Fabrício França

Graduado em Letras. Casado com as letras e amante das palavras. Faz de ambas o gozo da vida.

Uma carta para quem pretende ser escritor

A um futuro escritor!


escritor.jpg

Outro dia um colega leitor perguntou-me sobre a arte da escrita. Queria saber se para colocar suas palavras no papel deveria ter um bom domínio das regras gramaticais. Respondi-lhe secamente com um NÃO! Pois, não precisava ser nem um gênio, nem um gramático nem um Rui Barbosa, posto que quisesse escrever poesias ou textos literários. O dito cujo ficou espantado com a resposta, acho eu que por ele ter mais de 40 anos de vida e de leitura, e ninguém nunca ter dito isso a ele. Daí, lembrei-me de que há algum tempo também achava que para escrever deveria saber todas as regras gramaticais, ter um excelente vocabulário e uma espécie de dom divino, pois foi assim que me ensinaram.

Creio que a pessoa deve ter mais uma espécie de atitude, uma força de vontade de manifestar alguma coisa para o papel, saber que escrever é uma forma de se continuar vivo, somada a uma pequena dose de loucura do que se importar com o COMO está sendo escrito, ou seja, a regra aqui é o de menos. O que conta é o estilo. Aprendi isso, não pelas gramáticas nem por livros de regras sobre o bom escrever, mas lendo grandes escritores que sequer sabiam a diferença do “Se” como pronome apassivador para o “Se” como índice de indeterminação do sujeito. O que terminava por ocasionar todo um erro de concordância. José de Alencar, Machado de Assis, Camilo Castelo Branco, Visconde de Taunay e muitos outros literatos passaram por isso. José Saramago não gostava de vírgulas, portanto não as usava. Já houve até escolas literárias que quisessem abonar todas as regras gramaticais. Então, não se deve importar muito. Pois, escrever literatura é uma necessidade, assim como cagar, por mais que seja desagradável a muitas pessoas ouvirem ou lerem isso, é um fato.

O que tiver de dizer, é só escrever! O segredo é não pensar em ser agradável a todos, pois ninguém tem obrigação de ler o que é de outra pessoa, assim como não se deve almejar o reconhecimento. Apenas se escreve, por uma força que o impulsiona, o resto é consequência. Franz Kafka escrevia por necessidade e nunca quis publicar nenhum de seus escritos, entretanto após sua morte, um amigo que percebeu seu talento e que tinha todos os manuscritos resolveu dar um jeito de publicá-lo e, hoje, Kafka é um dos maiores filhos da puta da literatura mundial. Clarisse Lispector não gostava de reler o que escrevia, então nunca se lia depois de publicada, além de nunca ter se considerado escritora, pois segundo a autora sua escrita era mais uma forma de terapia do que uma espécie de trabalho. Anne Frank escreveu em diários escondida dos nazistas durante sua curta adolescência, sem ao menos saber se estaria viva no dia seguinte, onde logo foi morta no campo de concentração. Agora, leitor, se estiver imaginando que qualquer um pode ser escritor, minha resposta: DEPENDE.

Antes de sair escrevendo é bom ter um pouco de experiência de vida. Saber o que é ter passado por algum caso de amor fracassado, o que é ter hemorroidas, ter ouvido músicas boas e ruins, bebido vinho barato e quente ao meio dia, dormido num quarto de hotel sujo e barato, lido Dostoiévski à luz de lamparina, ter outro caso de amor fracassado, saber que o aluguel vencerá no dia seguinte e não ter ideia de como irá pagar, pedido um copo de água na casa dum vizinho que não gostava, por falta de opção ter fumado aquela bituca de cigarro que já estava apagada no cinzeiro há dias, passado virada de ano sozinho em casa comendo ovos fritos com farinha, saber o valor de engordar e perder dez quilos, tomado café frio e sem açúcar do dia anterior numa quinta-feira de madrugada, espiado alguma vizinha trocando de roupa, nunca se imaginar superior ou melhor que ninguém, saber que os itens necessários de um escritor são: papel, algo para comer e um quarto para ficar, ter trepado o máximo possível, ter lido a bíblia, ou ao menos tentado, e, o mais importante, saber que não se pode agradar a todos, da mesma forma que O FILHO DE DEUS não conseguiu e da mesma forma que você pode estar se perguntando o como leu este texto até aqui e não aprovado.

P.S: Não aceito críticas de garotões com Ph.D. que nunca perderam uma refeição ou caíram bêbados nas ruas ou tentaram enfiar o dedo na tomada, pois estes sabichões só têm entendimento da superficialidade literária.


Fabrício França

Graduado em Letras. Casado com as letras e amante das palavras. Faz de ambas o gozo da vida..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/// @obvious, @obvioushp //Fabrício França
Site Meter