LUIZ ROSA

O que será de nós?!

A partir do documentário Chasing Ice, que retrata um fotógrafo registrando o derretimento de geleiras pelo mundo, uma reflexão sobre nossa sociedade e o impacto que causamos no meio ambiente.


Dia desses, perguntei a um amigo se o celular que ele carregava era o mesmo que eu tinha visto há algum tempo. A resposta negativa veio acompanhada da marca e do ano "2015" e foi complementada pela expectativa de comprar o novo quando lançarem daqui a alguns meses. Dois celulares novos em dois anos. Fiquei até um pouco envergonhado, confesso, de pensar que o meu tem três anos e eu não tenho pretensão de trocá-lo tão cedo, mas o que mais me chamou a atenção na conversa foi a percepção de que, sim, vivemos em uma sociedade que consome mais pela necessidade de consumir do que pela necessidade de trocar por uma falha técnica ou por um defeito definitivo. Poderíamos dizer que estamos viciados em consumir?

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Curiosamente, essa conversa veio em um momento em que dediquei parte do meu tempo com a questão do clima. Primeiro, li que a Terra havia entrado no cheque especial em julho. De agosto até o final do ano, tudo o que produzirmos e dela retirarmos será mais do que ela pode suportar. E pior, isso resultará em muitos dejetos lançados no mar, nos rios, na terra e no ar. Com isso, respiramos, comemos, bebemos fragmentos do nosso próprio lixo. E tanto a conversa sobre o celular quanto a notícia de termos atingido o limite se somaram a um excelente documentário sobre as geleiras chamado "Chasing Ice", no qual o fotógrafo James Balog usa o efeito time lapse para capturar o que está acontecendo com algumas geleiras. O documentário é muito interessante, bem feito e, além de retratar questões ambientais, retrata também o trabalho de um fotógrafo que resolve fotografar gelo durante alguns vários meses. O resultado do trabalho fotográfico é assustador!!! E a mais grave constatação é que as previsões de aumento da temperatura se mostraram menos pessimistas do que a realidade. O fato é que a Terra está aquecendo mais e mais rápido do que os cientistas previam há alguns anos e ninguém sabe muito bem o que isso pode causar a médio e longo prazo, além do aumento dos mares, que é dado como certo. Entre outros efeitos devastadores estão as doenças, como a varíola, que foram erradicadas ao longo da História, mas que podem estar presas no gelo ártico, antártico e "eterno" de geleiras e montanhas, podendo voltar à ativa a qualquer momento. Há, portanto, uma urgência tremenda para que algo seja feito. E mais, isso passa necessariamente por nossos hábitos, por nossa sede de consumo, por uma indústria responsável e por governos e governantes sérios e comprometidos. De nossa parte, precisamos introduzir o pensamento "eu preciso disso?" toda vez que formos comprar algo. Preciso de um celular novo? Preciso de uma roupa nova? Preciso de um carro novo?

Quando falei isso há uns dias no Facebook, fui rebatido com razão por um amigo que me confrontou com a ideia de que da produção industrial derivam riquezas, necessárias para o desenvolvimento social e para a manutenção das condições de vida. Verdade. O buraco é mais embaixo mesmo, como li em uma revista recente: "não basta mudarmos o Capitalismo, temos de criar um novo modelo econômico". E esse novo modelo econômico significa uma reestruturação de nossa sociedade, alterando paradigmas que podem ir desde a simples lógica comercial e de consumo até a existência de grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, isso porque, hoje, se questiona o sentido em manter jogos que exigem a construção de uma mega estrutura a cada quatro anos e que, muitas vezes, perde sua utilidade junto com a cerimônia de encerramento. Uma das hipóteses pensadas é a existência de sedes permanentes para os Jogos. Seria uma saída ecológica, mas será que passa dado o lobby de países e empresas que têm enorme interesse nesses eventos? Por falar nos Jogos, achei bacana que a abertura da Olimpíada tenha introduzido o tema. Achei mais interessante, ainda, que para além de falar resolveram plantar árvores, um legado verde para o Brasil. Pena que isso ainda é pouco se imaginarmos o enorme custo que um evento desses tem e o enorme impacto ambiental que gera. Impacto esse que muitas vezes não é sentido na mesma região ou continente dos Jogos, mas, em uma espécie de efeito borboleta, cria uma catástrofe ambiental do outro lado do mundo. Como fica evidente no documentário, o mundo não tem aquecido por igual, o que indica que nossa poluição paulistana – por exemplo – resulta indiretamente em um degelo do polo norte, a milhares de quilômetros de distância.

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Assim, o que o documentário nos mostra é que precisamos repensar, afinal, quando cada pedaço de gelo - que levou milhões de anos para se formar - derrete, derrete também um pouco da nossa esperança de ficarmos aqui. E aí, me lembrei do filme Interestelar que começa com a busca por um novo planeta habitável. Nele, na narrativa de Nolan, o homem acharia um buraco de minhoca que o levaria a uma galáxia distante, onde planetas seriam possíveis "novas Terras". Na ficção científica tudo isso é muito real, nesse nosso pequeno ponto azul vagando no meio do nada, não. Ou nós achamos a saída aqui e agora, ou poderemos não sobreviver como espécie e mais, poderemos extinguir a vida nesse planeta, porque afinal de contas, nós somos o único ser vivo desse planeta que não se importa com o resto, com o outro, com os demais habitantes do planeta azul. Não nos damos conta de que a geleira derretida que o fotógrafo retrata no documentário ou a árvore centenária cortada na Amazônia ou a tartaruga extinta em Galápagos afetam mais nosso cotidiano do que parece. Não nos damos conta de que a única saída para o problema que nós causamos se dará única e exclusivamente por nós mesmos. É preciso repensar e agir.


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