Edgar Mundulai Barroso

Escrever é preciso. Viver também.

SOBRE A CRISE POLÍTICA BRASILEIRA

Se a marcha anti-Dilma e anti-PT do dia 13 de Março foi a consumação física da alienação das mentes de cerca de 3 milhões de “gente fina” pelos neoliberais da direita brasileira, a marcha deste 18 de Março pode vir a ser a triunfal homenagem ao PT e à Lula por parte dos 50 milhões de “pé rapados” que ele tirou da miséria e lhes deu comida, educação e dignidade. Tempos ainda tenebrosos se aproximam!


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Michel Foucault, um dos mais proeminentes filósofos do século XX, foi, dentre outras coisas, dos que mais se destacou no estudo da relação entre o poder e o conhecimento. Especialmente sobre a forma como o poder e o conhecimento podem ser usados como instrumento de controlo social nos nossos dias, por parte de instituições diversas (o Estado, a religião, a escola, os ricos, as grandes corporações internacionais e os grandes meios de comunicação social, principalmente). Uma das frases dele que nunca me esqueço li numa colectânea de artigos, entrevistas e ensaios seus, reunidos num livro intitulado “Estratégia, Poder-Saber”, onde ele afirma, categoricamente, que “relações de poder (sempre) existem entre aquele que sabe e aquele que não sabe”. Por outra, quem detém mais conhecimento tenderá a ter maior poder, e quem detém menos conhecimento tenderá a ter menor poder.

Obviamente que a relação não é tão linear assim e pode depender de outras variáveis, mas o pensamento se revela útil para efeitos do presente texto. O mais importante a reter aqui é que, segundo Foucault, todo o sistema que rege a vida em sociedade é construído em função de quem detém o poder, reflectindo sempre as suas necessidades e interesses. Por exemplo e só para problematizar, regimes ditatoriais nunca conceberiam um sistema nacional de educação que fosse contra as suas necessidades de manutenção no poder ou contra os interesses da sua maximização. O mesmo acontece com o cristianismo católico (onde toda a sua doutrina e prática visam conservar e difundir os seus princípios e valores religiosos) ou com as maiores agências de notícias mundiais (predominantemente oriundas dos países mais poderosos do mundo e que reflectem os princípios e valores estruturantes dessas sociedades). Falo de principais agências noticiosas mundiais como falaria de agências nacionais, frise-se, todas elas sempre reflectindo deliberadas necessidades e interesses (as tais linhas editoriais que, em última instância, são também produtos de dinâmicas de poder específicos).

Antes de entrar para o assunto principal do texto, seria importante também revisitar outro dos considerados mais influentes pensadores políticos dos nossos tempos: Noam Chomsky. Nas suas muito famosas “Dez Estratégias de Manipulação através da Mídia” (disponível online para quem ainda não leu), Chomsky denuncia uma das mais importantes armas das elites que governam as sociedades capitalistas actuais: a propaganda feita através dos meios de comunicação social de massas (televisão, rádio, jornais, revistas e sites online de notícias). O principal argumento deste pensador assume que o neoliberalismo, emergido entre as décadas de 1980 e 1990 como principal paradigma de “governação” mundial (à luz de interesses económicos e em detrimento das questões sociais), elaborou estratégias de manipulação social dos povos através dos meios de comunicação social, corrompendo e enfraquecendo a opinião pública da seguinte forma: • Entupindo as pessoas de telenovelas, séries, canais de música e entretenimento diverso, fazendo com que elas preencham a maior parte do seu tempo com essas coisas e não desenvolvam interesse em assuntos políticos ou decisões económicas que influenciam decisivamente a sua vida; • Inventando problemas (especialmente os que acabem em violência), para que o povo se sinta ameaçado e ele mesmo sugira ou apoie reacções também violentas por parte de quem detém o poder; • Usando linguagem simplista, vaga e superficial sobre os grandes assuntos da nação, de forma a que os cidadãos tenham também pensamentos simplistas, vagos e superficiais sobre a actualidade política, económica e social dos seus países; • Manipulando emocionalmente os cidadãos, fazendo-os reagir de forma emotiva a assuntos que exijam um maior sentido crítico; • Institucionalizando um sistema de educação de baixa qualidade a todos os níveis, para formar cidadãos burros e medíocres, incapazes de perceberem que são manipulados e que nunca questionem as “verdades” veiculadas pelos meios de comunicação social; • Usando a posição de autoridade funcional ou legal para incutir no cidadão “verdades inquestionáveis”, total obediência e “apoio incondicional”.

