poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

NÓS, DO GRUPO GALPÃO: UMA EXPERIÊNCIA FÍSICO-ESTÉTICA

Impressões estéticas, teóricas e sentimentais sobre o mais novo espetáculo do grupo Galpão: "NÓS".


nós.jpg Imagem: Grupo Galpão

[Cena: Lama. Batom. Trevas.]

Sempre tive um orgulho besta da minha terra. E essa alegria do pertencimento mineiro, de se reconhecer parte de um todo muito maior do que a nossa vã insignificância individual; tudo isso fica à flor da pele quando nos encontramos com obras notáveis de conterrâneos. Fui tomada por esse espanto agradabilíssimo ao assistir à mais recente montagem do grupo Galpão: “NÓS”.

Aqui, porém, a primeira pessoa do plural ultrapassa a consciência coletiva mineira: nós somos o Brasil, essa mátria cheia de nós (aproveitando, claro, a interessante polissemia desse significante). Sim, mátria, e não pátria – Teuda Bara, no auge de sua carreira, cria uma matriarca de força inestimável: terna, charmosa, mas sem deixar de ser política.

Temática essa que, aliás, perpassa a história do grupo, atingindo um altíssimo nível de refinamento na mais nova peça. O roteiro estabelece um diálogo bastante elegante com a conjuntura política atual do país, mas sem cair em clichês ou sacadas óbvias. A questão do poder e da resistência é tratada com fúria, retomando temas urgentes como a violência policial com a população negra, e as humilhações corriqueiras que as minorias sentem na pele.

Além disso, o Galpão, grupo já conhecido pelos diálogos entre as artes, não desapontou no quesito intermídia. Música ao vivo, instrumentos inusitados (quem já viu um trombone numa peça?), canto a capella, dança – aqui, deixo a menção mais do que honrosa à Lydia Del Picchia pela fantástica performance em cima da mesa, sem deixar cair nada; fiquei embasbacada. Ritmo, som, vozes, catarse física.

Ritmo, som, vozes, catarse física. A ordem dentro do caos: repetições ferozes, ciclos, aumento constante de velocidade. Ritmo, som, vozes, catarse física. Tudo sobreposto, criando uma atmosfera inebriante para o espectador, que sente no corpo a comoção vivida no palco. Clima que é perfumado, inclusive: o cheiro dos legumes, da sopa sendo cozida, desenham um ar aconchegante e provocador ao mesmo tempo.

Agora, falando da questão técnica da peça, temo que eu caia no mais do mesmo: um tremendo espetáculo. O cenário é cru, porém, efetivo em suas funções, dando certa mobilidade e transformação ao espaço. Os personagens são de um anonimato fascinante: por serem nomeados, representam a todos ou esboçam uma autoficção?

Finda a peça, comentei com Jovino Machado, o poeta-amigo que foi assistir comigo: muito interessante a quebra da quarta parede, né? Ao que ele me replica: nisso que vimos não existem paredes. E sim, talvez em “NÓS” todas as paredes do teatro tenham sido realmente abolidas, para que o público, cada vez mais, se sentisse parte dessa coletividade plural.

teuda bara.jpg Eu e Jovino Machado com Teuda Bara.

Por fim, consciente da minha incapacidade de explicar em frases o impacto físico e estético provocado por esse show, deixo apenas alguns significantes que, imagino, intrigarão quem ainda não viu a peça, e arrancarão um sorriso do rosto dos que já tiveram esse prazer.

[Cena: Lama. Batom. Nudez. Trevas. Luzes coloridas. Música. As cortinasmasnemtevecortinas se fecham, mas o palco sempre permanece.]


Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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