poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

A TÊNUE LINHA ENTRE ILUSÃO E MENTIRA

Resenha do livro "Ilusão e Mentira", de Godofredo de Oliveira Neto.


ilusão-e-mentira.jpg Divulgação / Editora Batel

Godofredo de Oliveira Neto, em seu recente “Ilusão e Mentira”, brinca com os limites da intertextualidade e da ficção. Ao escolher Machado de Assis como norte da sua construção literária, escreve dois contos que dialogam com o também conto “Ideias de Canário” e o romance “Dom Casmurro”. A proposta do autor é uma atualização das histórias do bruxo do cosme velho, mostrando que, mesmo escritas no século XIX, são incrivelmente atuais.

No primeiro conto, “O Galo Adamastor”, o canário de Machado é evocado, mas na figura de um galo de briga. Godofredo se utiliza da tática romântica da verossimilhança e do afastamento do narrador, como muito fez José de Alencar. Essa estratégia funciona da seguinte forma: um suposto editor apresenta os fatos iniciais, alegando ter recebido a narrativa de um terceiro. Dessa maneira, se exime de quaisquer culpa ou julgamento de caráter, deixando toda a responsabilidade para o leitor.

Após a apresentação do tal editor, surge uma nova voz: do designer M. Santos, que agora narra sua história em primeira pessoa. Podemos desconfiar dele, e duvidar de sua sanidade, já que expõe sua experiência com um galo falante que disserta sobre sua vida em cativeiro. A principal discussão do conto fica na binomia entre liberdade e prisão, que varia entre paralelo e inversão, dependendo da perspectiva adotada. O galo, que antes tinha uma definição de liberdade relacionada ao seu cativeiro, ao ser colocado em outras realidades, muda de opinião; mostrando a importância de considerar o ponto de vista nas posições que tomamos.

A estética é realista, próxima a de Machado, contendo descrições detalhadas, ironia, metalinguagem, e uma constante conversa com o leitor – no caso, a plateia que ouve o designer. Há uma nota rápida sobre linguagem e poder, que esboça uma crítica aos gramatiqueiros: “Iria interrogá-lo sobre a definição de Liberdade. Usaria um discurso formal, empregaria a norma culta da língua portuguesa, com mesóclise e tudo, assim estaria seguro da minha superioridade (...).” (p.43) Ao longo do conto, descobrimos que M. Santos é um grande leitor, conferindo-lhe, talvez, absolvição da hipótese da loucura; e atribuindo-lhe uma mente criativa, característica dos devotos à literatura.

A narrativa, provavelmente, funciona melhor para quem não conhece o conto de Machado, porque a nova versão traz poucas novidades. Altamente referencial, “O Galo Adamastor” se constrói como uma atualização da história machadiana, trocando os personagens animais – de um canário, passa a ser galo –, e trazendo elementos característicos da contemporaneidade. A inserção desses elementos (celulares, selfies, iPads) é sempre bem-vinda na literatura atual, e se mostra justa quando o autor critica a violência e a devoção do ser humano à tecnologia: “Parece que o mundo piorou. Ou fomos nós que mudamos?” (p.50). Porém, em alguns momentos, ela parece estar ali sem razão, apenas cumprindo a ‘obrigação’ de se mostrar nas obras contemporâneas.

Parece que Godofredo estava, com o seu Adamastor, apenas preparando o terreno para o show que seria o segundo conto, “Val e Lalinha”. Novamente, ele usa a estratégia do afastamento do narrador, criando um editor que introduz a história. Basicamente, é a conversa entre uma advogada e Lalinha, ré acusada de um crime passional: “tuas crises de ciúme te tornam violenta.” (p.76). O conto é esteticamente construído com um excelente uso da polifonia, que entremeia as falas das duas personagens.

A intertextualidade da vez é com “Dom Casmurro”, porém, ocorre uma inversão: agora é a mulher a ciumenta psicótica, no lugar do famoso Bento Santiago. Há uma bem feita abordagem da tênue linha entre ilusão e mentira: a narração em primeira pessoa (ainda que sejam duas vozes intercaladas), mesmo recurso de Machado no seu romance célebre, traz a dúvida a todo momento. Afinal, aquele narrador está contando os fatos pela sua perspectiva, e pode retirar ou acrescentar o que lhe aprouver, para virar a história a seu favor: “(...) mais uma das tuas dissimulações, você é conhecida no morro como muito fingida e mentirosa.” (p.94) Indo mais além, podemos arriscar falar sobre uma inversão de papéis: será Bentinho (aqui evocado como Lalinha) o dissimulado, e não Capitu? Afinal, a pena é dele, é ele quem escreve a história dos dois, portanto, poderia muito bem criar uma esposa dissimulada, mesmo que fosse ele o falso.

Assim como no galo Adamastor, há a presentificação do legado machadiano, agora para a realidade de uma comunidade. Reencontramo-nos com cenas famosas, como o olhar oblíquo e dissimulado; o enterro de Escobar e os olhos de ressaca; a semelhança entre Escobar e Ezequiel (“O mesmo olhar, a mesma cara, o mesmo sorriso, tudo. O tempo não mente, traz a verdade direitinho” p.81); e a redenção na escrita.

Da mesma forma que ocorreu com Bentinho, podemos perceber o papel da literatura na construção da personagem Lalinha: “Quando escrevo parece que estou em outro mundo e que sou outra. Invento situações para me inspirar. Mas o que me deixa triste é que o diário não me livra do peso do peito, mas mesmo assim quero contar as minhas tristezas e decepções no caderno.” (p.85)

Apropriando-se das histórias e estilos machadianos, Godofredo de Oliveira Neto faz, ao mesmo tempo que uma renovação, uma homenagem. E, ao finalizar a obra, nos deparamos com os impasses da literatura – o que é verdade e o que é mentira? Será tudo ilusão? Até onde vai o limite entre realidade e ficção? Pois, como bem disse Lalinha, “a verdade pode ser contra mim” (p.69). Será a verdade literária contra nós ou ao nosso favor? Talvez a única certeza seja que, no fim das contas, só depende de duas pessoas: o narrador e o leitor.

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Bruna Kalil Othero

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