LUIZ ROSA

Sim, mudamos muitas vezes e tudo bem...

O questionamento diário sobre se a vida que levamos é a que queríamos deve ser o motor para alterar nossos rumos e não a razão para o antidepressivo.


Encontrei, por acaso, a foto da minha matrícula na faculdade. Já faz alguns anos que ela foi tirada e há uma vaga lembrança que era a mesma que estampou minha primeira habilitação de motorista. Ou seja, era um garoto. De lá para cá, penso, tanta coisa aconteceu, mas o que mais sinto é que alguns sonhos murcharam. Não quero ser depressivo ou pessimista, mas é a realidade que encontro em muitos dos meus amigos, para não dizer em todos.

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A vida parece ser assim: as crianças vivem sonhando em querer ser adultas. A primeira grande pergunta que devem responder é "o que você vai ser quando crescer". Sejamos honestos! Quem acerta? Um menino de sete anos que diz que quer ser jogador de futebol termina trabalhando em um banco, a menina que diz querer ser bailarina termina sendo jornalista. Ou ainda, se preferirem, o menino que diz querer ser bailarino é repreendido muitas vezes pelos pais ou pela sociedade e a menina que quer ser jogadora de futebol ganha uma boneca para brincar. A sociedade, aos poucos e em doses homeopáticas, vai aniquilando nossos sonhos infantis com altas doses de realidade. Ocorre que, nossa geração - a que hoje ronda os 30 anos - foi ensinada desde cedo que deveria sonhar com mudar o mundo: "aqui nesta sala de aula pode estar o novo Secretário-Geral da ONU" deve ter dito algum dia sua professora e se não foi isso talvez tenha sido algo parecido, algo que fez com que acreditasse que, quando a adolescência terminasse, você ia passar em uma faculdade, estudar e ter uma carreira brilhante. Alguns tiveram e têm de fato. É inegável. Há meninos e meninas que realizaram seus sonhos, ainda que em parte, mas na grande maioria das vezes o que temos é a percepção de que estamos cotidianamente fracassando.

Há em muitos de nós a percepção de que os sonhos da infância e juventude foram sendo consumidos e que, hoje, muito pouco deles resta. O que existe ainda é uma percepção avassaladora de que não seremos jamais o que pretendíamos ser e isso talvez doa mais pela simples insistência que temos de não nos darmos conta de que tudo bem se não formos. Não há problema algum em não corresponder às expectativas se elas já não lhe servem mais e de acreditar que nós não somos permanentes, ou em outras palavras, que não devemos ficar amarrados ao que não combina mais com nosso momento atual, ou pior, ao que nos intoxica, seja um trabalho que não nos dá nada além de um salário seja um relacionamento que não nos faz feliz.

Outro dia, li um post de um rapaz que dizia esperar a seguinte vida aos seus vinte e poucos anos: trabalho, esposa e filhos e que tinha descoberto que nada daquilo era verdade para ele. Ora, essa "verdade" existe porque a sociedade muitas vezes nos faz acreditar que as coisas devem ser de determinado jeito. É muito difícil dizer para o mundo que a gente pensa diferente agora do que pensávamos quando aceitamos determinadas coisas, que nós mudamos e, mais, que estamos buscando um caminho. Aliás, a permanência é uma das maiores ilusões que nos são ensinadas e a percepção de que tudo é essencialmente transitório pode ser tanto libertadora quanto aterrorizante.

Em suma, o questionamento diário sobre se a vida que levamos é a que queríamos deve ser o motor para alterar nossos rumos e não a razão para o antidepressivo. Sem entrar no mérito dos casos que de fato necessitam de remédio, a média de nossa sociedade hoje é doente no sentido amplo da palavra. Convivemos com naturalidade com barbaridades, achamos tudo bem as horas no trânsito, deixamos para a aposentadoria a felicidade e aceitamos calados o que não nos faz bem. Até quando devemos tolerar aquilo que gostaríamos de eliminar de nossas vidas? Até quando devemos manter em nós compromissos que não são com mais ninguém além de nós mesmos feitos em épocas em que nós pensávamos de outra forma?

Quando olho para o “eu” garoto da foto que achei por acaso, vejo nele sonhos e realidades incompatíveis com o que existe hoje. Encontro compromissos firmados que, atualmente, são bobagens, mas que ainda assim mantenho pelo medo de simplesmente ser diferente agora. E ser é um verbo para lá de complicado. Ele garante uma constância que não existe, ele se opõe ao “estar” de forma gritante! Ele nos amarra a laços invisíveis que com o tempo podem virar nós impossíveis de desatar. Ele diz para a criança que o que ela "for quando crescer" ela será para sempre, quando na verdade, nada é necessariamente assim...

Aliás, é curioso que o português separa os dois verbos "ser" e "estar", enquanto outras línguas fazem dele uma coisa só. Por que não pensamos então no "ser ou não ser - eis a questão" como "estar ou não estar - eis a questão". Afinal de contas, eu só quero ESTAR bem hoje e desejo o mesmo a vocês!


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