LUIZ ROSA

Razões para ver e pensar sobre Thirteen Reasons Why

Com enorme qualidade de enredo, atuações, fotografia e trilha sonora, sobram razões para falarmos e pensarmos sobre Thirteen Reasons Why, uma série sobre nossa humanidade, sobre nossa existência, sobre o que vemos e percebemos e o que deixamos passar em nossos relacionamentos.


A primeira vista, Thirteen Reasons Why fala sobre adolescentes. Quando li a sinopse, imaginei que se tratava de uma série adolescente, para adolescentes, sobre adolescentes. Engano total. A história das fitas em que Hannah Baker conta os motivos que a levaram ao suicídio é também para adolescentes, também sobre adolescentes, mas é, também, uma série sobre a nossa humanidade, a nossa solidão, as nossas tentativas – muitas vezes frustradas – de se encaixar, de pertencer, de ser popular e sobre a nossa sociedade, na qual as imagens felizes que povoam o Facebook, o Instagram e as outras redes sociais, podem esconder um persistente vazio interior. Em tempos de internet, redes sociais e curtidas e mais curtidas, a necessidade de pertencer nunca foi tão presente, nunca foi tão cruel.

ouca-agora-a-trilha-sonora-completa-de-13-reasons-why_1250873.jpg Divulgação

Thirteen Reasons Why traz a tona temas que precisam ser mais falados ao mesmo tempo em que trata com naturalidade necessária questões raciais, de orientação sexual, etc. A série não quer ser panfletaria, quer fazer pensar sobre assédio, suicídio, e sobre o bullying, este último, aliás, muito presente na adolescência, ainda que com nomes diferentes. Aliás, “bullying” surgiu para mim depois de seu significado, lá no final do século passado quando estava na quinta série. A fase inicial da adolescência significou também uma espécie de guerra tribal, na qual humilhações, agressões e omissões faziam parte do enredo que pretendia diferenciar quem é membro do grupo de quem não é, quem é líder de quem não é. Parece que, a exemplo dos ditos animais irracionais, os adolescentes têm uma necessidade de se impor e isso se dá, muitas vezes, à custa da ação contra os mais fracos.

A exemplo da série, não apenas os atos machucavam, mas a omissão daqueles que pouco ou nada faziam também. E, assim como aparece em Thirteen Reasons Why, o sofrimento calado era tão comum entre todos.

Por isso, se você estiver sofrendo bullying e lendo esse texto, seguem duas observações:

1. Acredite que isso é uma fase que passa. Pode demorar, pode ser difícil, mas passa. 2. Converse! Peça ajuda, fale, procure dizer o que sente para seus amigos, sua família ou – se preferir – para algum profissional que possa te ajudar.

A série, aliás, lançou um site http://www.reasonswhy.com.br/ com histórias de pessoas que também passaram por isso e outro http://www.13reasonswhy.info/#bra com informações para ajudar quem precisa. E o número de ligações ao Centro de Valorização a Vida ter aumentado depois de seu lançamento é constatar que muitos sofrem calados por ai.

Por outro lado, para além das questões espinhosas do bullying, do assédio e do suicídio, uma das coisas que mais chamam a atenção nos episódios é a constante sensação de melancolia pelos sonhos e desejos não realizados. Clay Jensen, magistralmente interpretado por Dylan Miinnette, dá o tom certo a esse aspecto e, talvez esteja justamente ai o motivo de a série não ser só para determinada faixa etária, afinal, a vida acaba por se mostrar sempre como uma soma de desejos realizados e de desejos não realizados. Nós não conseguimos sempre tudo o que desejamos e quando não há retorno – como no caso de Clay em relação à Hannah – a tristeza é ainda maior.

Thirteen Reasons Why não estava nas listas de séries mais aguardadas, a exemplo de Game of Thrones ou House of Cards, mas sua qualidade de enredo, atuação, fotografia e trilha sonora tornam compreensível o sucesso que alcançou em poucos dias. A série lembra o que aconteceu com Stranger Things ao alcançar sucesso quase imediato, não repetido por outras produções, como The O.A., também da Netflix.

E esse sucesso implica, obviamente, na provável continuação da série. Se isso acabar acontecendo, será ótimo ver como continuam as histórias que começamos a acompanhar na primeira temporada, se não, a mensagem passada já está clara e o último episódio aponta na direção dos acontecimentos, permitindo ao espectador presumir o que se passou a partir dali. De todo modo, há razões de sobra para assistir e se falar sobre essa marcante série da Netflix.


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