LUIZ ROSA

"The Night Of" - as aparências enganam?

A série The Night Of chegou ao fim como um dos grandes lançamentos da HBO neste ano. Nas entrelinhas de uma trama sobre um crime, a pergunta que fica é se o julgamento que fazemos das aparências coincide com a realidade.


Imagine a seguinte situação: um jovem descendente de paquistanês pega o táxi do pai sem seu consentimento para ir a uma festa da faculdade. No meio do caminho, uma garota entra no carro imaginando que aquele seria um táxi comum. Por se interessar por ela, o rapaz aceita levá-la para andar pelas ruas de Nova Iorque, parando para comprar cerveja em uma loja de conveniência e ver a paisagem à beira do rio Hudson. Depois, quando já surge algo mais entre eles, ela lhe pede que a leve para casa, onde se drogam e transam. Ao despertar na cozinha da casa, o rapaz – atordoado pelas drogas - não se lembra de muita coisa e ao subir para o quarto encontra a garota morta por vários golpes de faca. Esse é o início da série The Night Of do HBO, cuja primeira temporada de oito capítulos estreou no dia 10 de julho deste ano – logo após o fim da mais do que aclamada Game of Thrones - e que teve o último capítulo exibido no domingo 28 de agosto.

2016-06-13-the-night-of.jpg

Baseada na britânica “Criminal Justice” (exibida entre 2008 e 2009), a série é uma daquelas que prende a atenção do começo ao fim! Cheia de pontos soltos que são amarrados com o desenrolar da temporada e alguns que precisarão de uma continuação para ser explicados, a começar pela dúvida sobre a autoria do crime e a real personalidade de Nasir Khan, muitíssimo bem vivido por Riz Ahmed. Destaque também para o advogado “chave de cadeia” Jack Stone, brilhantemente interpretado pelo ator John Turturro, que aceitou a missão após o falecimento de James Gandolfini e da recusa por conta de agenda de Robert De Niro. Turturro é uma motivação a mais para se envolver com a série. Seu advogado oscila entre momentos sérios e momentos com refinada dose de humor. Soma-se a tudo isso, a fotografia que pende para tons sóbrios e escuros e uma trilha sonora que em nada briga com o que está em cena e em nada revela o que virá. Mas para além de todos esses aspectos técnicos e de atuação – que merecem ser enaltecidos – The Night Of fala de um problema característico de nossa humanidade: o pré-julgamento. Neste caso, sobre um muçulmano nos Estados Unidos que é alvo de preconceito depois do 11 de setembro e sobre um advogado com sérios problemas de pele e pouca credibilidade no meio jurídico que não parece ser a pessoa indicada para cuidar do caso. Para os que não moram nos Estados Unidos ou que não viveram de perto o perto o horror dos ataques terroristas às Torres Gêmeas o fato de Naz ser muçulmano pode até passar despercebido, já que essa questão não é levantada com muita força, ficando evidentes apenas no pano de fundo e em alguns pequenos diálogos. Com o advogado, no entanto, é diferente e as cenas deixam para o espectador uma constante sensação de que ele não é a pessoa certa para defender o réu.

episode-01-1024.jpg

Assim, cabe-nos questionar se não agimos assim cotidianamente? Não temos por hábito julgar a capacidade ou incapacidade de alguém por sua aparência? Ou, para além disso, quantas vezes não julgamos pela cor da pele, pela sexualidade, pela religião, por este ou aquele defeito ou esta ou aquela qualidade? Quanto a mídia, as propagandas, os exemplos não nos influenciam? Basta ver o perfil das modelos e dos modelos que estampam comerciais e revistas para nos depararmos com padrões muito específicos que criam em nós o costume de enxergar neles o tipo ideal de sociedade que, na verdade, não existe e jamais existirá.

A pergunta persistente acaba então por ser: em que o fato de Naz ser muçulmano ou o advogado ter uma doença de pele não transmissível deveria alterar o julgamento que nós – ainda que espectadores – fazemos deles? Se reside nesse mau hábito de julgar por determinada característica a perigosa essência que nos leva a intolerância, ao racismo, a homofobia e a todos os demais preconceitos, por que não combatê-lo? Mas a tentação parece ser mais forte e, ao exaltar as características que geram em nós o preconceito, a série deixa no ar a nossa capacidade de acertar em nosso julgamento. Colocassem ali um criminoso nova-iorquino loiro de olhos claros, corpo atlético, e um advogado ao estilo dos que existem em Suits, teríamos os mesmos questionamentos? Mike de Suits não é formado em Direito, mas quem assiste a série não duvida de sua capacidade, não é? Será que isso se deve também a sua aparência? Evidentemente, o roteiro ali é outro, mas a aparência de Mike e Harvey com seus ternos bem cortados dão a credibilidade que falta ao personagem de Turturro.

The Night of acerta em muitos aspectos. Seus tons sóbrios – já destacados, sua temática, a forma como a narrativa se desenvolve ao longo dos oito capítulos e até a duração de cada um deles são acertos valiosos da produção da HBO. A trama prende o espectador com facilidade e faz com que ele questione – se quiser – seus pré-julgamentos e sua forma de analisar os personagens por suas características. Digo e enfatizo o “se quiser” porque como já exposto esse tema apenas paira sobre a história, não sendo a questão central. E talvez a decisão de não transformar essas questões em panfletárias seja um dos grandes acertos da produção, que talvez até possa se valer mais desses tópicos para, caso haja continuação, desenvolver a história que terminou de forma surpreendente.


version 2/s/cinema// @obvious, @obvioushp //LUIZ ROSA