poétiquase

um enfoque lírico nas partes das artes

Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/

EU NÃO SOU EU: AUTOFICÇÃO EM ANA C. E SEBASTIÃO U. LEITE

Sou fiel aos acontecimentos biográficos. Mais do que fiel, oh, tão presa!
Ana Cristina Cesar

Aproveitando a homenagem da FLIP à poeta carioca, tiro esse texto da gaveta, que aborda uma de suas facetas líricas: a autoficção.


art_imgcapa_1399661918[1].jpg Imagem: divulgação

Mikhail Bakhtin pensa na biografia e autobiografia como “(...) uma forma transgrediente imediata em que posso objetivar artisticamente a mim mesmo e a minha vida” (BAKHTIN, 2003, p.139), e postula que o autor deve se tornar um “outro em relação a si mesmo”, com o intuito de se distanciar da sua própria história para observá-la melhor. Carlos Souza também traz uma visão sobre o tema: “Em posse da(s) máscara(s) da própria personagem autobiográfica, o autor identifica em si não o herói de sua biografia, mas um outro: o autor de sua própria biografia” (SOUZA, 2010, p.82). Porém, esse tornar-se outro, ou outrar-se, para usar a expressão de Pessoa, na literatura, cria uma estética interessante. Apesar desse eu não ser eu (por ser outro), ainda corresponde ao eu, na narração em primeira pessoa do singular. Cientes do impasse da autoficção, Ana Cristina Cesar e Sebastião Uchoa Leite usam e abusam dos limites dessa impossibilidade literária.

Os ápices desse autobiografismo ficcional são quando os poetas ficcionalizam, poeticamente, os seus próprios nomes. No poema “instruções de bordo”, de Cenas de Abril, a dedicatória é “para você, A.C., temerosa, rosa, azul-celeste” (CESAR, 2013, p.24), sendo que “A.C.” nos parece uma sigla para “Ana Cristina”. Não por acaso, seguindo as “instruções de bordo”, a editora Companhia das Letras escolheu as cores citadas para fazer o projeto gráfico do livro Poética, reunião publicada em 2013. Além dessa referência duvidosa, há uma ainda mais clara, no “soneto”, de Inéditos e Dispersos: “Pergunto aqui se sou louca (...) E ainda mais, se sou eu (...) E finjo fingir que finjo / Adorar o fingimento / Fingindo que sou fingida // Pergunto aqui meus senhores / Quem é a loura donzela / Que se chama Ana Cristina // E que se diz ser alguém” (CESAR, 2013, p.151, grifos meus). Depois da primeira identificação com a “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa, na qual o poeta é colocado como fingidor, podemos refletir com mais profundidade acerca desse eu que não tem certeza se é alguém, e que não sabe quem é a “loura donzela que se chama Ana Cristina”, propositalmente o mesmo nome da poeta.

Sebastião também faz uso do mesmo recurso. Em Antilogia, já deixa claro: “que esperam de mim? / não sou ninguém” (UCHOA LEITE, 1988, p.130). No poema “Gênero Vitríolo”, põe com muita destreza a questão do tornar-se outro, criando um diálogo com o título do livro: “do outro lado é o meu não corpo (...) bebo o anti-leite / com gosto de anti-matéria / salto para o lado do meu outro / aperto a mão / do anti-sebastião u leite / e explodo” (UCHOA LEITE, 1988, p.133). De início, nos deparamos com a pergunta: do outro lado de quê? Do espelho, lembrando a sua tradução de Alice no País das Maravilhas? Do livro, abordando a diferença entre o autor e o eu-lírico, já desmaterializado no plano da literatura? Quem será esse duplo, o ‘eu’ que está sendo narrado, o “anti sebastião u leite”? Por fim, o contato do eu com o outro, por meio de um aperto de mãos, expressão geralmente amigável, causa uma explosão.

16092640[1].jpeg Imagem: divulgação

No poema final de Antilogia, em forma visual de cruz, o poeta fecha a obra magistralmente: “aqui jaz / para o seu deleite / sebastião / uchoa / leite” (UCHOA LEITE, 1988, p.140). Esse epitáfio poderia representar a morte do autor, já que é o último texto do livro, o momento em que a existência literária daquele eu-lírico se finda. Ficamos frente a frente com a morte do eu que narra, esse eu que é, ao mesmo tempo, o Sebastião e o anti-Sebastião, o leite e o anti-leite, a logia e a antilogia.

Voltando para A teus pés, na abertura do livro, o eu de Ana já confunde o leitor: “Autobiografia. Não, biografia. (...) Esta é a minha vida.” (CESAR, 2013, p.77). Ao preferir a biografia em vez da autobiografia, cria um eu que escreve sobre a outra, não sobre si mesma. Mais a frente, reitera essa não-escrita de si própria: “Não sou personagem do seu livro, e nem que você queira não me recorta no horizonte teórico da década passada” (CESAR, 2013, p.82, grifo meu), negando a possibilidade desse eu ser matéria literária – e, ao mesmo tempo, aceitando e se distanciando disso: “Agora irretocável prefiro ficar fora, só na capa do seu livro.” (CESAR, 2013, p.122).

O eu-Sebastião, em “Metassombro”, se omite, elíptico, para escrever-se; e traz, agora claramente, a figura do espelho: “eu não sou eu / nem o meu reflexo (...) estou fora de foco (...) minha figura é a elipse” (UCHOA LEITE, 1988, p.132). Já o eu-Ana encara o espelho para frente: “E mais não quer saber / a outra, que sou eu / do espelho em frente” (CESAR, 2013, p.109 e 110, grifo meu).

O que sou eu e o que não é? Ana Cristina, derradeira, nos responde: “(...) eu sou eu e você é você mesmo. Todos nós.” (CESAR, 2013, p.123). Todos nós, entrelaçados na encruzilhada movediça da literatura.

REFERÊNCIAS:

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4ed. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003. CESAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

SOUZA, Carlos Eduardo Siqueira Ferreira de. A Lírica Fragmentária de Ana Cristina César: autobiografismo e montagem. São Paulo: EDUC, 2010.

UCHOA LEITE, Sebastião. Obra em Dobras — 1960/1988. São Paulo: Ed. Duas Cidades, 1988, Coleção Claro Enigma.


Bruna Kalil Othero

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/.
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