É precisamente isso o que tem estado a acontecer no Brasil agora. Com efeito, há naquele país um grupo privilegiado de pessoas ricas e que sempre se consideraram política e socialmente acima da larga maioria pobre. Ideologicamente de direita, controlam os principais meios de comunicação social e os usam como instrumento de disseminação da sua orientação política e como meio de manipulação da opinião pública em função dos seus interesses. Eles sempre estiveram por cima da estrutura social brasileira (inclusive nos tempos em que o país era uma ditadura militar, entre 1964 e 1985). Lula da Silva, proveniente da classe trabalhadora mais desprivilegiada, conseguiu um dia ser eleito presidente daquele país (entre 2003 e 2011) e colocou em andamento uma série de políticas públicas que tornaram o Brasil um dos países mais bem-sucedidos do mundo no combate à pobreza, à fome e às desigualdades sociais. No governo de Lula, o Brasil tornou-se numa das mais vibrantes economias do mundo: baixou consideravelmente a taxa de desemprego, subiu a arrecadação de receitas fiscais, conseguiu liquidar a sua dívida externa, criou o maior programa de bolsas de estudo da história da educação brasileira (milhares de cidadãos moçambicanos também se formaram no Brasil ao mais alto nível através dele) e, muito mais importante, desenvolveu um dos melhores planos de combate à pobreza do mundo (através dos programas “bolsa família” e “fome zero”). Estas políticas foram herdadas pelo governo de Dilma Rousseff, sucessora de Lula a partir de 2011, embora com um sucesso menos significativo.

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Obviamente que tudo isto criou um sentimento de generalizada insatisfação junto da tradicional classe rica dominante. Muitos deles passaram a conviver com os outrora desprivilegiados em lugares elitizados como os centros do poder político, as universidades e os sectores produtivos de médio e alto escalão. Paralelamente, escândalos de corrupção (endêmicos em toda a história republicana do país) também eclodiram no governo de Lula (especialmente o designado “Mensalão”) e no de Dilma (onde se destaca a operação “Lava Jato”), todos eles envolvendo não só figuras de relevo do Partido dos Trabalhadores (PT), que lidera o governo brasileiro há 13 anos, como também de outros partidos políticos.

Estes factos têm sido largamente instrumentalizados tanto pela direita oposicionista brasileira (que defende os interesses das classes ricas), com o apoio das corporações mediáticas locais (particularmente a Globo, a Folha de São Paulo e a revista Veja), como também por alguns órgãos do poder policial e judicial manifestamente politizados. Usando precisamente as armas denunciadas por Foucault e por Chomsky, a sua acção tem recorrido à tácticas de descredibilização da rectidão e capacidade governativa junto da opinião pública brasileira, fabricando “verdades” através de discursos demagógicos, promovendo campanhas populistas e selectivas de perseguição política através da polícia federal e dos tribunais, bem como mobilizando manifestações populares junto da classe média-alta. Tudo isto com três principais objectivos: derrubar o governo de Dilma através de um impeachment (impedimento de continuação de mandato), impedir o regresso de Lula à presidência do país e permitir a ascensão da direita ao poder.

Entretanto, e até à sua consumação, Dilma tem jogado as suas derradeiras cartadas políticas: tenta por um lado proteger Lula, tornado recentemente na cabeça número dois a abater politicamente pela direita e, por outro, salvar o seu governo. Não só enfrentando o escandalosamente politizado poder judicial personificado na figura do juiz Sérgio Moro, como também, a partir de ontem, a comissão parlamentar que analisará o seu processo de impeachment. Por outro lado, entra hoje em acção outro actor de relevo para o jogo de forças na crise política brasileira: a contra-ofensiva popular em apoio ao governo de Dilma e à Lula da Silva, maior beneficiária da “affirmative action” das duas últimas décadas e, claramente, em muito maior número do que a dos manifestantes de direita. Se a marcha anti-Dilma e anti-PT do dia 13 de Março foi a consumação física da alienação das mentes de cerca de 3 milhões de “gente fina” pelos neoliberais da direita brasileira, a marcha deste 18 de Março pode vir a ser a triunfal homenagem ao PT e à Lula por parte dos 50 milhões de “pé rapados” que ele tirou da miséria e lhes deu comida, educação e dignidade. Tempos ainda tenebrosos se aproximam!


Edgar Mundulai Barroso

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