prática urbana

arquitetura, política e urbanismo

Hugo de Freitas

Aos meus olhos bola, rua, campo, sigo jogando porque eu que sei o que sofro e me rebolo para continuar menino como a rua que continua uma pelada.

Entre paredes

O mundo real não nos interessa. Temos tudo on-line. Uma nova identidade, somente fotografias bonitas e editadas, os check-ins nos melhores lugares e temos liberdade de acessar o que quiser e quando quisermos. Só não percebemos que estamos em uma prisão.


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Venho nos últimos meses reparando na minha vida e os trajetos rotineiros do dia-a-dia. Vida de universitário: casa, estágio, faculdade e casa. O que me deixa com uma pulga atrás da orelha é que chegou um certo momento, um zeitgest cultural -- com todo cuidado que o termo se refere, que não é necessário a interação com o espaço urbano, especificamente o espaço público. Estamos tão imersos na tecnologia das coisas, de tudo, que as tarefas que eram necessárias a interação urbana vem se apagando aos poucos do nosso HD contemporâneo.

A imagem da Matrix é proposital. Uma simulação da realidade programada por computadores. Um pouco diferente da versão cinematográfica dos irmãos Wachowski, o livro Neuromancer de William Gibson que inspirou a obra também se faz presente nesse emaranhado de reflexões. Um mundo supermoderno, onde é possível acessar a Matrix, um universo virtual, através de um Deck. Diferente do filme, os habitantes da Terra sabem da existência da Matrix, que aqui me refiro como nossa World Wide Web, e a diversão para alguns se encontra somente e exclusivamente dentro da Matrix. Nada do mundo tangível e real interessa. E ora pois, se não estamos vivendo algo parecido?

Marc Augé, antropólogo francês vem estudando ao longo dos anos esse fenômeno que é os Não-lugares e a Supermodernidade. Supermodernidade pode ser caracterizada pelo excesso. De tudo. O excesso de espaço, por exemplo, com o encolhimento do mundo agora que temos na palma da nossa mão o Google Earth. O fenômeno provoca alteração da escala em termos planetários através da concentração urbana, migrações populacionais e produção de não-lugares – aeroportos, vias expressas, salas de espera, centros comerciais, estações de metrô, campos de refugiados, supermercados, etc., por onde circulam pessoas e bens. A forma como se relacionamos com o mundo a nossa volta mudou e ainda se altera com uma velocidade tão grande que as vezes somos incapazes de absorver tanta informação. O e-commerce, hoje substitui grande parte das vendas em lojas físicas, reduzindo custos com funcionários, aluguel e infraestrutura. Se quero um tênis, acesso o aplicativo da Netshoes e compro. Para pagar uma conta, acesso o app do Itaú. Pedir comida? Temos o iFood. Pedir um táxi? Vamos de Uber. A tecnologia revela-se tão poderosa que encurta distâncias e economiza trajetos. Resolvemos tudo via e-mail. Ligação já se tornou coisa do século passado. Manda um WhatsApp. Se você não tiver um perfil no Facebook, esqueça, você não faz parte da nossa sociedade informatizada, onde as mamães e avós estão super conectadas desfrutando das magias da era digital. Mas em meio a tantos pontos positivos, a tecnologia pode ser capaz de minar nossos relacionamentos sociais e nossa experiência coletiva como cidadãos.

Vivemos hoje, um descaso generalizado com os espaços públicos. Praças, bibliotecas e parques. O passeio na rua é tão somente um meio e não um objetivo final. É a linha que conecta-se com sua casa, seu serviço ou o shopping center. As praças, cada vez menos com seus bancos lotados, são um refúgio, uma parada para descansar e pegar uma sombra para podermos acessar nosso feed de notícias pelo celular. Lefebvre defende a rua como “o local do encontro, sem o qual não existem outros encontros possíveis” ao confrontar a sua utilização, também é negado “o movimento, a mistura, sem os quais não há vida urbana.”. Ao negar-se a rua também são negados os aspectos fundamentais a vida urbana. E cada vez menos estamos ligados na rua e nos movimentos urbanos. Cada vez mais ligados no 4G e se relacionando virtualmente.

Eu, amante e usuário assíduo das tecnologias, venho Entre Paredes pensar em como estamos presos ao mundo informacional. Rara as vezes que me pego em um local público, aberto, longe do celular. Talvez isso seja possível passando alguma temporada em um mosteiro qualquer. Nas salas de aula, no ônibus, no emprego e em casa. Estamos sempre Entre Paredes, trabalhando na Matrix e produzindo conteúdo diretamente da Matrix, em forma de texto, desenhos, artigos e projetos. Essa nova forma de interação com o mundo me incomoda e revela-se cada vez mais lactante, agravando-se com o passar dos anos e com as facilidades que a Supermodernidade nos proporciona.

O mundo real não nos interessa. Temos tudo on-line. Uma nova identidade, somente fotografias bonitas e editadas, os check-ins nos melhores lugares e temos liberdade de acessar o que quiser e quando quisermos. Só não percebemos que estamos em uma prisão.


Hugo de Freitas

Aos meus olhos bola, rua, campo, sigo jogando porque eu que sei o que sofro e me rebolo para continuar menino como a rua que continua uma pelada..
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