LUIZ ROSA

O Universo e nós

Somos ignorantes perante a tudo e a todos, mais ainda, somos falíveis. Nós falhamos várias vezes, falhamos em quase todas as nossas percepções do que somos como seres e do papel que ocupamos nesse enorme mistério chamado Universo.


Esses dias a NASA reviu a estimativa sobre a quantidade de galáxias no Universo visível. Digo visível porque é sabido que como a luz demora um tempo para chegar até aqui é possível e provável que ainda falte muita coisa para vermos. Isso é tão louco, já que assistimos apenas a um passado de alguns bilhões de anos, o que seguramente caracteriza uma fotografia sempre desatualizada da realidade. Aliás, até o sol que vemos se pôr todas as tardes está alguns poucos minutos desatualizado. Ou seja, assistimos sempre ao que já passou quando olhamos para o céu.

potw1636a.jpg ESA/Hubble & NASA (disponível em: http://www.nasa.gov/image-feature/goddard/2016/hubble-peers-into-the-storm )

Fato é que se imaginava algo em torno de 100 bilhões de galáxias e, agora, se trabalha com 1 ou 2 trilhões. Saltamos então de 100 000 000 000 para pelo menos 1 000 000 000 000 000 nesse universo visível. E se pensarmos que cada galáxia tem mais uma enorme quantidade de estrelas se chega a mais ou menos 700 sextilhões, ou seja, 7 seguido por 23 zeros. Para se ter uma ideia do absurdo que esse número representa, só para contar 1 trilhão se leva algo em torno de 32 mil anos, contando um número por segundo. Sim, o tamanho do universo visível é inimaginável. E ainda temos aquelas outras comparações sobre o tamanho da Terra ao sol ou ao sistema solar ou a galáxia e, cada vez que refletimos sobre isso, imaginamos como somos insignificantes. A pergunta “se estamos aqui sozinhos ou acompanhados?” se torna quase ridícula, afinal, em um espaço tão, mas tão vasto é quase impossível que haja somente vida em um imperceptível e invisível ponto azul. Mas ainda que a vida não seja exclusividade terrena, podemos dizer que, até agora, ela é rara. A primeira vez que o homem conseguiu sair da Terra foi na segunda metade do século XX, algumas poucas centenas de anos depois de chegarmos a conclusão de que não éramos o centro do Universo, alguns poucos anos depois de descobrirmos que a nossa galáxia não era a única no espaço. Sim, até Edwin Hubble, em 1923, descobrir que Andrômeda não era parte da nossa Via Láctea, mas sim uma outra galáxia, todos achavam que só existia um aglomerado de estrelas no céu. Saltamos então em menos de 100 anos, de 1 galáxia para 1 trilhão e seguimos contando.

potw1345a.jpg (Hubble/European Space Agency - disponível em: https://www.nasa.gov/content/goddard/nasa-hubble-sees-sparring-antennae-galaxies )

Dito tudo isso, vamos pensar sobre nossa humanidade. Quanto estamos errados? Estávamos, por séculos, errados sobre a Terra. Quadrada? Redonda? O homem foi criado tal qual está na Bíblia? Tudo foi criado em sete dias? Animais, plantas, nós? A Terra era o centro do Universo? O Sol era o centro? Nossa galáxia era uma? São 100 bilhões de galáxias? A cada era, essas perguntas foram respondidas de uma forma diferente. A ideia heliocêntrica quase levou Galileu para a fogueira. Outros tantos não achavam possível sermos, na verdade, parte de um sistema que não temos ideia do que é. Tal qual formigas no jardim, imaginamos que aquilo que vemos é tudo que existe e que tudo que acreditamos é senão a verdade. Não pensamos que estamos dentro do objeto observado e, pior, que há uma enorme limitação a nosso entendimento. E isso não tem a ver com a existência ou não de uma divindade, isso tem a ver com a existência permanente de nossa ignorância. Somos ignorantes perante a tudo e a todos, mais ainda, somos falíveis. Nós falhamos várias vezes, falhamos, como já colocado, em quase todas as nossas percepções do que somos como seres e do papel que ocupamos nesse enorme mistério chamado universo. Colocamos-nos, tantas vezes, como donos de uma verdade absoluta, como se ela nos tivesse sido revelada, mas quando olhamos com mais atenção, percebemos que o que persiste são nossos questionamentos e para eles, lamentavelmente, a resposta não existirá tão cedo. Nossas buscas por vida por nosso espaço não surtiram efeito. Nem conseguimos contatá-los (caso de fato existam) nem por eles fomos contatados. Ou seja, nesse tempo todo que estamos aqui não há um relato sequer de que algum extraterrestre tenha nos procurado, mas, felizmente, nós estamos aqui há pouquíssimo tempo, um suspiro apenas, segundo os padrões espaciais. Assim, e transportando para nosso cotidiano, resta a nós a humildade de perceber que erramos muitas e muitas vezes, que fazemos julgamentos imprecisos, que somos por vezes mais animais e menos racionais e que mantemos crenças com o objetivo de nos resguardar do medo que causa a percepção de que somos finitos e, porque não, insignificantes. Isso, veja, não tem nada a ver com a crença ou não de uma força divina, até porque, se não há comprovação de que Deus existe também não há que Ele não exista. E pensando bem, quando olhamos para tudo isso, vemos o céu estrelado e imaginamos o tamanho imensurável do universo visível, com seus trilhões de galáxias e seus sextilhões de estrelas, fica difícil acreditar que tudo isso seja um acaso, um acidente. Ainda que não haja uma consciência por trás de tudo o que vemos, há sim uma enorme energia criadora capaz de construir uma imensidão dessas, que alguns chamam de Deus.


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