Salinê Saunders

Essa menina diz que ama, e que amando, escreve. Diz que as coisas escritas são tagarelas e que adoram sair tocando as campainhas dos corações alheios. Essa menina diz um bocado de coisa, mas o que mais repete é que aceita café, por favor.

Super autêntica, nossa heroína moderna

Os padrões estéticos estão aí, criados por uma minoria e alimentados por nós, consumidores. Lapidar sua originalidade ou modificar seu corpo em prol da uniformização, qual a sua escolha?


Larissa.jpg Foto e modelo: Larissa Rogério Bezerra

Numa interjeição de alívio, a moda enfim aprovou os caracóis encantadores que brotam mau educados de tantas cabeças femininas. Enfim a padronização lisa e loira rolou barranco abaixo e virou só mais uma alternativa e não um cenário obrigatório nas ruas e revistas do País. Nunca fui lisa e loira, nem dona de uma bem cuidada cachopinha estilosa. Meus cabelos castanhos ondulados, tão meio termo, são eternamente apertados, amassados e comprimidos na tentativa fiel de achar um mísero cachinho perdido, mesmo aqueles, sabe aqueles? Perto da nuca? E se acho (aaah se eu acho) ando com ele exibidamente, me sentindo uma quase crespa orgulhosa. Mas não pode bater vento, por que se uma brisa um pouco mais decidida entrelaça nas minhas ondas frágeis, quase que de imediato viro uma lisa, ficar na frente do ventilador pra mim da “efeito chapinha”. Enfim, essa minha relação com os cachos servem como um simples prefácio para ilustrar um conto que uma amiga me contou pra eu aumentar um ponto e virar prosa boa pra vocês.

Os caracóis de Larissa sofreram assédio moral, impertinência e perseguição. Foram alvos de uma mente lisa sem dó, uma mente bêbada de formol insultou seus ziguezagueantes fios negros. Estava ela, com sua energia que mora entre a tranquilidade e a euforia, imersa de forma tenaz às questões que lhe semeiam fascínio e em paz, com sua camiseta canadense e sua bermuda cearense. E deste silêncio pacato eis que surge uma janela facebookiana, mãe de toda injúria capilar derivada daquele momento, era um amigo bem intencionado que recorreu à Larissa assim que soube que uma conhecida, proprietária de uma empresa de cosméticos, estava buscando irrequieta por moças fartamente encaracoladas pra estrear um novo produto. Ao ser indagada sobre a possibilidade de se tornar a mais nova Taís Araújo, respondeu saltitante: Mas é claro que sim!!! Já habitada pela idealização de ver seus cachos adorados exibidos nos comerciais do horário nobre. Elegeu suas melhores fotos, onde seus redemoinhos estavam soltos e brilhosos como fogos de artifício, e as enviou para a cidadã responsável que apressadamente retornou, afirmando equivocada:

- Sim, você é exatamente o perfil que estávamos procurando!

Esse plural fez cócegas na imaginação borbulhante de Larissa; Estávamos? Pensou logo que deveria ser uma equipe daquelas que James Cameron ficaria contente em dirigir. Já deliciava-se com as prováveis regalias quando a fulana continuou a frase:

- A ideia é encontrarmos uma modelo como você, para participar de um antes e depois da utilização do nosso super lançamento, um cosmético capilar que promove um alisamento espetacular e definitivo. Quando podemos gravar?

Nessa hora seu queixo precisava ser amarrado novamente à cabeça, caiu desconsolado no colo com o impacto dilacerante de imaginar seus caracoizinhos, tão amorosamente cuidados, afogados, esticados e imobilizados por um composto de siglas químicas que poderiam facilmente estar presente na fórmula do sapólio. Estatelada e com o queixo abandonado no colo, Larissa, ainda buscando retomar o fôlego e a crença na humanidade, responde ao convite indecente:

- Obrigada querida, mas meus cabelos cacheados não são um problema a ser solucionado.

Se encheu de orgulho, perfume e flor no cabelo e foi encaixar os dedos redondinhos nos caracóis apaixonantes do namorado. Esse episódio, tão natural a nós que vivemos desviando de verdades prontas e padrões empacotados, demonstra que a contusão sofrida pela auto-estima humana no desenrolar da construção da cultura ocidental, reverbera ainda nos espelhos do século XXI. Como um trauma de infância ainda sentimos na pele (pés, cabelos, seios, barrigas e bundas) toda imposição silenciosa em sustentar características físicas, que na grossa maioria das vezes, são profundamente incompatíveis com nosso molde, desmaquiadas e nuas. Mesmo achando peitos de silicone e barriga retinha uma belezura, ainda não conheci beleza maior que aquela feita unicamente no útero.

Essa beleza vendida em frascos e clínicas plásticas ainda não se nivela com o descabelar matutino daqueles que carregam um pedaço do nosso coração no bolso. Há uma incomensurável diferença entre lapidar e modificar, escolher entre embelezar-se aceitando aquilo que é autêntico e adulterar-se aprisionando um peito inseguro num corpo de revista.


Salinê Saunders

Essa menina diz que ama, e que amando, escreve. Diz que as coisas escritas são tagarelas e que adoram sair tocando as campainhas dos corações alheios. Essa menina diz um bocado de coisa, mas o que mais repete é que aceita café, por favor. .
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