Arthur Arantes

Tentando ler um pouco nosso mundo para não virar bolor. Cinema, música, política e futebol podem explicar tudo. Na maioria das vezes não explicam nada, nessas horas, sociologia me cai bem.

Faça a coisa Certa: cinema, cultura e conflito

Faça a Coisa Certa é um filme que mostra que o cinema possui a capacidade de nos tirar de uma posição confortável e nos fazer refletir sobre a realidade, nos ajudando a construir as mais diversas visões e percepções de mundo.


lovehate-580.jpg A década de 1980 talvez não tenha tanta força no imaginário coletivo como outras décadas, principalmente quando pensamos em fenômenos artísticos e estéticos como a música e o cinema. Contudo, como não é incomum, tendências e debates do passado retornarem. As evidências de que os anos 80 está sendo revisitado estão aí, como por exemplo o resgate de Blade Runner, filme marcado por uma estética cyberpunk tipicamente oitentista.

Foi nesta década que o diretor de cinema Spike Lee lança uma das suas obras principais, o filme “Faça a Coisa Certa”. O longa mostra a dinâmica das relações em uma rua específica do Brooklyn em um dos dias mais quentes do ano. Apesar de abusar de estereótipos, Lee encaixa bem a tensão que se forma em um bairro no qual a maioria dos moradores são negros, mas os que controlam o comércio e a segurança não são. Os policiais são, na sua maioria, brancos; os donos da mercearia são asiáticos e o dono da pizzaria, centro nevrálgico do longa, é italiano. A relação entre Sal, o dono da pizzaria, e os negros do bairro é ambígua. Ele é agressivo com seus clientes, mas entende a importância deles para seus negócios e, inclusive, se sente confortável convivendo com eles. Os clientes, por sua vez, alimentam estas características. Muitos questionam Sal, o odeiam pessoalmente, mas não abrem mão de sua pizza. Em uma das falas, uma personagem deixa claro que nunca boicotaria a pizza do Sal, já que cresceu comendo aquelas fatias. Esta dupla natureza na relação entre os agentes não é despropositada, mostra a dependência que eles criam entre si; contudo a assimetria entre negros e brancos na hierarquia social constitui o foco do conflito, tanto velado, quanto o violento, onde tensão se torna agressão, mostrada na película em uma escalada constante.

É conhecimento comum que a tensão racial nos Estados Unidos é tão densa que seria possível cortar com uma faca. A história do país é constituída sobre a institucionalização do racismo, ou seja, sua legalização via mecanismo jurídico. A abolição de leis com este cunho não tem mais de 50 anos, um pequeno período de tempo perto da história como um todo, e mesmo assim não veio sem antes derramar muito sangue, sobretudo e especialmente sangue negro. Séculos de história, entretanto, não podem ser apagados com uma canetada de um presidente. Hábitos culturais são persistentes no tempo e requerem um grande esforço coletivo para serem transformados. Produções como a de Spike Lee não podem ser ignoradas neste contexto.

Recentemente, vemos a realidade deste fato. Desde 2014, pelo menos, protestos e debates públicos são feitos naquele país tendo com pauta a violência policial perpetrada contra os negros. Manifestações, algumas pacíficas e outras violentas, eclodiram em diversos pontos do país motivados por recentes assassinatos de negros desarmados e rendidos por policiais brancos, alguns julgados e absolvidos de seus crimes. Exatamente o ponto que o longa toca, há mais de duas décadas. 18958239.jpg A arte de forma geral possui um potencial muito grande de nos colocar em contato com questões importantes da nossa sociedade. A projeção na tela tem a capacidade de levantar reflexões sobre aquilo que somos e a maneira como lidamos com uma diversidade enorme de coisas. Para além do mito da arte desinteressada, a sua interligação com um sistema cultural mais amplo faz com que ela seja importantíssima, seja como operadora de uma mudança de perspectiva ou como reforço para visões de mundo estabelecidas.

A importância de realizadores negros (ou mulheres, ou homossexuais, dependendo do problema abordado), como Spike Lee, está no fato deles vivenciarem a experiência do que é ser negro e sofrerem todos os dias com a forma como nossas sociedades se organizam. A capacidade de uma produção assim produzir uma nova consciência ou pelo menos incomodar o establishment é muito maior do que uma vinda daqueles que não sofrerem com a mesma realidade, apesar de, eventualmente, diversos artistas não-minoritários terem conseguido tratar destes temas com grande sensibilidade.

Em Faça a Coisa certa podemos refletir sobre a natureza das relações raciais que, apesar de serem localizadas nos EUA, podem servir de modelo para refletirmos o Brasil se levarmos em consideração as diferenças e semelhanças que existem no tratamento deste fato em ambos países. O exemplo dos EUA é paradigmático para o argumento desenvolvido aqui, pois é uma sociedade com feridas abertas e conhecidas por todos, na qual o racismo foi sempre explícito, o que faz com que muitas vezes o problema seja abordado de frente (nem sempre da melhor maneira). No Brasil, por outro lado foi construído no imaginário coletivo uma ideia de harmonia entre as três principais raças de nossa sociedade – o mito da democracia racial. Segundo esta ideia, brancos, negros e, em menor escala de importância, índios, convivem pacificamente e ajudaram, cada um à sua maneira, contribuíram para a formação do Brasil e do que é ser brasileiro.

Apesar do descrédito gozado atualmente pela democracia racial, principalmente dentro dos setores acadêmicos, a ilusão de que não existe racismo estrutural no Brasil ainda persiste, vide o livro “Não somos racistas” escrito por Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, conhecida, entre outras coisas, pelo uso da infame blackface em seus programas de humor. Qual o efeito disto? A negação do racismo como um todo, deixando margem para interpretar sua incidência como atos racistas isolados, não como fruto de uma sociabilidade específica sustentada por setores diversos, como o econômico e midiático.

A luta cotidiana das minorias nos dois países, contudo, é semelhante. Os negros ainda são a maioria entre os presos tanto aqui quanto lá, possuem mais dificuldade de entrar na universidade e terem melhores empregos. Quando um negro ascende a cargos de grande importância, como Obama e Joaquim Barbosa, isso se torna notícia, o que não é nada mais que uma evidência da desigualdade entre raças existentes nestas sociedades. É pela persistência e naturalização da desigualdade nestas relações que filmes como Faça a Coisa Certa devem ser realizados e discutidos e aí reside sua importância. Muitas vezes se combate problemas culturais com armas culturais, já que o potencial de construção de representações coletivas do cinema, sobretudo o cinema de massa, é gigantesco. O retorno aos debates e aos temas do passado só acontecem porque aquelas questões não foram superadas. Vinte e seis anos depois do seu lançamento, o longa permanece relevante e atual, porque trata de problemas contemporâneos.


Arthur Arantes

Tentando ler um pouco nosso mundo para não virar bolor. Cinema, música, política e futebol podem explicar tudo. Na maioria das vezes não explicam nada, nessas horas, sociologia me cai bem..
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