LUIZ ROSA

Mulheres protagonistas?!!

James Bond poderia ser interpretado por uma mulher? Não? Sim? Para além disso, quantas mulheres são protagonistas de franquias cinematográficas ou séries de televisão? A realidade que nos passa muitas vezes desapercebida cotidianamente, assusta quando observada mais de perto: o cinema tem uma enorme predominância de homens no papel principal, mas não só, também na produção, direção e outras tantas áreas da sétima arte.


Ao expressar (despretensiosamente) minha opinião sobre comentários recentes acerca da possibilidade de James Bond ser interpretado por uma atriz, fui confrontado com comentários sobre o machismo representado pelo agente secreto e o porquê de haver tão evidente imposição de gênero ao personagem que, segundo alguns, poderia ser sim vivido por uma mulher.

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Sem entrar no cerne dessa questão, passei a refletir sobre o machismo no cinema, a começar pelo agente secreto mais famoso do mundo que, quando criado, em 1952, chegou até a agredir fisicamente mulheres (vide cena de Goldfinger, para citar apenas um exemplo), absurdo já para a época e que hoje dificilmente seria levado ao cinema. Mas para além disso, poderíamos refletir sobre as inúmeras franquias ou personagens de sucesso em busca de protagonistas femininas. São poucos (para não dizer pouquíssimos) os exemplos que poderíamos citar: Lara Croft de "Tomb Raider" (vivido por Angelina Jolie em 2001 e 2003), Katniss Everdeen de "Jogos Vorazes" (interpretada por Jennifer Lawrence em 2012, 2013, 2014, 2015), Bella Swan da saga "Crepúsculo" (protagonizado por Kristen Stewart em 2008, 2009, 2010, 2011, 2012) entre outras, observando que o critério nesse caso foi a existência de uma série com mais de um filme protagonizado por mulher. É evidente que há personagens marcantes no cinema vividos por atrizes: Jodie Foster como Clarice Starling, em "O Silêncio dos Inocentes" (1991), Fernanda Montenegro como Dora, em "Central do Brasil" (1998), Meryl Streep como Miranda Priestly, em "O Diabo Veste Prada" (2006) ou como Margaret Thatcher em "Dama de Ferro" (2011) e Helen Mirren como Elizabeth II no filme "A Rainha" (2006) são alguns exemplos entre tantos outros. No entanto, é também evidente que essa lógica não se aplica à maioria dos filmes (ou séries) e às franquias, afinal Harry Potter, Sherlock Holmes, James Bond, Jason Bourne, "O Senhor dos Anéis", "Tropa de Elite" (para termos um brasileiro na lista) e mais uma enorme quantidade de franquias – incluindo também quase todas as baseadas em super heróis - possuem como característica comum serem protagonizadas por homens. Assim, não é de se surpreender que durante a premiação do Oscar - em 2014 - a atriz Cate Blanchett (vencedora na categoria Melhor Atriz por Blue Jasmine) tenha dito que "para aqueles da indústria do cinema que ainda acreditam ingenuamente que filmes protagonizados por mulheres são uma experiência de nicho, eles não são. O público quer vê-los e, na verdade, eles rendem dinheiro". Na mesma linha seguiu o pedido por igualdade salarial de Patricia Arquette - vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2015 pelo papel Olivia Evans (de Boyhood) - ou de Robin Wright (a fria e misteriosa Claire Underwood de House of Cards) que ameaçou deixar o papel caso não recebesse o mesmo valor pago a Kevin Spacey - Frank Underwwod - protagonista da série.

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Assusta pensar que das 100 maiores bilheterias de 2013, apenas 16 tenham sido protagonizados por atrizes, ainda que apresentassem 20% maior arrecadação do que os filmes que tiveram atores como protagonistas (segundo a Revista Monet - publicação de março de 2014). A realidade é ainda mais chocante quando olhamos para a categoria de Melhor Direção do Oscar - apenas para citar um exemplo. A premiação, entregue desde 1929, demorou nada mais nada menos do que 82 anos para premiar uma mulher como melhor diretora de cinema. Foi Kathryn Bigelow, por "Guerra ao Terror" - de 2010 - que desbancou, entre outros filmes, "Avatar" dirigido por James Cameron, com quem aliás a diretora foi casada entre 1989 e 1991. Oitenta e dois anos para premiar uma mulher, que até hoje é a única detentora da estatueta nessa categoria. É possível inferir que nesse mundo onde filmes são dirigidos predominantemente por homens, roteiros com protagonistas mulheres tenham mais dificuldade de serem aceitos, produzidos, filmados e lançados. Desde as grandes bilheterias ou franquias até os pequenos lançamentos, passando pelas séries de televisão renomadas (Vikings, Sherlock, Breaking Bad, House of Cards, Os Três Mosqueteiros, Marco Polo, Mr. Robot, e mais outras tantas), há um enorme predomínio de protagonistas homens e mais, se quisermos ir além, poderíamos arriscar que muitos são inclusive feitos para o público masculino, afinal, muitas das séries e franquias que aqui foram citadas e outras tantas que poderíamos citar tem homens como público alvo. Olhando por essa perspectiva, percebemos que não se trata então apenas da possibilidade de James Bond ser ou não interpretado por uma atriz, mas para além disso perceber que há um enorme predomínio de atores como protagonistas, em uma lógica que vai de encontro ao mundo atual, no qual mulheres possuem maior protagonismo, crescente participação e enorme atuação social e política. Existem, evidentemente, sinais de lenta mudança e uma prova de como a realidade mudou nessas últimas décadas é que 007 teve uma mulher como chefe durante muitos filmes: M vivida por Judi Dench de "GoldenEye" (1995) até "Skyfall' (2012), o que seria completamente impensável quando Ian Fleming idealizou o personagem na década de 1950. No entanto, vale lembrar a primeira conversa que Bond teve com M em “GoldenEye”, quando ela o chama de "dinossauro sexista misógino, uma relíquia da Guerra Fria", no que ela não deixa de ter razão e, ainda que James Bond permaneça sendo um homem (seja com Daniel Craig seja com outro ator no papel), a torcida deve ser para que haja um maior número de atrizes com protagonismo em todos os aspectos da sétima arte: da atuação à direção, da trilha sonora à produção.


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