Salinê Saunders

Essa menina diz que ama, e que amando, escreve. Diz que as coisas escritas são tagarelas e que adoram sair tocando as campainhas dos corações alheios. Essa menina diz um bocado de coisa, mas o que mais repete é que aceita café, por favor.

Meu lá(r)

Me diga, pra onde você está indo? Onde é que fica seu "lá"?


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Perguntaram: E você, onde quer chegar?

Quero terra. Entre os dedos dos pés, calcanhares e tornozelos. Terra na batata da perna e por debaixo das unhas das mãos. Terra na testa, esquecida durante aquele movimento involuntário contra a sensação consquenta da gota de suor teimosa. Sementes pipocando em potes, em sacos plásticos e envelopes, daqueles que mostram o “big-mac” da espécie na capa. Balde com água e adubo. Faca, pá e chapéu.

Roupas coloridas no varal, um pé de manga, de abacate, de pitanga, tangerina, amora, banana, melancia, morango, maracujá e acerola. Jambo! Uma horta explodindo de alface, repolho, couve, cenoura, rabanete, tomate, agrião e beterraba. Lavandas espalhadas entre as margaridinhas do campo, entre a camomila e o alecrim, hortelã.

Dois gatos compartilhando o espaço, passarinhos, borboletas, minhocas, besouros... Rã. Telha laranja, pedras, madeiras e arte, virando uma casa. Acolchoados quentes, tecidos frescos e almofadas roubando o espaço do chão. Telas, cavalete, pincéis, fotografias, esculturas e Miguel ali, abençoando. Perfume de lavanda, incenso de sândalo, chinelos fora, pantufas dentro. Elis gritando qualquer coisa ao fundo, até porque qualquer coisa gritada por Elis faz bem.

Cheiro do bolo de fubá quase pronto. Cascas de maçã, abacaxi, laranja, uva... secando ao sol, pro chá. Crianças aprontando qualquer coisa que uma boa criança saiba aprontar. Mãe arrumando a estante dos livros, cantarolando aquelas músicas que só ela conhece. Família na cozinha, nos quartos, nos cantos, sentindo aquela casa, própria. Um anjo pra fazer bem e chamar de amor.

Amigos espalhados no quintal, entre as sombras da castanheira. Panelas penduradas, colheres penduradas, panos pendurados, temperos pendurados, prateleiras. Cor. Madeira. Cheiro de camomila. Pães caseiros. Iogurte caseiro. Meu ser caseiro, em paz.

Cheguei.

Pode entrar... só não esquece de tirar o sapato e encher a xícara de café.


Salinê Saunders

Essa menina diz que ama, e que amando, escreve. Diz que as coisas escritas são tagarelas e que adoram sair tocando as campainhas dos corações alheios. Essa menina diz um bocado de coisa, mas o que mais repete é que aceita café, por favor. .
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