porão da alma

Carregue sempre a sua própria luz do sol

Caio Augusto Ribeiro

Sou um verbo conjugado na 1ª pessoa do singular. Ator e diretor no Teatro Laboratório Experimental (TLE), autor do livro O Porão da Alma, acadêmico de Ciências Sociais pela Universidade Federal de Mato Grosso e pai do Marcelo

A solidão das pessoas nas capitais

A tecnologia nos deixou só. E como é estar sozinho no meio de todo mundo? Ao final deste artigo, experimente escrever uma carta...


“E a solidão das pessoas nas capitais” cantou Belchior sem saber que iria prever um futuro mais próximo do que poderíamos imaginar. A verdade é que nunca estivemos tão sozinhos. A sociedade do consumo, capitalista e industrial, conseguiu vender seu ideal de consumo para preencher as lacunas que se quer existiam dentro de nós, mas que acreditamos, e por isso, ganharam vida. Temos o incrível poder de acreditar em mentiras e torna-las desejos insanos de posse.

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O princípio de todo este precipício, onde caímos sozinhos, germinou com o avanço da tecnologia portátil. E a comodidade do mais prático, substituiu a essência do mais velho. Antes, escrever cartas era uma espécie de ritual, onde nossos ancestrais sentavam-se diante de sua escrivaninha à luz de velas e debruçavam seus sentimentos em quase dez páginas de registro pessoal. E com isso, após o escândalo de sentimento presente na carta, iam até os correios e, após pagar uma determinada quantia, enviavam seus sentimentos. Imagine o período de espera, ardendo em incerteza e ansiando pelas respostas da pessoa distante. Qual sensação mais bela é chegar em casa e no meio de tantos envelopes de contas e boletos, uma carta. Uau!

A leitura lenta, os sentimentos sinceros, o riso bobo no canto da boca, ali, sozinho no quarto. A atitude de apanhar a caneta, encontrar um belo papel de carta, debruçar sobre a vida e discutir as dúvidas e responder as certezas da primeira mensagem. E após algumas horas, enviar a tão esperada resposta. Todo este processo duraria dias e é carregado de um ritual muito admirado hoje, pela nossa geração prática, fugaz e preguiçosa. Bauman discorre sobre a nossa solidão em 44 Cartas de um mundo Líquido e consegue, com muita decência, nos deixar pensativos. E provocar o leitor é a maior arma que o autor pode ter: criar um pensamento em outra mente. Uau!

“Os inventores e vendedores de walkmans, os primeiros aparelhos portáteis que nos permitiram ‘ouvir o mundo’ onde quer que estivéssemos e sempre que desejássemos, prometiam aos clientes: ‘Você nunca mais estará só! ‘ É óbvio que eles sabiam do que estavam falando e por que essa mensagem publicitária incentivaria a venda de aparelhos – o que de fato aconteceu, aos milhões. Sabiam que havia milhares de pessoas nas ruas que se sentiam solitárias e odiavam essa solidão dolorosa e abominável; pessoas que não só estavam privadas de companhia, mas que sofriam com essa privação. Em lares cada vez mais vazios durante o dia, onde o coração e a mesa de jantar da família foram substituídos por aparelhos de TV presentes em todos os cômodos – ‘cada indivíduo preso em seu próprio casulo’ –, um número sempre decrescente de pessoas podia contar com o calor revigorante e alentador da companhia humana; sem companhia, elas não sabiam como preencher as horas e os dias. ” (Bauman, 2011)

Hoje, é possível entender e encontrar um mundo completamente apocalíptico. Há em todos nós uma grande abominação as gerações antigas, ao trabalho desperdiçado para produzir alguma coisa. Time ainda é Money e isso destrói todo o ritual de criação humana. Valorizamos mais os resultados do que o processo. E queremos um processo rápido, eficaz e que não desperdice tempo.

Em sua gênese, o cinema não tinha cor e som. Após alguns anos, recebemos o presente dos deuses em dar cor e som aos filmes. Conforme a demanda e o contentamento com tecnologia tão incrível, o cinema rompeu as paredes e tornou-se cada vez mais tecnológico. Imagem HD, som digital, cinema 3D, ar-condicionado nas salas, poltronas confortáveis, cinema 4D com cadeiras que se movem, filmes em que, de acordo com a cena, é derramado água ou rajadas de ar na plateia... Sempre em frente. Daqui a alguns anos irão anunciar que inventaram o teatro.

As pessoas estão sozinhas espacialmente, mas conseguem ter um outro universo criado por elas mesmas na palma da mão. Não abomino a tecnologia, mas acredito em seu uso moderado. Caminhamos pelas ruas, completamente sozinhos, e estamos conversando com pessoas em qualquer lugar do mundo. Há nas redes sociais um universo metafísico onde podemos “entrar” e viver.

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O Facebook é um universo paralelo ao nosso onde podemos compartilhar nossa vida como nos antigos diários do séculos XIX. Imagine os historiadores do futuro se debruçando nas páginas vazias da nossa internet morta analisando os costumes e postagens dos extintos humanos do século XXI. Nosso deus iria se chamar coca-cola e as hashtags seriam objetos sagrados para anunciar nossos mantras. #TeveBom, #BaladinhaTop, nossas orações sagradas.

É como se hoje eu posicionasse minha mão diante do meu rosto e falasse com ela e, do outro lado da cidade, outra pessoa fizesse o mesmo e recebesse a minha mensagem. Não estamos juntos, não estamos próximos, mas de alguma forma, este instrumento consegue nos unir. NÃO! Ele nos dá a falsa sensação de união. Ele doutrina nossa mente a pensar no simplificado, no prático, na conexão mais rápida e no processo mais curto. Estamos atrofiando pois vivemos mais num mundo que não existe, mas disseram para nós e agora estamos acreditando!

Falamos sozinhos e acreditamos estar num outro mundo... somos vítimas da própria Matrix que nos prendemos. Por trás dos inúmeros sorrisos em selfies, há uma dor solitária que rasga o peito de muita gente. Vivemos na época em que compartilhar não é sinônimo de partilha e generosidade e sim circulação de informação e interesse. “Ser louco é a única forma de ser saudável neste mundo doente” disse o filósofo Leandro Karnal. E sabe o que é ser louco? Passar horas escrevendo uma carta de dez páginas e passar cinco dias esperando a respostas; não postar selfie e sim poesia; revelar fotografias; escrever um diário; sair com os amigos; desligar o celular; NÃO ter celular... Oh, meus deuses, em que mundo viemos nos perder?!


Caio Augusto Ribeiro

Sou um verbo conjugado na 1ª pessoa do singular. Ator e diretor no Teatro Laboratório Experimental (TLE), autor do livro O Porão da Alma, acadêmico de Ciências Sociais pela Universidade Federal de Mato Grosso e pai do Marcelo.
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