porão da alma

Carregue sempre a sua própria luz do sol

Caio Augusto Ribeiro

Sou um verbo conjugado na 1ª pessoa do singular. Ator e diretor no Teatro Laboratório Experimental (TLE), autor do livro O Porão da Alma, acadêmico de Ciências Sociais pela Universidade Federal de Mato Grosso e pai do Marcelo

Manifesto ao Teatro comercial

Escrevo este artigo, mas não destino a um receptor senão a todos que acreditam na importância do teatro como arma e instrumento libertador da mente e das opressões sofridas diariamente.


Como bem disse Boal “(O teatro é)Uma arma muito eficiente. Por isso, é necessário lutar por ele. Por isso, as classes dominantes permanentemente tentam apropriar-se do teatro e utilizá-lo como instrumento de dominação. Ao fazê-lo, modificam o próprio conceito do que seja o ‘teatro’. Mas o teatro pode igualmente ser uma arma de liberação. Para isso, é necessário criar as formas teatrais correspondentes. É necessário transformar” (Boal, 1974)

boal.jpg Augusto Boal e o Teatro do Oprimido em Paris, 1975.

Hoje acordei e senti saltar a pele o desejo de escrever um manifesto. No caminho para o trabalho, escrevi todo o ensaio mental, mas foi agora, em minha sala no colégio em que trabalho, que comecei a tornar palpável este desejo. A vontade do fazer teatral surge deste desejo que floresce dentro de nós e que, por algum motivo, traz alegria e paz intensa. Não conseguimos explicar em palavras quando vamos buscar uma definição rápida, pois o sorriso ao falar do prazer teatral nos priva da mera e simples língua, cuja própria limitação não é capaz de definir um sentimento para isto. Logo quando nos deparamos com os moldes destrutivos da atual configuração social, como atores e atrizes, sentimos brotar o nosso primeiro manifesto legítimo. Ele é interno e é genuinamente autêntico. É inaceitável o ator que consegue reprimir os estímulos causados pela sociedade e não os transformar em sua primeira forma de expressão: a crítica.

O ator ou atriz, assim que inicia sua labuta, depara-se com as diferenças sociais em todos os campos da sociedade, seja em seu próprio meio artístico, na configuração social atual em que se encontra o teatro ou na sociedade enquanto componente do País. Estas diferenças sociais são venenos letais para o ator e para atriz, cujo primeiro contato é necessário para mobilizar todas as suas células para criar uma intervenção. O verdadeiro ator e a verdadeira atriz são aqueles que não aceitam em silêncio o trágico primeiro contato com as diferenças. É necessário que brote no ator ou na atriz o máximo sentimento de revolta diante desta primeira avaliação.

O ator ou atriz é um sujeito que conseguiu retirar o véu que tapava seus olhos. Na verdade, o teatro é a grande arma capaz de erradicar as mãos que tapam os olhos e a boca de todos os atores e atrizes, para assim, retirar o véu. É necessário que haja a extrema sensibilidade para com todo o universo que existe após a fronteira que se inicia após o fim do nosso corpo e uma extrema militância para dar-lhe forças no combate das injustiças. Ser ator ou atriz é tomar partido (Boal, 1979). A neutralidade consegue ser um crime contra a própria humanidade, podendo fazer com que o ator ou atriz seja cúmplice dos opressores, caso opte por ser neutro.

Na atual configuração do Teatro há um distanciamento deste sentimento, desta retirada do véu. Como uma instituição muito antiga, passou por todas as suas fases de evolução e hoje encontra-se doente. Não o teatro, mas aqueles que acreditam estar fazendo teatro. Como arma, foi usado em grandes momentos de decisões políticas, guerras e conflitos armados, em episódios sangrentos da história brasileira e mundial. No Brasil, temos o grande período de Ditadura Militar, responsável por uma extrema repressão aos artistas que lutavam por igualdade e justiça. Esta repressão se dava na privação do ofício do ator, na violação do direito civil e na violação da integridade do corpo, em horas e horas em salas escuras de tortura.

a93235989fb.jpg Exemplo clássico do teatro comercial.

