O cliente é o primeiro arquitecto

O cliente é o primeiro arquitecto. Esta expressão é muitas vezes utilizada pelo arquitecto Álvaro Siza na sequência da explicação do sucesso de algumas das suas obras, e recentra o papel dos arquitectos na resolução do problema concreto que o cliente lhe apresenta.


A arquitectura durante a sua evolução sempre esteve directamente ligada à cultura do seu tempo. É uma manifestação cultural por excelência. Se analisarmos as civilizações antigas ou a antiguidade clássica as grandes peças de arquitectura que ainda hoje nos impressionam estão de facto ligadas a algo que fosse central na vivência dessas sociedades, nestes casos, tendencialmente a religião. Na idade média assistimos à introdução da nobreza neste equilíbrio de protagonismo entre o estado e religião, reflectida na marcação do território com peças de arquitectura civil. Esta breve sequência aqui elencada, não entrou propositadamente no campo da habitação que foi desde sempre um programa de evolução lenta e muito conservadora, mas muito adaptada a todos e a cada contexto específico onde se inseria. O papel do arquitecto tem certamente variações ao longo do tempo. Em Portugal, por exemplo, o território está carregado de exemplos de arquitectura feita por engenheiros militares, fruto da época e contexto em que se vivia, sempre em vigilância e em tensão contra o inimigo invasor. A robustez contra a agressão militar e o desgaste era a principal necessidade. Não havia recursos para construir o palácio e o castelo, ou a muralha e as casas. Criaram-se tipologias híbridas e os núcleos populacionais fixaram-se dentro das muralhas dos castelos. Na sociedade contemporânea se introduzirmos o capitalismo nesta equação conseguimos perceber claramente a especulação que levou por exemplo ao crescimento em altura, por falta de espaço, com mais procura. Já na idade média alguns núcleos tinham atingido alguns pisos, mas foi com a revolução industrial no século XIX que este processo se tornou claro. No século XX assistimos ao aparecimento dos verdadeiros arranha-céus, num esforço conjunto de arquitectos e engenheiros, impulsionados pelas necessidades e desafios dos clientes.

i-like-america-and-america-likes-me.jpg!Large.jpg © Joseph Beuys

Esta relação de confiança que se estabelece entre o promotor/cliente e a equipa de projecto é crucial para o desenvolvimento do projecto. Os arquitectos não inventam nada sem serem desafiados. Por experiência própria, ou mais ou menos próxima, todos os arquitectos já tiveram que lidar com situações menos adequadas ou menos correctas originadas com a melhor das intenções. É de esperar que o cliente nas primeiras abordagens esteja agarrado a uma série de ideias pré-concebidas e que as traga consigo. São o seu referencial e o mundo que à partida conhece, logo é o mundo que ele consegue imaginar. No papel do arquitecto estamos aqui perante uma situação que se pode tornar delicada se não conseguirmos passo a passo gerir a nossa abordagem. Para muitos de nós arquitectos pode ser muito complicado nestes casos conseguir que estas ideias pré-concebidas sejam reformuladas e temos que nos articular em dois desafios: a relação directa de comunicação com o cliente e a relação com o projecto. O arquitecto Eduardo Souto de Moura refere várias vezes a performance “I Like America and America Likes Me” do artisita Joseph Beuys, como uma verdadeira metáfora do processo de desenvolvimento desta espécie de confrontos. Nesta performance está presente um coiote e um homem. O coiote representa tudo aquilo que existe de selvagem, o desconhecido com vida própria e nós representados pelo homem, numa primeira fase completamente protegido e recolhido contra as investidas do coiote, mas que pelo passar do tempo e com esta convivência íntima ao longo do tempo, a relação tornou-se doméstica e ambos entendem os seus limites e papel. Ora, se por um lado todos nós conseguimos perceber este exemplo do “drama” interno da criação do projecto também a relação com o promotor mais problemático/ desafiante poderá ser encarada da mesma maneira. Vale a pena investir tempo nesta relação de convívio com o cliente e fazê-lo perceber os nossos pontos de vista e referenciais. Os arquitectos devem estar muito atentos ao tipo de clientes que têm pela frente e entender os seus sinais. Obviamente que nem todos teremos a sorte de trabalhar com alguém que esteja à partida disponível e interessado em explorar novas ideias e partir para o grau zero ou debater de novo muito daquilo que já parece fechado e acertado, mas com este trabalho e paciência de dar a conhecer novos mundos, novas experiências surgirão e certamente que sairemos todos mais satisfeitos e valorizados.

