LUIZ ROSA

Socorro! Acordei sem Google!

Dia desses, aconteceu o impensável! Fiz uma busca no Google do celular e o resultado foi nenhum! Se Kafka vivesse hoje, escreveria sobre o homem que acordou em um mundo analógico. Esse é o maior pavor de nosso tempo!


Dia desses, aconteceu o impensável! Fiz uma busca no Google do celular e o resultado foi apenas "pesquisas relacionadas". Nada além disso. E clicando em pesquisas relacionadas surgiam apenas outras pesquisas relacionadas e nenhum resultado.Foram dois dias de apagão total no celular. Não importava qual o aplicativo, o resultado era sempre o mesmo. Ou seja, nenhum.

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Faz mais ou menos 20 anos que fui apresentado ao primeiro sistema de buscas que conheci: o "Cadê?!". Ele era fraco. Muito fraco comparado ao que viria depois. Naquela época, pesquisa de escola não podia sair da internet, então a solução era pesquisar em enciclopédia ou livro e no máximo acrescentar uma curiosidade ou outra que tinha vindo do computador. Hoje, a enciclopédia não possui quase função e, além dos sistemas de busca, hoje existem a Wikipédia, as redes sociais, os aplicativos - os inúmeros instrumentos que cabem na caixinha mágica chamada celular-. Podemos saber a caloria de um prato, o trajeto e tempo da corrida de um amigo, a viagem de um conhecido, a beleza do casal na praia... Podemos saber tanta coisa!

Dia desses, eu li que a Rainha Vitória e o Presidente dos Estados Unidos estavam na cerimônia fúnebre de Dom Pedro II, em Paris, realizada um dia após a sua morte. Embora totalmente absurdo, por estar na internet, aquilo foi tido como verdade incontestável e vários comentaram exaltando a presença desses e de outros tantos monarcas e chefes de Estado no evento, sem se atentar para o fato de que, a menos que esses mandatários já estivessem em Paris, não seria possível viajar até lá com esse pequeno espaço de tempo. Mas e daí?! O que importa é que está na internet...

Não há mais pesquisa séria. Há a instantânea. A pesquisa solúvel que em pouco tempo já não interessa mais. E isso tem tido um efeito muito prático na minha vida: tenho perdido a paciência com coisas muito longas e que não posso avançar para o ponto que quero. Eu tenho, assim, enxergado o mundo com o desejo de que ele se transformasse em tela de um celular e sei que algo semelhante tem acontecido com você também. Se lê até aqui é porque algo lhe interessou nesse texto, do contrário já teria pulado para outra tela, não é? Outro dia, um texto meu foi para o Facebook e uma das pessoas que o criticou admitiu ter parado de ler no segundo parágrafo. Ora, concordar ou discordar sempre é válido, mas discordar sem ler?!

Mas e as pesquisas que eu fiz, sobre o que eram? Não me recordo. Eram tão pouco importantes que já não interessam mais... Mas a ausência do Google! Ah, essa foi terrível. Se Kafka nascesse hoje, escreveria sobre o homem que acordou e o mundo era analógico. Esse é o maior pavor de nosso tempo!

No shopping esses dias, vi um rapaz na fila de uma experiência de realidade virtual usando fone de ouvido e olhando para o celular, enquanto teclava. De que mais ele precisa para ver que a realidade dele já é virtual? Ele não ouvia nem via quem estava a sua volta. Nós não vemos, não sentimos, não ouvimos mais. E se a dúvida aparece, o celular responde e se a resposta for imprecisa nós não a questionamos porque acreditamos na verdade que ali está! E no que contam nossos amigos em suas redes sociais por meio de textões, que rotineiramente apenas passemos o olho antes de curtir!

E há outro detalhe nisso! Os amigos pensam como nós. Os que não pensavam foram deletados ou sumiram de nossas timelines, não é?! Que mundo incrível esse! Que admirável mundo novo! Fiz essa citação porque li, não porque a achei no Google, que aliás voltou a funcionar...


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