Edgar Mundulai Barroso

Escrever é preciso. Viver também.

NÃO DEIXEM A POESIA MORRER... UM BREVE ENSAIO SOBRE O LIVRO "HECATOMBE HIPOTÉTICA", DA ESCRITORA BRASILEIRA CLÁUDIA GOMES

Em “Hecatombe Hipotética”, a mulher define-se a si mesma como um precipício. Alguém que se tornará numa velha mal amada e rabugenta, um projecto de poesia experimental que tem a presunção de ainda poder vir a salvar o decadente mundo literário destes dias de crise geral. Alguém que se pendura na amalgama bafienta e degradante de um transporte público e mesmo assim viaja, sorridente, pelos trópicos de lugar nenhum onde sempre se venderá, por amor ou por dinheiro.


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São ao todo quarenta e uma tentativas de resgate do que se presume ser o último resquício da poesia contemporânea que parece ter o seu derradeiro oásis na escritora brasileira Cláudia Gomes. Ela própria um poema ambulante, espalhada em retalhos líquidos do que percebe ser a condição de uma mulher brasileira em catarse consigo mesma. No livro “Hecatombe Hipotética” ela é, por vezes, uma palavra nua onde sana as suas próprias dores e causa outras ainda maiores; noutras, um poema comprido onde guarda, bem ao fundo, uma rosa que não pode ser colhida.

Descobri a Cláudia Gomes há meia década, num acidente cibernético. Eu a entrar para a vida adulta num bairro suburbano do sul de Moçambique, ela como gestora cultural em qualquer periferia de qualquer cidade de qualquer Estado brasileiro. Não tínhamos nada a ver um com o outro, evidentemente, não fosse esse português, ao mesmo tempo comum e controverso, que colocava em versos os desvarios existenciais de cada um de nós. Foi assim que me introduzi no intrigante mundo poético da Cláudia, de onde certamente não me libertarei facilmente. Felizmente. E mesmo sabendo que ela tem outros livros publicados na idílica órbita daquele que eu considero ser o melhor público literário de sempre, o infanto-juvenil, “Hecatombe Hipotética” é, ao menos para o meu distraído universo, o primeiro parto dessa iconoclasta poetisa no confuso mundo dos adultos.

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Em “Hecatombe Hipotética”, a mulher define-se a si mesma como um precipício. Alguém que se tornará numa velha mal amada e rabugenta, um projecto de poesia experimental que tem a presunção de ainda poder vir a salvar o decadente mundo literário destes dias de crise geral. Alguém que se pendura na amalgama bafienta e degradante de um transporte público e mesmo assim viaja, sorridente, pelos trópicos de lugar nenhum onde sempre se venderá, por amor ou por dinheiro. Uma mulher com sonhos místicos, aberta e húmida para ser penetrada por qualquer cão, para depois meditar embebedada enquanto vê o seu amor a se acabar, mas que promete se libertar nos braços de outro...

Confesso ter entrado em epifania ao me deparar com um dos mais subversivos poemas do livro, intitulado "OBRA-PRIMA DA ARTE MODERNA":

"Tá ali na parede preta dura pichada o quadro colorido

com olho boca bunda e seio representando qualquer

coisa que eu não sei o que é que se foda.”

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Quantos de nós, falíveis Hércules de coisa nenhuma, nos deparamos inúmeras vezes com tanto aparato sem nenhuma substância? Disfarces de erudição que não são mais do que teorias redundantes sobre o concreto, traduzindo desenvergonhadamente a já pálida pretensão humana de nos tornarmos deuses de qualquer coisa, a todo o custo. “Hecatombe Hipotética” é só mais um lembrete da nossa precariedade existencial, algo muito provavelmente próximo do que diz outro soberbo poema, intitulado “A MOÇA QUE SE DEVORAVA”:

“Quando se olhava no espelho,

Não se via.

Não enxergava nada, além da face igual do outro lado – se é que havia.

Enxergava-se, como num rio, a superfície.

Superficial,

Supérflua,

Leviana,

Fútil.

Não se superava,

Não conseguia se ver - e arrumava o cabelo para disfarçar(…)”

Entretanto, mesmo ciente dessas vicissitudes próprias dessa condição volátil de se ser pessoa, há sempre espaço para o derradeiro resgate. A luz ao fundo do túnel onde qualquer um merece ser também idiota ou onde somos todos vulgares, enterrados no sofá da sala a ouvir Tchaikovsky e, ao fim de tudo, acabarmos por descobrir que estamos a envelhecer… E então, como muito bem diz “SOBRIEDADE ANTES DE DORMIR”:

“ (…) A vida é tão curta que,

Quando percebemos,

Já é noite, chove e

Esquecemos de tirar a roupa do varal.”

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A obra é uma edição da autora e pode ser adquirida mediante requisição directa em qualquer lugar do Brasil e do mundo. O convite está lançado, sobretudo para os mais fervorosos entusiastas da arte pela arte em poesia, nas suas nuances mais pós-modernistas e propalada no feminino. Leiam “Hecatombe Hipotética” e, por favor, não deixem a poesia morrer!


Edgar Mundulai Barroso

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