Alvaro-Siza-CCA-101.jpg ©Photograph by Fred van der Burg, 1986. Courtesy of Adri Duivesteijn/STROOM Den Haag © Fred van der Burg

Grande parte do referido até agora aplica-se maioritariamente à nossa experiência genérica com clientes mais próximos, os privados. Este tipo de clientes funciona com ritmos e hierarquias muito diferentes dos clientes públicos. O cliente privado tendencialmente divide-se em dois grandes grupos: o grupo que quer construir algo que o realize/ um sonho, como uma casa ou um pequeno equipamento, e o grupo que utiliza a arquitectura como parte do seu negócio. Trabalhar com o primeiro grupo permite criar uma relação mais intimista, talvez mais duradoura e intensa. O segundo grupo é mais imprevisível. Ao utilizarem a arquitectura como parte de um negócio puro e duro, que vai nascer ou crescer e que presumivelmente poderá ter uma espécie de prazo de validade, muitas vezes possuímos aqui mais liberdade criativa, mas em contrapartida menos flexibilidade orçamental, já que provavelmente somos confrontados sistematicamente com revisão de custos e manutenção. Trabalhar com este tipo de clientes poderá tornar o papel dos arquitectos num mero prestador de serviços refém de interesses económico-financeiros que caberá a cada um de nós – arquitectos – eticamente aceitar ou não. O acesso à encomenda pública tendencialmente deve ser totalmente clara, evitando-se situações de ajustes directos injustificados e privilegiando o concurso público por princípio. O processo de trabalho e relação entre as partes tem aqui ritmos e comunicações muito específicas. Uma entidade pública quando toma a decisão de abrir um concurso para algum projecto, à partida terá pela frente um trabalho muito exigente e de extrema responsabilidade na elaboração das premissas a que os concorrentes terão que responder. Desde logo a criação adequada do programa é um factor essencial, assim como a localização para a intervenção. Neste ponto o cliente deverá à partida ter uma ideia muito clara dos problemas a resolver e dos factores diferenciadores a valorizar na avaliação das propostas. Neste processo de resposta ao concurso, num curto espaço de tempo, o arquitecto tem que solitariamente – sem interlocutor – em conjunto com a sua equipa, articular todas as necessidades do programa e obviamente dar o seu melhor neste equilíbrio muito complexo. Neste caso com a entrega, deveria ser formalizada uma intenção em aberto, mas que fosse capaz de ser comparada com as restantes e passível de desenvolvimentos posteriores. No entanto procuram-se cada vez mais respostas fechadas e prontas, responsabilizando imenso o papel do arquitecto/ concorrente que na maior parte das vezes após ganhar o concurso continua a desenvolver as fases de projecto restantes, em vez de efectuar com o cliente uma revisão crítica e consequente da ideia apresentada.

Muito se tem falado da dificuldade dos recém-licenciados conseguirem trabalhar. As expectativas na entrada para o curso são altas, e durante o desenrolar da formação na esmagadora maioria das escolas, a ênfase é colocada no protagonismo do cliente. Um cenário ideal que nunca existirá. Faltará algures a introdução de algum sentido crítico em pelo menos dois pontos: a consciencialização do papel além de autor, enquanto coordenador de uma série de interesses e o necessário ajuste no relacionamento entre as partes. O segundo ponto deverá merecer uma reflexão por parte das escolas e de quem as procura. É a uniformização aparente de todos os cursos de arquitectura. É um pouco estranho que dentro de países com contextos e origens diferentes a oferta formativa seja tão igual, muitas vezes com os mesmos professores a circular simultaneamente entre escolas, dentro e fora do mesmo país. Há uma excepção à regra como a experiência da Universidade de Talca no Chile, representação Oficial do Chile na 15ª edição da Bienal de Arquitectura de Veneza, a decorrer. É um exemplo fantástico desta forma de gestão de todos os intervenientes e onde todos saem valorizados no processo.


version 1/s/arquitetura// @obvious, @obvioushp //Pedro Azevedo