Tito Oliveira

Para mim a escrita é o elo que liga a fala aos mais remotos e atentos olhares, ou ouvidos. É como superar a necessidade de ser escutado imediatamente. Não sou um escritor, escrevo porque sou artista, escrevo porque penso, porque sinto, porque desejo. Porque enquanto aprendia a escutar o mundo, aprendi, com isto, também a me escutar.

Desordem e regresso são mandamentos na cultura brasileira

Um estupro coletivo que reúne mais de 30 homens atenua a gravidade daqueles cometidos diariamente, por ter apenas 1 ou um número menor do que 30 infratores?! Não creio.


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Não queria me posicionar a respeito do caso de estupro coletivo que "espantou" as redes sociais no país porque, como não sou adepto do eufemismo, acabo assustando quem assim é. Porém, isso não é um problema meu, portanto não devo me preocupar com o quão severo pensam ser a minha opinião em torno dos absurdos recorrentes no Brasil.

Sobre o assunto penso que crianças e adolescentes crescem escutando de seus pais os seguintes chavões: "Prendam suas cabritas que meu bode está solto"; "Um bando de galinha ciscando atrás de um galo"; "Fecha as pernas menina, tá esperando o que?!"; "Engravida porque quer, se prostitui porque quer, aborta porque quer, afinal, não passa de uma cadela safada porque quer", entre outras barbaridades apreendidas, por essas pessoas, enquanto base da boa educação.

Logo é muito fácil, também, aderir a todos esses ritmos "musicais" vulgares e machistas, predominantes na Bahia e Rio de Janeiro. Terras da felicidade! Ritmos difundidos pela mesma mídia que agora ganha audiência sensacionalizando um caso que se faz rotineiro em todas as regiões desta geografia verde e amarelo saturado.

Quer dizer, um estupro coletivo que reúne mais de 30 homens atenua a gravidade daqueles cometidos diariamente, por ter apenas 1 ou um número menor do que 30 infratores?! Não creio.

Se refletirmos sobre a operação policial num contexto investigativo desse que se passa no Rio de Janeiro, é fácil afirmar que uma das classes de homens mais machistas do Brasil reside no corpo da própria polícia, sobretudo militar. Incontáveis são as cidades brasileiras onde se vê policiais militares em grupo, com suas viaturas estacionadas pois se dizem "trabalhando", a articularem situações sinuosas com garotas de aparentes realidades sofridas.

Pensando com base nesse tipo de comportamento a partir de autoridades, é possível compreender porque o delegado à frente do caso no estupro coletivo da última semana ignorou a condição humana da vítima para enfatizar uma suposta investigação sobre o tráfico de drogas da região em que se deu o crime.

Por outro lado, digamos que em instantes todo alvoroço da imprensa e da mobilização em redes sociais passarão e a roda de horrores voltará ao ar (como se ela deixasse de ser o grande astro do palco), regida por nádegas a balançar freneticamente e com analfabetos funcionais, sem talento, portando um microfone perto de suas bocas. A ditarem o tom desta realidade lastimável e acumulando milhões em suas contas bancárias. Pois as ovelhas falantes predominantes na sociedade brasileira preferem manter-se unfanistas de pratos vazios e o governo prefere depreciar cultura e arte, enaltecendo o dispensável. Desprezando, contudo, a importância da censura (eu disse censura, não ditatura) numa nação tomada pela ignorância.

A chamada de uma reportagem do portal UOL, da Folha de São Paulo, nesta segunda-feira, 30, diz assim: "Devemos ensinar respeito às mulheres desde à infância - diz especialista".

Era sobre essa já decadente e tradicional condição na educação do país, sugerida sinuosamente pela chamada na matéria do site UOL, que eu mais ou menos tentava falar no último sábado, 28, em um post do meu perfil no Facebook. Digo "mais ou menos" porque a orientação que sugeri se deu ainda mais ambrangente, uma vez que penso ser o respeito digno a qualquer ser humano, não restrito apenas às mulheres.

No Brasil não existe respeito para quase nada. Não haveria como crianças e adolescentes terem comportamentos diferentes se a maioria dos pais não possuem valores adequados para lhes servirem bons exemplos. O desrespeito por aqui em geral é sutilmente disfarçado pelos votos religiosos nos gestos de "bença a pai", "bença a mãe", "bença a vó", "bença a tio" etc. Este é o limite do respeito. Passou daí é cada um por si e Deus só existe na boca de um pastor tendencioso.

Não obstante, segue-se incondicionalmente uma mídia rudimentar (ou não) que mais uma vez apresenta sua anedota insossa ao tentar atenuar os teores agravantes de um país perdido, com uma chamada de matéria que reduz acintosamente os valores do respeito a partir da infância apenas às mulheres. Quando a educação das crianças para entender o respeito, de fato, deve se estender ao cidadão independente de gênero, raça ou condição social.

O fato é que nesse contexto lamentável da realidade brasileira, os desdobramentos na educação de um povo que ainda não entende seus valores devem ser bem esclarecidos. Para que a tentativa na correção de um problema não acabe por criar outro, como, por exemplo, induzir garotas adolescentes a crescerem odiando homens por conta das bifurcações na difusão das causas que potencializam o machismo em nossa cultura.

Sendo assim, dois conceitos devem ser explorados no percuso até a extinção (talvez nunca em totalidade) de bárbáries perante os direitos da mulher e mal-entendidos sobre os valores do respeito.

O primeiro se dá em repensar a eficácia da censura enquanto moderador da difusão de teores midíaticos que confundam o desenvolvimento intelectual e a intergridade moral do ser humano. Deixando claro que esta nada tem a ver com uma ditadura perante a liberdade de expressão, já que se faz indispensável num contexto social tomado, em suma, pela ignorância. E o segundo se dá nos pilares mais importantes para a transformação da realidade neste país, que são as reformas políticas e pedagógicas. Esta última a partir do lar e das instituições de ensino.

Ilustração por Tito Oliveira


Tito Oliveira

Para mim a escrita é o elo que liga a fala aos mais remotos e atentos olhares, ou ouvidos. É como superar a necessidade de ser escutado imediatamente. Não sou um escritor, escrevo porque sou artista, escrevo porque penso, porque sinto, porque desejo. Porque enquanto aprendia a escutar o mundo, aprendi, com isto, também a me escutar. .
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