Salinê Saunders

Essa menina diz que ama, e que amando, escreve. Diz que as coisas escritas são tagarelas e que adoram sair tocando as campainhas dos corações alheios. Essa menina diz um bocado de coisa, mas o que mais repete é que aceita café, por favor.

Primeiro dia de aula

Sobre re: colorir, invetar, descobrir, o caminho.


kljkljk.jpg

Tropecei e sujei o uniforme novo de barro fresco no primeiro dia de aula.

Primeiro dia de aula! Toda arrumadinha com as borboletas coloridas novas no cabelo. Toda boba que estava entrando pro primeiro ano do ensino FUN-DA-MEN-TAL. Eu, naquela altura, não sabia bem o que significava fundamental, só sabia que os adultos a usavam com um tom de voz um pouco mais afiado que nas demais palavras, como - Comer brócolis é FUNDAMENTAL! Portanto, eu já sabia que era séria essa história de primeiro ano.

Me dediquei uma semana antes, matutei acerca de todos os possíveis emperequetamentos de cada canto do meu corpo vaidoso. Após tudo visto e decidido, desenhei, já que não saberia escrever todos os itens, desenhei cuidadosamente cada item numa folha perfeitamente branca de A4: 6 borboletas de cabelo, uniforme novo, tênis preto, meia branca, calcinha da moranguinho, brinco de joaninha, mochila da turma da mônica, anel de estrela... Tudo perfeito e muito melhor do que na alfabetização, é claro.

Lá estava eu, andando sozinha pela rua mal asfaltada, quando de repente o maior de meus pesadelos apareceu à direita e eu, como num filme aterrorizante, fechei os olhos, apavorada com aquele violentíssimo poodle barulhento de lacinho rosa. A dona, também dona de um voz que poderia sem dúvidas ser usada numa dublagem de bruxa má, repetindo o mesmo 'papinho mixuruca' de que: Ah! Ela não morde! Retira, enfim, a ameaça à vida humana de perto de mim.

Alguns minutos depois, após aquietar o coração palpitante com pensamentos menos impetuosos, me virei o mais rápido que pude e sai correndo bestamente com minhas pernas já bastante longas pra minha idade e... A poça. A maldita poça de barro fresco que sujou minha roupa toda.

- Não!!!! (Acompanhado de um bico daqueles que derrete um coração adulto feito manteiga na chapa) Depois de analisar e constatar a calamidade nada artística desse acidente, acocorei com o rosto entre os joelhos e chorei umas lágrimas de desabafo de tanta coisa acontecendo junta. Achei, entre meus pés, nesse momento onde toda minha expectativa de um dia perfeito havia sido levada cruelmente por aquele poodle, pequenas florzinhas amarelas brotando da rachadura antiga da calçada. Eram umas 8 florzinhas com um miolinho branco descabelado. Fiquei ali, propositalmente me perdendo naquelas micropétalas, quando a professora Maria Rita, do ano anterior, se sentou do meu lado.

- Posso ajudar Sali? - Pode não tia, já estraguei tudo aqui ó – Disse inconsolada mostrando a camiseta suja. - Pois então ajeite menina! Disse sorrindo. Me deu um beijo estalado na testa e foi em direção a escola.

“Então ajeite!” Repeti mau humorada. Joguei o peso pra trás e caí sentada, numa tentativa emburrada de achar um bom motivo pra falar pro meu pai que não tive outra escolha se não voltar pra casa e esquecer de meu futuro como professora, já que a partir daquele dia, o desânimo, e o poodle, haviam podado toda uma vida dedicada aos estudos.

Peguei uma das flores emprestadas da calçada e comecei a olhar. Olhar... Olhar... Rolava como um pirulito aquele caule frágil entre os dedos igualmente delicados. Quando o caule estava quase se decompondo, coloquei num buraquinho da trama larga e grossa da camiseta. Gostei. Coloquei outra. E outra... As 8.

Levantei, olhei pro canto do muro atrás de mim, haviam dezenas delas!!! Cheguei atrasada na aula, com batom rosa, borboletas no cabelo, mochila da mônica e uma obra de arte no uniforme. As freiras não gostaram muito, com exceção de Maria Rita, que me olhou doce e me deu suas covinhas como aprovação.

Minhas novas colegas me olharam risonhas, como se achassem tudo aquilo muito estranho e bonito. Ao menos foi o que escolhi acreditar que elas estavam pensando. Sentei atrás, já quem nem me restavam opções, e tive a graça de ser espiada por olhos curiosos, sorridentes e admirados durante toda a tarde.

Professora Maria Rita disse que isso se chama reinventar. Naquele dia eu aprendi que o prefixo RE é aquilo que pode tornar as coisas ainda mais bonitas.


Salinê Saunders

Essa menina diz que ama, e que amando, escreve. Diz que as coisas escritas são tagarelas e que adoram sair tocando as campainhas dos corações alheios. Essa menina diz um bocado de coisa, mas o que mais repete é que aceita café, por favor. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Salinê Saunders