no pelo tempo, pelo tempo simplesmente. Lentamente.” (MONTEIRO, 2015, p.97); e uma origem mais humana, material, da linguagem: “(...) se houvesse de fato uma fonte oculta das palavras, ela deveria nascer do sangue, da argila, dos choques e dos confrontos que aqui se dão. Derivaria não de línguas esotéricas, imaginárias, mas sim de troncos firmemente assentados nesta terra e de seus galhos. Não nasceria das alturas. Floresceria entre nós, aqui.” (MONTEIRO, 2015, p.105) A fala, a escrita, e a memória são colocadas como análogas, perpetuantes da humanidade: “(...) como digo – ou escrevo, ou relembro” (MONTEIRO, 2015, p.72).

O autor tem uma sacada discreta no fim do livro físico, deixando uma homenagem silenciosa, numa pegada meio Oswald de Andrade no seu Manifesto Antropófago: “este livro (...) foi impresso (...) no vigésimo sexto ano da publicação de ‘Relato de um certo Oriente’, de Milton Hatoum.” Ao fazer essa brincadeira que poderia passar despercebida a um leitor distraído, o escritor nos mostra que é sagaz, e está pronto para dialogar com inúmeras poéticas da modernidade.

Krishna Monteiro, assim como uma de suas personagens, tece uma rede de palavras (p.96), delicadas, cuidadosamente escolhidas. E, ao finalizar a leitura dos seus contos, a conclusão que nos atinge é que, enquanto estivermos embebidos nessa “seiva que nos nutre” (MONTEIRO, 2015, p.107) – a literatura – jamais deixaremos de existir.

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Referências:

LEMINSKI, Paulo. Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. MONTEIRO, Krishna. O que não existe mais. São Paulo: Tordesilhas, 2015.


Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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