LUIZ ROSA

Stranger Things e nossas coisas estranhas

A nova série da Netflix "Stranger Things" se passa no analógico mundo de 1980, nos fazendo imaginar o que seria de nós sem muitos dos nossos aplicativos e vícios que chegaram com a invenção do celular?


Assisti como um monte de gente ao novo sucesso da Netflix "Stranger Things'. Confesso que fui mais pela sinopse e pelo curioso título do que por comentários de amigos, que só depois soube que também estavam viciados na história de um menino que some misteriosamente depois de jogar RPG com seus amigos e sair para andar de bicicleta - com aquelas lanterninhas - em cena que claramente remete ao filme ET. Uma, aliás, entre muitas cenas que clara e propositalmente remetem a filmes da década de 1980, embalados por músicas clássicas da época, em uma trilha sonora impecável. Eu nasci no final dos anos 80, então a série teve gosto de "Sessão da Tarde". Não vivi ao vivo muitas das menções que a série traz, mas posso dizer que vi e revi muitas das referências. Vi Rambo e lembrei dele quando um personagem amarra a fita em sua cabeça, vi ET e esperava ansioso ver se uma daquelas bicicletas saiam voando, vi inúmeros episódios de Caverna do Dragão e lembrei que a história do desenho, assim como a da série, tratava de realidade paralelas.

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Mas para além disso, o que mais me fez lembrar os anos da minha infância foi a sensação de que toda e qualquer diversão envolvia mais gente do que máquina. É esse espírito de amizade, de montar cabana com cobertor, de imaginar o desconhecido, que a série retrata e que muito tem a ver com a infância daqueles que, como eu, viveu os anos 80 e 90. Não posso precisar quando essa realidade começou a mudar. Talvez seja uma impressão distante, mas o fato que me chama a atenção é como hoje o mundo anda mais solitário. A diversão se prolifera via celular, ninguém quer se divertir offline. Até jantar e cinema hoje são derrotados pelo poder crescente dos aplicativos, Snapchat é uma enorme reprodução de relatos fugazes, para não dizer desnecessários. O Whatsapp pode ser incrível, pode ser apenas um espaço para inúmeros bom dias. E o Instagram - que ainda se mantinha uma ilha segura para quem gosta de fotografia - agora compete com o snapchat com conteúdo que some em 24 horas. Sem perceber, nós muitas vezes sumimos em 24 horas, a cada uma de nossas "relevantes" postagens. Textos compridos então? Hum, nem fale. Dão preguiça. Nunca lemos tanto, nunca lemos tão pouco. Passamos o dia em frente a alguma tela e nos esquecemos de que o real pode ser bacana. Aliás, esse é o tema central de Black Mirror, outra série muito bacana que trata de tecnologia e do mundo futurista que, assim como o nosso, traz evoluções incríveis que não necessariamente melhoram a nossa vida.

Será que somos hoje felizes nesse mundo? Ou será que aparentamos a felicidade? Nunca aparentar algo teve tanto valor. Afinal, quem nunca ficou contando curtidas? E aí vem a parte mais perigosa, porque o vício por essa aprovação, por essas curtidas, nos levam a acreditar que nós temos de ser desse ou daquele jeito, em outras palavras, consciente ou inconscientemente, essa busca pela reação alheia tem moldado ainda mais o nosso ser. O nosso modo de vida nunca foi tão valorizado, isto porque ele é, afinal de contas, muitas vezes mais percebido pelo outro, feito mais para o outro. Isso é o que está em cada selfie na academia, em cada prato no Insta, em cada foto bacana de perfil. Hoje vivemos e fazemos sentido no outro.

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E talvez esteja nisso a maior diferença entre o mundo digital em que vivemos e o mundo analógico apresentado em Stranger Things. Por vezes, nos angustia ver que na série determinada personagem não bateu uma foto do que via, não mandou uma mensagem de texto ou postou a foto do garoto desaparecido no Facebook. Isso facilitaria tanto a busca pelo menino, não é? No entanto, será que se a série se passasse nos dias atuais, a cidade prestaria de fato tanta atenção no outro? Será que os amigos que saem pelas ruas e se arriscam na procura do amigo desaparecido não se deixariam vencer pelas tentações digitais? A menos que talvez fossem atrás de alguns Pokémons, em um jogo cuja proposta principal é fazer as pessoas saírem de casa e irem se embrenhar por todos os cantos com suas pokebolas para ver se acham algum bichinho. Olha! Há esperança!!! As pessoas estão nas ruas com seus celulares procurando bichos virtuais. Chegamos a esse ponto, de o pretexto não ser a cidade em si, mas o jogo. É evidente que manter contato com pessoas distantes, se divertir em aplicativos, poder falar com pessoas que você não ligaria, mas se sente a vontade para mandar uma mensagem, ver por Skype alguém que mora em outro país, ter na palma da mão fotos sensacionais ou até sua conta bancária, são evoluções incríveis que vieram por meio desse nosso novo amigo: celular. Não há dúvida que essas conexões e possibilidades mudaram o mundo e mudaram a nós mesmos. As crianças dos anos 2000 não podem supor o que é ouvir o disco do telefone voltando a cada número discado, barulho que só vai aparecer nas cabeças dos que tem mais de 25 anos quando lerem isso. Aquele barulho do telefone ou da ficha caindo (expressão usada até hoje, mas que não faz mais sentido literal) sumiram, assim como sumiu a década de 1980, minha infância, e o mundo analógico. Ser conectado hoje não é uma opção, é uma necessidade. Estranha quem ainda não possui celular e, honestamente, dificulta a vida. Mas, para além disso, deve haver a percepção de que precisamos por vezes nos desconectar, afinal jogar tabuleiro com alguém é mais legal do que um app solitário. A realidade é mais interessante que o mundo virtual. O outro é mais interessante que nosso celular. Já andar sozinho falando no Snapchat, tirar foto do prato e postar no Instagram, dar check-in nos lugares bacanas (porque nos ruins ninguém faz), e caçar pokémon por ai são apenas “coisas estranhas” que nós no ano 2016 adoramos fazer.


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