LUIZ ROSA

Pare de fazer concessões! É tempo de ser quem se é.

Vivemos em uma sociedade onde a todo instante somos convidados a fazer concessões para sermos "in" e não "out".


Há uns anos, recebi um e-mail de um amigo confessando que havia desistido de torcer por seu time do coração e que, a partir daquele momento, eu poderia riscar esse assunto de nossas conversas. Na época, achei muito curioso (para dizer o mínimo), uma vez que quase todo mundo mantém um time de futebol predileto ainda que seja só para servir de gancho para conversas por ai. Anos depois, encontrei um outro amigo que ao ser indagado sobre suas preferências futebolísticas respondeu: "sou corintiano, mas não acompanho nada". Perguntei-lhe, então, a razão pela qual respondia seu time de preferência se de fato não era um torcedor. Por si só, ele concluiu que era melhor parar com aquilo e dali em diante o Corinthians perdeu um torcedor.

O fato é que eu também respondo meu time do coração apenas por inércia. Não sei quase nada sobre meu time. Talvez alguns trechos do hino, lembrança de quando tinha alguma predileção real ou quando o custo de dizer "não gosto de futebol" ou "não acompanho" era alto demais.

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Conto essas pequenas passagens para refletir sobre quantas concessões nós fazemos diariamente aos outros, mantendo nossas aparências para nos encaixarmos em uma realidade social que espera de nós essas respostas, essas atitudes. Essa talvez seja a razão pela qual não raras vezes ouvimos "torço para o time X, mas não acompanho" ou "sou católico não praticante", etc.

As redes sociais agravam ainda mais essa realidade. Quantas pessoas não se marcam em aeroportos ou restaurantes badalados única e exclusivamente porque isso faz parte da necessidade de se mostrar como "in" e não como "out". Poderíamos pensar também no excesso de "stories" que todos os dias povoam nossas redes sociais com banalidades, mas que precisam ser mostradas porque, afinal, "todos mostram".

Todos são demasiadamente felizes em seus Instagrams. Mas no dia a dia, a coisa não é tão colorida assim. Mantém-se o emprego estressante para ter status, mantém-se o relacionamento falido para ter fotos apaixonadas, mantém-se o time do coração para ter uma conversa, etc. Esquece-se, no entanto, que nós todos somos plurais e que rótulos ou repetições só servem para nos pasteurizar.

E se tudo isso parece inofensivo, basta ver o tanto que esse cenário favorece a repetição e perpetuação de bobagens. Por que um torcedor deve odiar de morte outro?! Por que um homem não pode valorizar verdadeiramente as qualidades de uma mulher, ignorando sua aparência? O que há de errado em um homem admirar o outro por sua aparência? Por que não podemos compreender que nem todos curtem academias, corpos sarados e serotonina na veia? Por que não podemos enxergar os indivíduos respeitando verdadeiramente suas individualidades? Há razão para esse esforço todo, essa necessidade de sermos eternamente gratos nas postagens do Instagram (#gratitude) e eternamente fartos de nossas vidas offline?

A sociedade do espetáculo em que vivemos reforça os esteriótipos na medida em que cada dia mais precisamos nos tornam mais parecidos com os outros para sermos "curtidos" e "compartilhados". E o êxtase momentâneo de uma curtida não nos livra das angústias existenciais que todos, como humanos, temos sempre.


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