Salinê Saunders

Essa menina diz que ama, e que amando, escreve. Diz que as coisas escritas são tagarelas e que adoram sair tocando as campainhas dos corações alheios. Essa menina diz um bocado de coisa, mas o que mais repete é que aceita café, por favor.

SIGAM-ME OS BONS

A fila do INSS está cheia de herói de verdade.


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Nossos heróis envelheceram. Alguns morreram de desgosto, outros, vivem na beira de qualquer lago clichê onde caiba sua aposentadoria. Nossos heróis, aqueles caras que vinham quando precisávamos de socorro, quando incorporávamos a mocinha desamparada, estão todos usando chinelos confortáveis e se preocupando mais com a pinta que cresce na testa do que com a segurança de quem quer que seja.

Nossos heróis envelheceram, mais que alegria! Não adianta projetar morcego nas nuvens, nem testar Chapolin com: E agora? Quem poderá nos defender? Ix meu filho, ninguém vai te defender. Nem os caras que você elegeu ano passado, que ganham pra isso, o fazem, quem dirá aquele bando de mortal iludido que malhava demais. Foram enterradas juntas aquelas heroínas barbies que não faziam xixi, por que sinceramente, quem é que faz xixi com um macacão daqueles? Foram enterrados aqueles corpos desenhados que faziam nossa pancinha cheia de vermes parecer algo um pouco desajustado. Algumas leram Simone de Beauvoir, arrancaram o espartilho e queimaram sutiã, confesso que dessas ainda coleciono figurinhas.

Nascemos num lugar curioso do tempo, comemoramos aniversários vestidas de Mulher Maravilha e nos despimos gritando Cazuza, que já havia entendido que nossos heróis venderam a capa vermelha pra comprar drogas. Dizem as boas línguas que alguns enlouqueceram e hoje vivem no meio da floresta amazônica aprendendo a mexer com seringueira e fazer ayahuasca, soube até daqueles que largaram tudo pra abrir um centro de terapias alternativas... Vai saber.

Nunca conheci nenhum em seu formato hollywoodiano, não que eu não tivesse desejado, simpatizava tanto com o Homem Aranha que me enchia delas na esperança de ser picada por uma que me fizesse subir pelas paredes, por sorte elas só me deram coceira e alguns anos depois o sexo fez isso por mim. E no sexo ninguém precisava usar aquele maldito macacão.

Tá cheio de eco heroico na televisão, nas novelas, filmes, games, já sabemos. Ainda tem lavagem cerebral desse tipo e de outros rolando solta nos lugares onde as pessoas não abriram os olhos o suficiente pra enxergar a doença disfarçada de diversão. A coisa está começando a mudar, também sabemos, existem lugares onde esse passado é ainda mais distante e isso é motivo de comemoração! De festa! De vender a capa vermelha e encher a cara de vinho. É uma alegria imensa ver meninas que odeiam rosa e meninos que amam bonecas e perceber que o número de pessoas que associam essas escolhas ao o que essas crianças farão com seus órgãos sexuais quando estiverem maduros caiu consideravelmente, mais gente tá virando a cara e falando, pausadamente: BA-LE-LA.

Mesmo que ainda existam profissionais e empresas que engordam a carteira adoecendo gente, também se espalham por aí projetos que guiam nossos filhos pruma realidade cooperativa, real e doce... Quem sabe esses, que vestem roupas e ideais confortáveis, sejam os heróis dos nossos netos. Aí sim eu volto a decorar festa infantil com personagem, desde que seja um bem humano, que ensine pra toda gente, miúda ou não, que só o músculo cardíaco tem força suficiente pra salvar o mundo.


Salinê Saunders

Essa menina diz que ama, e que amando, escreve. Diz que as coisas escritas são tagarelas e que adoram sair tocando as campainhas dos corações alheios. Essa menina diz um bocado de coisa, mas o que mais repete é que aceita café, por favor. .
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