policromática

pinceladas disso e daquilo.

Mônica Franco

Brasileira e balzaquiana, paulista de nascença e paulistana de coração. Formada em Artes e apaixonada por todas as suas linguagens. Ama cinema e fotografia, café e papo bom. Prefere acreditar nas pessoas e na coletividade. Dá trabalho, mas costuma valer a pena

Sim, nós queremos um dia da Consciência Negra

No Brasil, o 20 de novembro é reservado para celebração do dia da Consciência Negra. Entenda porque ele não é e nem deve ser apenas um feriado a mais no calendário e aproveite os estímulos culturais e a farta informação disponível para ganhar conhecimento, pertencimento e muita consciência.


give-1214474.jpg

Consciência Negra SIM SENHOR.

Por quê? Sigamos.

No Brasil, desde 2003, o dia 20 do mês de novembro é reservado para o dia da Consciência Negra. Tal data alude à memória do líder Zumbi dos Palmares.

Simples? Não. Consciência Negra é muito mais que lembrar a memória deste ou de outro líder, e a História, felizmente, nos presenteou com vários. Nos Estados Unidos, por exemplo, a memória de Martin Luther King é recordada sempre na terceira segunda-feira do mês de janeiro, sendo feriado também em todo o País.

Ambos países escancaram exemplos de racismo minuto a minuto, ainda que com distinções em relação a como o preconceito se dá. Sendo que o Brasil ainda amarga o título de último país a ter "abolido" a escravidão.

Isso mesmo, entre aspas.

Pelo menos por essas terras, é comum nesse período as redes sociais serem invadidas com postagens que vão em dois perigosos sentidos, e que precisam ser vistos e analisados com cautela, no mínimo.

Um primeiro, de que devia existir um dia da "Consciência Branca" ou ainda "Consciência Humana", e que Zumbi dos Palmares teve escravos, o que seria, na voz desse discurso, uma contradição.

Existe um vídeo quase célebre do ator Morgan Freeman , costumeiramente conpartilhado por essa época, onde o ator, entrevistado e questionado sobre um mês da Consciência Negra, solta um vigoroso "ridículo". "A História dos negros é a História da América", o ator reflete, no que indiscutivelmente ele tem razão. Mas quanto a achar ridículo um mês ou dia da Consciência Negra e que isso reforça o racismo... É preciso ampliar o olhar.

african-mask-1421318.jpg

Morgan é indiscutivelmente um dos melhores atores de sua geração, mas talvez sua experiência de vida o levou a ter essa percepção de "por favor, paremos de falar sobre isso", ou talvez ele não queira vincular sua imagem pública ao Movimento Negro por razões particulares. Mas o problema principal não está na opinião dele (ou de Milton Gonçalves, para ficar num exemplo latino). É preocupante que os milhões que costumeiramente compartilham esse pequeno trecho de entrevista, um minuto e alguns segundos extraídos de algo maior, o fazem sem contextualização ou reflexão, apenas para corroborar uma ideia que não encontra sustentação em si mesma, ainda que existam "personalidades" vivas dispostas a dizer que sim.

Quanto a Zumbi, sobra desinformação no lugar de contradição. O fato de Zumbi ter tido ou não escravos não é caso de se espantar. A escravidão era prática comum na África, mas dentro de um contexto completamente diverso do que foi a diáspora africana. São duas situações distintas, a primeira envolta em uma cultura própria da época, de difícil compreensão ao olhar , que, estranhamente, parece não sofrer a mesma falta de entendimento no que se refere a escravidão no Ocidente, que durou séculos.

O prognóstico acima pode não parecer muito amistoso, e realmente não é. Porém, para além da nuvem densa que paira sobre o assunto, existe muita informação disponível, na clareza de um dois e dois são quatro, sobre o quão a cultura africana é grandiosa e permanente em nossa sociedade. E que não pode nem deve ser abafada. Culturas essas que se entrelaçaram sob o triste signo da diáspora. Mas que deixaram marcas que vão muito além desse símbolo. E revelam a noção do pertencimento à uma identidade.

E é aí que mora o cerne da questão. Quando estamos conversando sobre Consciência Negra, estamos conversando sobre Identidade. Minha e sua.

