LUIZ ROSA

O perigoso caminho da intolerância

Em época de elevada discussão sobre o papel da arte é preciso ter comedimento e tolerância.


Recentemente, o Brasil, em mais de um episódio, foi divido como um jogo de futebol. Vimos uma gritaria de parte a parte dizendo se exposições e atuações eram ou não eram arte. Além dessas, outras questões são debatidas na rede com a mesma marca do questionamento se determinado filme, peça ou obra deveria ou não ser veiculada por seu roteiro, tema ou conteúdo. Exemplifico isso com as severíssimas críticas que eu li no Facebook sobre um filme que ainda nem foi lançado chamado, em inglês, "Call me by your name". Ora, se o filme não foi lançado, como o usuário do Facebook pode comentar dizendo que ele é um lixo só por sua temática?! Isso não é crítica, isso é intolerância.

Evidentemente, nós todos não precisamos apreciar tudo que outros chamam de arte. Eu mesmo canso de ver filmes aclamados que não gosto e sei que com todo mundo é assim, afinal quem nunca se baseou em estrelas de jornal para escolher o filme que iria ver e se decepcionou ao perceber que aquilo não lhe agradava? Isso é mais do que natural: nós somos muitos, temos gostos variados e as produções artríticas trabalham com nossos sentimentos. Assim sendo, o gosto por uma obra vai muito mais pela capacidade que aquilo tem de mexer com você do que por suas características técnicas de iluminação, roteiro e fotografia.

O perigo é quando isso deixa o campo do gosto e passa a intolerância, ou pior, a violência. Acho natural que se debata a Lei Rouanet, por exemplo. Não acho natural (ou aceitável) que se xingue alguém em uma exposição. Acho natural que se critique uma obra. Não acho natural que queiram destruí-la. Um país não evolui quando não se respeita minimamente o outro. Ou, ainda, quando não se aceita a existência da pluralidade.

São muitos os exemplos dessa intolerância na História da humanidade. Do Index Librorum Prohibitorum - usado pela Igreja Católica entre 1559 e 1966, como referência para quais obras o católico poderia ou não ler e que continha como proibidas obras de Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Giordano Bruno, Nicolau Maquiavel,John Locke, Thomas Hobbes, René Descartes, Rousseau, Montesquieu, David Hume e Immanuel Kant, entre outros - até a queima de livros em praça pública pelos Nazistas, em 1933.

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E isso apenas para pegar como exemplo a Igreja e o Nazismo. Poderíamos pensar em outros tantos casos, de autores que ainda hoje são proibidos na China, de filmes que foram censurados na União Soviética, em músicas de Chico, Caetano e Gil que nunca foram ouvidas por brasileiros durante a ditadura militar brasileira.

A questão, então, não é se devemos ou não gostar de alguma produção artística. É até aceitável que se discuta o valor artístico de uma obra. No entanto, o respeito, a tolerância e o entendimento são necessários em toda a sociedade. Não há sociedade livre com arte controlada. Seja ela controlada pela Igreja, pela esquerda ou pela direita. O livre pensar (artístico ou científico) é o ganho social responsável por nos trazer até esse ponto de evolução. Como teria dito Isaac Newton: "se enxerguei mais longe, foi porque me apoiei sobre os ombros de gigantes". Imagine se tivéssemos optado por matar ou calar aqueles gigantes...


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