prática urbana

arquitetura, política e urbanismo

Hugo de Freitas

Aos meus olhos bola, rua, campo, sigo jogando porque eu que sei o que sofro e me rebolo para continuar menino como a rua que continua uma pelada.

Professor de projeto é médico?

Uma prática comum em diversas escolas de Arquitetura e Urbanismo do país é o "atendimento de projeto". A técnica, reducionista por si só, busca optimizar o tempo disponível da cadeira para conseguir atender todos os alunos, dedicando o mesmo tempo para cada um. Mas será que o o professor de projeto é médico, para te atender em 10 minutos, apontar a doença projetual e você passa na fármacia Autodesk e cura todos os males de sua planta?


erros-que-os-medicos-cometem-ao-fazer-suas-prescricoes.jpg

Uma prática comum em diversas escolas de Arquitetura e Urbanismo do país é o "atendimento de projeto". A técnica, reducionista por si só, busca optimizar o tempo disponível da cadeira para conseguir atender todos os alunos, dedicando o mesmo tempo para cada um. A cadeira de projeto, para atender mais de 45 alunos em uma turma de 10º período, necessita de pelo menos 4 professores. O sistema de rodízio contribui para que todos os professores saibam o que acontece em cada projeto. Mas será que o o professor de projeto é médico, para te atender em 10 minutos, apontar a doença projetual e você passa na fármacia Autodesk e cura todos os males de sua planta?

Para entender o fenômeno médico-arquitetônico é preciso entender que quase não se construiu no Brasil modelos diferenciados de escolas de arquitetura. Diferentemente dos países com forte tradição de ensino de arquitetura, por aqui as escolas homogenizam-se. Num pais continental e rico em diversidade isso é totalmente contrário a emergência de riqueza cultural e educacional. Pouquíssimas escolas possuem alguma identidade própria forte, diferenciada, ligada ao seu contexto, tradição de pensamento e cultura locais, de cadeiras diferenciadas e específicas. Tenta-se, tão somente, equilibrar as cadeiras a nível nacional, abordando "de tudo um pouco". O número elevado de alunos na sala de aula contribui para a padronização e mecanização de processos de avaliação. Para conseguir avaliar um projeto, uma categorização é feita e sua nota é referente, não ao projeto em si, mas a cada item específico. Tanto nos projetos, como na monografia, o conjunto é quase impossível de ser avaliado, devido ao pouquíssimo tempo disponível por parte dos professores. Uma média de 12 alunos por professor. O que se obtém, portanto, é uma ficha onde se avalia item por item, ignorando a harmonia do conjunto, os processos e a obra em sua totalidade. Para avaliar o objeto textual, foi necessário uma análise de "Introdução"; "Problematização"; "Conclusão"; "Referências". O professor, para otimizar o tempo, avalia item por item sem ser necessário compreender o todo. A mecânica se espalha pelos projetos. Para conseguir nivelar as notas é necessário uma avaliação separada de item por item. A dicotomia na Arquitetura e Urbanismo é muito intensa e presente. Prega-se que a Teoria nada tem a ver com a Prática. Que matéria projetual não se mistura com matéria teórica.

Esse modelo taylorista de avaliação de produção é falho e ineficaz. O professor de projeto vira tão somente um grande médico ermitão, detentor da sabedoria. Como uma arte tão nobre e difícil de ser aprendida e executada pode ser feita por estudantes, sozinhos durante 6 dias, e em 1 dia o infeliz vai para o "atendimento de projeto" e precisa sanar suas dúvidas com o professor em 10 minutos, e devido ao sistema de rodízio só terá outro encontro com este no próximo mês. Apesar de todos os problemas e limitações do sistema, se faz necessário alunos genuinamente descontentes com a mesmice e o tarefismo do sistema. Sabendo que formar-se arquiteto-urbanista é muito mais que passar nas dezenas de disciplinas com as notas mínimas ou aprender a detalhar objetos arquitetônicos. É preciso buscar no território de nossas problemáticas cidades inquietações que determinam a pesquisa no projeto e constroem o projeto durante meses - através de discussão coletiva de projeto, com professores e alunos.

Enquanto nos privarmos da discussão e debate coletivo dos nossos projetos e trabalharmos em prol de um tarefismo produtivo de otimização do tempo, continuaremos a fazer projetos ruins. O texto de hoje é curto, pois preciso tomar um paracetamol projetual.


Hugo de Freitas

Aos meus olhos bola, rua, campo, sigo jogando porque eu que sei o que sofro e me rebolo para continuar menino como a rua que continua uma pelada..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious //Hugo de Freitas