poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

PRECISAMOS FALAR SOBRE "O MENINO E O MUNDO"

Dia 28 de fevereiro, ocorreu a 88ª cerimônia de entrega do Oscar, e o Brasil esteve muito bem representado com a animação "O Menino e o Mundo". Maravilhoso, sensível e crítico, nosso longa, ainda que não tenha ganhado, merece (muito!) ser visto e comentado.


o menino.png Foto: divulgação

Na noite do dia 28 de fevereiro, fomos apenas meninos enfrentando o mundo. O cinema brasileiro – mais especificamente, a animação – participou da maior honraria da sétima arte: o Oscar. “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, representou o Brasil na categoria de melhor animação, levando frescor, inovação e novidade à tão conservadora Academia.

Apesar de ter perdido a estatueta para “Divertida Mente”, da Pixar, isso em nada diminui o feito do filme tupiniquim. Uma verdadeira obra de arte em cores e sons vibrantes, o nosso menino foi inspirado por “Canto Latino”, de Milton Nascimento e Ruy Guerra: “Pra viver nesse chão duro / Tem de dar fora o fulano / Apodrecer o maduro / Pois esse canto latino / Canto pra americano / E se morre vai menino”.

O filme se ancora em um tema tipicamente latino-americano: a jornada à procura do pai. E esse universo nos é apresentado pelos olhos do menino: a sua visão infantil sobre o mundo é refletida na direção de arte. Os cenários e os personagens são todos desenhados com lápis, canetinha e giz de cor. O trabalho visual é primoroso, envolvendo o espectador em um espetáculo de cores.

O outro pilar da obra é a trilha sonora. Muito bem-feita e com produção do rapper Emicida, as músicas dão o toque brasileiro a esse filme universal, criando um clima alto astral e envolvente. O magnífico trabalho visual combinado à trilha cria cenas belíssimas, como nos momentos de saudade e melancolia, tendo ilusões da presença do pai; ou quando tudo ao redor desaparece assim que o menino escuta a música – elo entre ele e o pai.

Os adultos e a linguagem falada são um capítulo a parte. Semelhantes a caveiras, se expressam em uma língua desconhecida – recurso que possibilita, ao mesmo tempo, reafirmar o olhar infantil que não compreende as palavras difíceis; e tornar a obra algo universal, que não se prende aos limites de determinada língua.

Como se tudo isso não bastasse, o diretor-roteirista-produtor insere ainda uma crítica feroz ao capitalismo e a desumanização do ser humano que trabalha. Pegando como plano de fundo a produção de algodão, acompanhamos toda a sua trajetória pela perspectiva dos trabalhadores: desde a plantação nos enormes latifúndios, até a chegada dos produtos já prontos nas prateleiras dos consumidores. São muitas as sutilezas que constroem a crítica: a distinção gráfica entre os senhores de terra (ou empresários) grandes e largos, e os trabalhadores finos e magros; a demissão de pessoas fora do padrão; a substituição da mão de obra humana pela de máquinas; o transporte público similar a um cargueiro humano; a polícia militar evocando o fascismo; as condições de moradores de comunidades, e muitas outras. Quando o foco chega na cidade grande, vemos o capitalismo novamente, dessa vez, nas marcas e propagandas que cerceiam o ser humano, seja na rua ou na pomposa televisão.

Pequenino no meio do caos urbano, o indivíduo se sente triste e solitário. Ele é igual a todos os outros. Mora, só, na favela, que é a base para o castelo. Já longe do duro meio rural, vemos bueiros, andaimes, tudo em uma língua outra. Conhecemos as máquinas, navios, trens; que se parecem com animais ferozes. E, novamente, é evocada uma herança brasileira: o carnaval como redenção. Máscaras, cores e músicas – ainda que passageiras –, formam um grande pássaro colorido, quase uma fênix sempre renascendo, que representa a força da cultura popular. E isso tudo ocorre à sombra da grande mídia – também há a imprensa parcial que apenas televisiona os grandes jogos de futebol e os desfiles de moda. Como podemos perceber, tudo muito verossímil à nossa realidade.

No fim do filme, aparecem algumas imagens reais de destruição da natureza. O momento é de reflexão: as máquinas tomarão conta de tudo? Seremos todos queimados pelo fogo da tecnologia? Encontraremos nossos pais? Abandonaremos nossas mães, chamados pelo mundo não para viver, mas para trabalhar e conseguir sustento para nossas famílias? O nosso ciclo da vida é, na verdade, também um ciclo de produção? Alê Abreu, tecedor de caleidoscópios e de labirintos da memória, não responde. O menino também não. Silêncio. Cabe a nós, brasileiros, latino-americanos, aproveitar a súbita consciência da nossa solidão e concluir: o mundo, ainda que hollywoodiano, precisa da lembrança dos nossos meninos.


Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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