Edgar Mundulai Barroso

Escrever é preciso. Viver também.

RELACIONAMENTO ENTRE NEGROS E BRANCOS – AMOR, PODER OU MODA?

Os relacionamentos inter-raciais são, hoje, crescentemente comuns. Mas nem sempre o foram. O presente artigo apresenta, sumariamente, a evolução histórica dos relacionamentos entre indivíduos negros e brancos. Num passado não muito remoto, no período da escravatura e do colonialismo, eram quase impossíveis. Dos existentes, regra geral, aconteciam mais entre homens brancos e mulheres negras e eram essencialmente de natureza servil; entretanto, havia excepcionalmente, casos entre homens negros e mulheres brancas, socialmente combatidos e com finais invariavelmente trágicos. Nos nossos tempos, os padrões de relacionamento inter-racial mudaram significativamente. Há hoje, relativamente, mais casais entre homens negros e mulheres brancas do que entre homens brancos e mulheres negras. Saiba porquê.


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Os povos negros não têm, infelizmente, um passado recente muito feliz. A escravatura e a colonização foram, indubitavelmente, as suas maiores evidências. O processo de colonização em África e a exploração esclavagista na diáspora, marcadamente violentos e opressivos tanto física como psicologicamente, corroeram de forma sistemática a autoestima negra ao longo de séculos, com repercussões que duram até aos tempos presentes. Foi um processo de socialização inferiorizante que estereotipou, catalogou e estampou o homem negro com padrões de pensamento e de comportamento socialmente discriminatórios. Desde então, houve um deliberado ato de aculturação da sua condição ao mesmo tempo que lhe era inculcado um sentido de discriminação, de subjugação, de servidão e de veneração ao homem branco. Com a abolição da escravatura e do colonialismo, vários movimentos e processos de emancipação negra ocorreram, primeiramente na diáspora africana e um pouco depois pelo continente-mãe, englobando, dentre outras, variantes políticas, económicas, sociais e culturais. Estas dinâmicas sempre foram, desde então, um campo imenso de estudo e de teorização.

Dentro desse rico e diverso escopo historiográfico e literário retratando a eterna luta pela identidade, emancipação e afirmação negra, interessa-me para já problematizar o timidamente abordado assunto das relações inter-raciais. Eu sou um homem negro e tenho estado a namorar com uma mulher branca. O interesse em escrever sobre este assunto surgiu precisamente de uma das nossas conversas sobre as lógicas estruturantes da nossa relação amorosa. Nasci e cresci em Moçambique, onde a história de miscigenação racial no período colonial português sempre foi caracterizada pela união, afetiva ou subserviente, entre um homem branco e uma mulher negra. Da conversa que tive com a minha namorada, surpreendentemente fiquei a saber que o histórico de relações inter-raciais não era apenas de exclusiva orientação de um homem branco para uma mulher negra, como também (embora em mínima escala nos primórdios da miscigenação) de um homem negro para uma mulher branca. Fiquei extremamente curioso e fui fazer um levantamento histórico.

Os mais remotos casos de relacionamentos inter-raciais entre um homem negro e uma mulher branca podem ser encontrados especialmente no Brasil, país que, tal como Moçambique, também sofreu um processo de colonização por parte de Portugal. As obras científicas e literárias que estudaram ou retrataram a sociedade esclavagista ou colonial de então apresentam, predominantemente, os casos de envolvimento afetivo e sexual entre o homem branco e a mulher negra, e em muito menor escala igual relacionamento entre um homem negro e uma mulher branca. Entretanto, este último tipo de relacionamento também existiu desde então. Se os relacionamentos entre um homem branco e uma mulher negra refletiam as relações de poder assentes no domínio tirano do senhor branco sobre as escravas negras, muitas das vezes exercido de forma abusiva e extramatrimonial, os relacionamentos entre o homem negro e a mulher branca eram vistos como impuros, obscenos e passíveis de censura social, merecendo a mulher branca conotações desqualificativas e isolamento social. Leituras mais aprofundadas sobre este último caso mostram mesmo exemplos de mulheres brancas que eram assassinadas ou afastadas da vida pública quando se soubesse do seu envolvimento afetivo ou sexual com homens negros, social e racicamente tidos como inferiores.

