Fabrício França

Graduado em Letras. Casado com as letras e amante das palavras. Faz de ambas o gozo da vida.

O falso índio representado pela literatura brasileira

Toda nação deve ter seu herói, assim como na Europa era o cavaleiro medieval, aqui no século XIX, só poderíamos buscar no índio o nosso representante. No entanto, este autóctone não tinha quase nada do verdadeiro nativo, e se comparava ao cavaleiro medieval em suas características.


circo2.jpg

Raramente damos de cara com algum texto genial que associe o índio à literatura brasileira, a não ser que façamos uma pesquisa específica pela história literária. Contudo, percebemos que ainda hoje existe preconceito em relação ao nativo, quando se fala de cultura, pois ele é visto numa camada mais inferiorizada em relação às outras. Também, outro fator que se pode perceber é que dos poucos escritos que falam deles, poucos são os que retratam de forma verídica. E, consequentemente, boa parte das pessoas sequer sabem da importância do índio à formação literária.

Os primeiros escritos que retratam o aborígene, na literatura, e que tiveram fundamental importância se deram no período considerado por muitos teóricos o marco inicial da literatura brasileira: O Romantismo. Este período, diferentemente do que muitos pensam, não foi um ambiente em que poetas e escritores eram todos da boemia e falavam somente de amor, saudade e morte. Porém, foi um período em que se escreveu sobre o verdadeiro representante do Brasil, o índio. Isso mesmo, o índio representou a verdadeira cara do povo brasileiro, enquanto que na europa o cavaleiro medieval os representava.

Natureza morta com indios e caravelas.jpg Pintura de Cardozo Vieira

Não que o autóctone não fosse citado nos períodos anteriores ao Romantismo, pois ele já aparecera em muitos outros escritos. Desde a chegada da Companhia de Jesus (José de Anchieta e Cia) até os Árcades (Basílio da Gama e Cia) com suas epopéias bucólicas. No entanto, até aí o selvagem, às vezes, era herói noutras vilão, pois alguns literatos só queriam escrever qualquer coisa para deixar como legado ou para se safar de alguma acusação, fazendo da literatura um mero texto de puxa-saquismo perante alguma autoridade local.

Então, voltemos ao índio-herói da literatura nacional e ao entendimento do porquê ter sido escolhido o símbolo do povo brasileiro. Pois, como sabemos o contexto é que faz a literatura, e, neste ambiente, estamos no século XIX, período no qual a nação brasileira consegue sua independência e identidade cultural. Pera aí! Mas como conseguir identidade se ainda não tem um representante nato? Por que toda nação deve ter seu herói, assim como na europa era o cavaleiro medieval, aqui só poderíamos buscar: ou no português a quem acabávamos de romper os laços de dependência; ou no negro que aqui jazia, mas que a ideologia da época não admitia tamanha façanha; ou no índio, sendo este quem habitava o país antes da chegada dos portugueses e consequentemente seus hábitos iriam ao encontro do pensamento dominante da época. Tendo como destaque o do famoso filósofo Jean Jacques Rousseau de que “o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe” assim, por estes e outros fatores, o índio se encaixava como uma luva para nos representar através do seu primitivismo.

iracema 1.jpg José Maria de Medeiros

Assim sendo, os românticos brasileiros para não ficarem atrás dos europeus criam a ideia do “bom selvagem”, atribuindo nos personagens indígenas, as mesmas características do cavaleiro medieval: honradez, sensatez, sutileza, bravura, heroísmo. Mudando assim o contexto, cor de pele e vestimentas, ou seja, uma imitação de características. Podemos perceber um exemplo no trecho que aparece logo abaixo retirado da introdução da obra “Iracema” de José de Alencar que descreve o índio com traços bem sutis para aquele período:

"Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso (...) Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu..." (P.16)

Primeiramente, a palavra Iracema significa “lábios de Mel”, pois o autor quis demonstrar sutileza desde o nome da protagonista. Daí podemos perceber que o escritor prossegue se referindo a personagem como “a virgem dos lábios de mel”, mostrando pureza, meiguice, beleza, o que leva a exaltação do índio de forma romântica e além do real. Por conseguinte, a personagem aparece associada à exaltação da natureza-pátria, o que significa a europeização da personagem e uma idealização da realidade.

Então, como a preocupação da literatura não estava voltada a fazer um levantamento histórico voltado para a verdade, cria-se na imagem indígena valores que fossem colocados ao público leitor, e assim este público sentir-se- ia digno na representação do seu povo por um herói que fosse tão bom quanto o dos europeus, mesmo que este herói fosse um mito.

REFERÊNCIAS: ALENCAR, José de. “Iracema”. In ALENCAR, José de. Obra Completa. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959a, vol. III.


Fabrício França

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