Hoje, os que acreditam estar fazendo teatro, tornam-se um reflexo distorcido do que já foi um ator ou atriz, cria-se um teatro irreal e distante da sociedade que omite os problemas e não problematiza buscando solução. É um teatro meramente comercial que ignora a existência da luta política e recria, com o que tiver em alta na mídia, espetáculos pífios que conseguem lotar uma casa e fazer três sessões. Admito que a visibilidade que o teatro comercial criou é necessária para a propagação e difusão do teatro, mas não nego todas as minhas críticas em como esta vil prática adoeceu o teatro. Os mesmos personagens infantis que propagam a mídia são cultuados e adorados pelas crianças pobres e pelas crianças ricas, mas o teatro comercial vai apenas nos grandes teatros e centros urbanos, cobrando um nada simbólico preço. Não há no teatro comercial as ações descentralizadas, os projetos sociais que buscam quebrar com os eixos e ir onde estão as crianças que sonham como todas as outras, mas por intermédio do Estado, foram jogadas a margem, taxadas de “periféricas” e esquecidas.

É mais cômodo para os artistas do teatro comercial fiquem em lugares “seguros”, de “fácil acesso” e que lhes proporcionem a mídia necessária. A causa do preconceito com os lugares periféricos é justamente a falta de teatro presente nestes lugares. Talvez toda a violência presente na periferia seja fruto da ausência de um teatro presente e eficaz nestes lugares. O teatro comercial cria a diferença: torna o sonho de ver uma princesa da Disney brilhar nos palcos próximo para crianças ricas e, de forma fatal, sentencia que para os pobres isto é um sonho distante e impossível. Só saberão qual a sensação real do teatro quando os fazedores de teatro comercial forem até um bairro carente e realizarem ali um espetáculo e sentirem o contentamento e êxtase das crianças presentes. Haverá apenas amor e aceitação.

Chamada 2.png Espetáculo Zepelim: Imperatriz & Meretriz, Cia Inclassificáveis, direção de Caio Augusto Ribeiro. Praça da República, Cuiabá-MT 2015

Não culpo os que se omitem do teatro político para fazer o teatro comercial. O Estado foi omisso e destruiu os parâmetros de valorização cultural e sentenciou que a profissão de ator ou atriz fosse desvalorizada, pela falta de incentivo e pela capacidade de libertar a mente da ignorância. Com isto, para sobreviver no teatro, há a necessidade do dinheiro. O capital é o que separa o fazer o que gosto do fazer o que dá dinheiro. Apegando-se na falsa ideia de que o teatro comercial é legítimo, são acometidos pela falsa ideia de subsistência: Farei teatro e ainda receberei para isso. Não digo que o ator ou atriz não deve receber, pelo contrário, deveria receber, e muito. Mas a falta de dinheiro despertou em nós uma grande força para lutar e não concordar com as coisas e injustiça impostas a nossa classe. Ator e Atriz é o que cria, participa do processo, estuda, milita e principalmente, questiona os acontecimentos e busca uma solução. No teatro comercial, não há todas as etapas deste processo, portanto, não é legítimo.

No mais, finalizo a primeira carta com o anseio de que possa despertar nos atores e atrizes a força necessária para reviver o teatro político, seja nos moldes de Boal, Brecht e tantos outros que sonharam com o teatro como arma e instrumento de libertação da vida. Que todos consigam retirar o véu e que o teatro possa destruir os eixos e se recriar, com ações descentralizadas, indo onde o Estado se omite, tocando o público que, vítima das mentiras da mídia, acha que não é público. Que cheguemos nestas pessoas e façamos com que saibam: Não há fronteira e limite que os separe dos outros. Sejam público, sejam atores, sejam teatro!


Caio Augusto Ribeiro

Sou um verbo conjugado na 1ª pessoa do singular. Ator e diretor no Teatro Laboratório Experimental (TLE), autor do livro O Porão da Alma, acadêmico de Ciências Sociais pela Universidade Federal de Mato Grosso e pai do Marcelo.
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