Tito Oliveira

Para mim a escrita é o elo que liga a fala aos mais remotos e atentos olhares, ou ouvidos. É como superar a necessidade de ser escutado imediatamente. Não sou um escritor, escrevo porque sou artista, escrevo porque penso, porque sinto, porque desejo. Porque enquanto aprendia a escutar o mundo, aprendi, com isto, também a me escutar.

O aplauso das focas rastejantes

Como é possível haver honestidade no bom gesto de um homem perante seus amigos ou desconhecidos, se este pouco respeita sua esposa e filhos? Presume-se que aquele que não cuida bem dos familiares em casa não provém de bons princípios para lidar com quaisquer pessoas fora desta


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Almoçava num restaurante popular de Salvador quando fui obrigado a assistir o noticiário na edição do Jornal Hoje, da rede Globo. Natureza típica da maioria dos estabelecimentos comerciais no Brasil,

O telejornal apresentado por uma dupla de fantoches que sorriam iguais à hienas desmioladas apresentava uma matéria sobre o que os turistas estrangeiros pensavam das terras tupiniquins, quando estiveram por aqui durante a Copa do Mundo. Um dos pontos abordados dizia respeito a como o povo brasileiro é festivo e simpático com seus convidados.

Sendo assim, analisaremos o grau de honestidade em meio ao contexto sugerido.

Não seria absurdo dizer que a simpatia do brasileiro, na maioria dos casos, se dê restrita a estrangeiros com origem em países desenvolvidos, já que a ideia de intercâmbio com o primeiro mundo é atrativa para uma sociedade tomada, em geral, pelo deslumbre e interesse vulgar. Entre nós brasileiros, ou entre turistas de nacionalidades terceiromundistas, cortesia e civilidade são quase inexistentes.

Agora me restou uma dúvida: como é possível haver honestidade no bom gesto de um homem perante seus amigos ou desconhecidos, se este pouco respeita sua esposa e filhos? Presume-se que aquele que não cuida bem dos familiares em casa não provém de bons princípios para lidar com quaisquer pessoas fora desta.

Durante a reportagem em questão, falava-se também sobre a falta de austeridade nos procedimentos dos serviços prestados por aqui. Quando, num relato de uma turista asiática esta dizia que em seu país os desdobramentos no transporte público se davam de maneira bastante diferente. Afirmando que lá o passageiro é obrigado a portar dinheiro trocado para facilitar o trabalho do condutor do ônibus, além de viabilizar melhor o trânsito de demais passageiros em dada ocasião.

Pensando com este viés, pergunto onde reside vantagem em ser flexível mediante determinadas situações cotidianas se desta forma ajuda-se a pontecializar ainda mais o caos? Fácil de responder: quando não existe consciência sobre o fato de que em qualquer desenvolvimento social é necessário profissionalismo e organização.

A mais curiosa passagem da reportagem deu-se quando nos foi apresentado como os europeus, argentinos e norte-americanos desfrutavam a praia. Todos eles relataram que sentem mais prazer ao posicionarem-se de frente para o mar e de costas para o sol, alegando que desta forma desfrutam da tranquilidade espiritual emanada pela energia do oceano, além de preservarem-se da exposição incessante aos raios solares que podem provocar câncer de pele. Os brasileiros, por outro lado, preferem posicionarem-se de costas para o mar e de frente para o sol. Um dos entrevistados, de origem canadense, ao ser perguntado a respeito desta característica em nós ressaltou que apreendia os brasileiros enquanto um povo muito vaidoso.

Parece bobagem apresentar a diferença de comportamento entre brasileiros e estrangeiros, como introdução para analisar nossa realidade enquanto nação. Mas não é. Pois os mais simples sintomas podem nos favorecer possibilitando o diagnóstico precoce que nos salvaria do óbito por conta de uma doença letal.

Não sei explicar muito bem o que se passa em nossa natureza. Talvez tudo isso seja decorrente da falta de inteligência e pouco escrúpulo dos portugueses, herança que nos restou após a lamentável colonização. Embora muitas vezes eu pense ser injustiça atribuir aos portugueses o estado rudimentar, uma vez que no Brasil o raciocínio lógico é praticamente ignorado. E o resultado desta lastimável realidade se faz possível enxergar quando nos deparamos com mais uma indigesta análise dos respectivos apresentadores do telejornal que, não surpreendentemente, mostraram-se mais uma vez enganosos no fim da matéria. Ao afirmarem que o Brasil deixou uma boa impressão ao resto do mundo, durante o evento futebolístico de seleções. Ressaltando que esta impressão significaria o retorno dos turistas ao país, o que naturalmente impulsionaria nossa economia.

O que foi exposto aqui são apenas pequenos traços que, por vez, insinuam nosso atraso enquanto nação. E torna ainda mais claro que somos terceiro mundo porque, inconscientemente ou não, invertemos os bons valores da vida. Que, desta forma, nos faz desprezar direitos essenciais como educação e saúde, para enaltecer o dispensável.

Os países que entendem as condições básicas de sobrevivência como um direito de todos são chamados de primeiro mundo, possuem uma população esclarecida, uma economia estável, as diferenças sociais não são exorbitantes e a violência não é banalizada. São nações que, por preservarem os pilares fundamentais para a evolução de uma sociedade, não permitem serem conduzidas por uma emissora de TV mal-intencionada, que manipula informando apenas sobre o que lhe interessa ou, como praxe, deturpa o sentido do que entende que o povo brasileiro precisa ou não saber.

Traduzindo, todos os dias esta emissora nos chama de burros e segue alimentando seu reino por ser, sobretudo, desaforada. Nós, como focas rastejantes, seguimos aplaudindo seu espetáculo desprovido de escrúpulos.

Foto ilustração por Tito Oliveira


Tito Oliveira

Para mim a escrita é o elo que liga a fala aos mais remotos e atentos olhares, ou ouvidos. É como superar a necessidade de ser escutado imediatamente. Não sou um escritor, escrevo porque sou artista, escrevo porque penso, porque sinto, porque desejo. Porque enquanto aprendia a escutar o mundo, aprendi, com isto, também a me escutar. .
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