Seguramente não existe um único ser humano em toda o planeta Terra que não descenda da África, segundo todas as teorias científicas. Não é nada estranho conceber a ideia de que todos nós, enquanto existência humana, somos africanos. Então porque a imagem de um Jesus Cristo negro ainda suscita tanta polêmica, só para ficar em um exemplo clássico? Será que não falta algo como, bem.... Consciência?

Por isso tal ideia de pertencimento não existe apenas para o empoderamento negro, para a derrubada de preconceitos e para a reparação de erros históricos. Isso já seria muita coisa, mas vai além. É um olhar para dentro de nossas origens.

Abaixo temos exemplos, dentro de milhares de artistas (principalmente mulheres), plataformas e coletivos culturais que dão uma bela força para entender o que vem a ser Consciência Negra.

Desculpe Morgan, mas precisamos mesmo falar sobre isso.

Plataformas na Web.

PROJETO AFREAKA

Conteúdo independente por uma África sem estereótipos. Fundada pela jornalista Flora Pereira e pelo designer Natan Aquino. Desde 2012 informando e desmistificando.

http://www.afreaka.com.br/projeto/

GELEDES - INSTITUTO DA MULHER NEGRA

Vivo há quase trinta anos, a organização atua em várias frentes: educação, comunicação, direitos humanos, políticas públicas, entre outros. Tem ganhado constantemente mais força e hoje conta com mais de meio milhão de seguidores na rede social Facebook.

http://www.geledes.org.br/

Artistas e coletivos.

ROSANA PAULINO

Além de artista visual, Rosana é educadora e pesquisadora. Tem trabalhos expostos em vários países e sua produção é fortemente ligada à posição do negro e mais fortemente, da mulher negra na sociedade.

PRETAS PERI E SARAU DAS PRETAS

Dois belos exemplos de coletivos culturais nascidos da e para a periferia. O Pretas Peri exerce ações como oficinas, debates e mostra artísticas. E em seu Sarau, que ocorre na Zona Leste de São Paulo, tem foco na valorização do pertencimento e da valorização da arte periférica. Já o Sarau das Pretas é um projeto que integra poesia, música e ancestralidade. Cinco jovens mulheres negras tem ganhado cada vez mais espaço com um formato de Sarau que informa, encanta e constrói.

https://www.facebook.com/Pretas-Peri-581632445300143/?hc_ref=PAGES_TIMELINE&fref=nf

https://www.facebook.com/saraudaspretasSP/?fref=ts

JARID ARRAES

Cordelista. Nascida no Ceará, tem mais de 60 cordéis publicados, em que se destacam os cordéis infantis e os Lendas da África, além de possuir uma série sobre heroínas negras.

https://jaridarraes.com/

Livros.

COLEÇÃO HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA - UNESCO

A Unesco disponibiliza gratuitamente em seu site, preciosos volumes de uma coleção que apresenta a História da África contada pelos próprios africanos, algo que deveria ser óbvio, mas é muito raro, pois a História até então só havia sido contada pelo olhar do colonizador. Obra essencial sobre o assunto, cujo objetivo é preencher uma lacuna na formação brasileira a respeito do legado do continente para a própria identidade nacional, nas palavras dos próprios organizadores. Toda em português. Uma verdadeira jóia , para ler, guardar e divulgar.

http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/education/inclusive-education/general-history-of-africa/

Os nomes e ações citados são apenas um pedacinho da força que o Movimento de Consciência Negra vem alcançando, através das múltiplas linguagens da Arte e de apresentação sobre uma nova percepção sobre o continente africano, constantemente estereotipado.

Antes de fazer uma crítica ao Dia, Mês ou qualquer outro que alude à ideia, vale muito a pena consultar esses projetos e se aprofundar. Um artista irá levar a outro, um projeto irá conduzir a mais uma outra iniciativa. E por aí vai. A jornada não pára.

O que se ganha com tudo isso: CONSCIÊNCIA. Acredite, vai ser um excelente negócio.


Mônica Franco

Brasileira e balzaquiana, paulista de nascença e paulistana de coração. Formada em Artes e apaixonada por todas as suas linguagens. Ama cinema e fotografia, café e papo bom. Prefere acreditar nas pessoas e na coletividade. Dá trabalho, mas costuma valer a pena.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious //Mônica Franco