Atualmente, as lógicas de relacionamento inter-racial parecem ter mudado radicalmente. Alguns estudos pormenorizados sustentam a ideia de haver agora mais relacionamentos entre um homem negro e uma mulher branca do que entre um homem branco e uma mulher negra. No primeiro caso, referente aos relacionamentos entre um homem negro e uma mulher branca, e colocando constante as motivações de natureza exclusivamente sentimentais, razões como a renegação do seu sentido de pertença ou a necessidade de afirmação social por parte do homem negro podem explicar, em parte, a sua preferência afetiva ou sexual por mulheres brancas, provavelmente à luz de fatores derivados da tradição colonial ou de dinâmicas de socialização em países onde os negros sempre foram uma minoria racial. Numa sociedade predominantemente de pessoas brancas, as probabilidades de cruzamento inter-racial para as pessoas negras são evidentemente altas. Concorrem para esses cruzamentos não só estas variáveis, como também os preconceitos socialmente construídos sobre os homens negros, nessas sociedades. Regra geral, o homem negro é visto como sexualmente potente e avantajado ou fisicamente viril e exótico, para além de as mulheres brancas acharem que manter um relacionamento com um homem negro está na moda ou é estrategicamente profícuo, sobretudo quando este é financeiramente bem-sucedido. Por seu lado, e ainda dentro das lógicas socialmente construídas, a mulher branca é vista pelo homem negro como intelectualmente superior e que oferece garantias de uma maior velocidade no seu processo de ascensão e aceitação social nas sociedades predominantemente brancas, sem descurar também razões como a diversificação da sua experiência sexual ou a necessidade de diferenciação ou de exibicionismo perante a sua classe racial originária.

Os relacionamentos inter-raciais entre o homem branco e a mulher negra ocorrem, por sua vez, num contexto de baixa intensidade. Aqui, as motivações para tais cruzamentos centram-se, para a mulher negra e colocando constante as razões sentimentais, essencialmente num misto de busca de estabilidade afetiva, social ou material. Se a mulher negra se atrai mais pela segurança daí derivada, para além de fatores outros como o estatuto e a ascensão social por ela conferida, o homem branco, mantendo também as motivações passionais de parte, geralmente vê a mulher negra como fonte de uma exuberante beleza física e como objeto sexual acima da média.

O mais interessante de reter aqui é que os relacionamentos inter-raciais, antigamente levados a cabo pelo homem branco, de forma abusiva e impositiva, sobre a mulher negra, hoje em dia acontecem mais entre o homem negro e a mulher branca, de uma forma mais liberal. Nessa perspetiva, uma importante questão surge: o que é que pode ter feito com que os padrões de relacionamento afetivo ou sexual entre os negros e os brancos tivessem radicalmente mudado? Muito provavelmente, ao mesmo tempo que a abolição da escravatura e o processo da descolonização libertaram os negros, numa certa medida, da inferiorização social assente na sua pertença racial, o processo de emancipação e afirmação da mulher branca também sofreu um rápido desenvolvimento e com uma revolução assinalável na sua liberdade sexual. Este processo tem acontecido a uma velocidade muito mais reduzida no caso da mulher negra.

Como se pode depreender, as dinâmicas de relacionamento inter-raciais carecem ainda de cuidadosas análises e abordagens, dada a sua extrema delicadeza e sensibilidade. Entretanto, por ser um exemplo de comunhão e de fusão da espécie humana, este tipo de relacionamento constitui expressão plena de dois dos direitos humanos mais inalienáveis, por parte de quem o vive: o direito à liberdade de escolha e o direito à felicidade.


Edgar Mundulai Barroso

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