Graci Marques

Jornalista, cinéfila, melhor amiga da alegria, ama carnaval, dias de sol e andar de bicicleta pelas manhãs. Escreve sobre cinema, música, poesia, pessoas interessantes e inquietas. Acompanhe mais textos no blog pessoal: https://35anosblog.wordpress.com

No Dia da Mulher, não me dê flores!

Todos os dias, somos vítimas de ódio, violência, assédio, discriminação, desigualdade e misoginia. Travestidos de pequenas provocações. Queremos ser tratadas como iguais. Então, no dia da Mulher não dê apenas flores. Trate-nos com respeito. Abrimos a série de desabafos virtuais #prontofalei


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No Dia Internacional da Mulher, por favor — meu chapa — não me venha com flores!

Eu quero é receber igual meu colega de trabalho. Quero o mesmo cargo do moço ali do lado que tem a mesma função que a minha e menos estudo, mas recebe um salário de chefia. Entenda que se eu trabalho aqui é porque estudei e trabalhei muito, não foi meu rostinho bonito. Que não existe tarefa de mulher, coisa de mulher ou trabalho de homem. Eu faço o que meu talento permitir. E respeite a minha saia. Não é porque uso essas roupas que te dou o direito de me pedir para dar uma voltinha para você “conferir o material”.

Aliás, o tamanho da minha saia (ou do meu short) não te dá o direito de passar a mão em mim. Controle-se e me garanta o direito de usar as vestes que eu bem entender. Até porque o guarda-roupa é meu. E não me lembro quando foi que meus pais me venderam a você para achar que você que define o uniforme do meu dia a dia. Andar com a roupa que eu bem entendo não significa que estou pedindo sexo, cantada ou estupro. É a simples escolha de me vestir como gosto.

Quero caminhar sozinha sem que entendam que eu imploro por companhia, um “fiu-fiu”. Ser mulher em uma festa não te dá o direito de tocar meu cabelo, puxa-lo ou me pegar pelos braços. E segurar minhas mãos sem licença. Eu quero a liberdade de usar meu batom vermelho sem que digam que estou com cara de puta (e por acaso puta tem uma cara?). Até porque mulher não tem uma cara só, uma alma só e uma personalidade apenas.

Não me venha com bombons, pois não quero ter que ouvir que como feito marmanjo e que não tenho o direito de me servir do tanto que me satisfaz, já que as mulheres devem comer pouco, falar menos à mesa e a sobremesa deve ser milimetricamente calculada. E beber então? Quero a liberdade de não ter minhas taças contadas, meus chopes tabelados e muito menos ouvir que eu me excedi. Não, não estou “alegrinha”: estou bêbada mesmo. E eu não bebo feito um homem. Eu bebo o tanto que quero e a minha conta permite pagar.

E se eu me exceder, fizer o prato de um homem, por favor pare de dizer que vou engordar. Eu sei bem calcular os quilos que eu ganho, tenho calças para medir os meus felizes excessos. E tenho espelho em casa para deixar claro que eu não me reconheço nesse modelo de desejo que vocês fazem questão de me impor em cada TV, revista e outdoor do mundo. Quero a liberdade de não ser uma cozinheira de mão cheia. Até porque minha mãe me ensinou que cozinha é lugar de quem quer. E se eu gosto de encarar fogão, panelas e a arte de gourmetizar tudo, não se ache no direito de me impor a responsabilidade por essa tarefa em casa e nos nossos encontros.

Por favor, aprenda que as atividades da casa não são minhas. São suas também. E que se eu prefiro muito mais pagar as contas e gerir todo esse universo, não tenho a obrigação de me comportar como sua mãe, que sempre dominou esse universo e teu pai ensinou que assim é que as coisas são desde que o mundo é mundo. Não. Eu quero poder cuidar das contas e trabalhar. E nunca reclamarei se você tiver mais jeito para as tarefas domésticas. Ate porque não me lembro de ter escolhido ficar com essa jornada.

Não quero ganhar espelhos ou produtos de beleza, e sim a alegria de não ser culpada por acabar com uma relação por ter um cargo de chefia, de ter alcançado as minhas metas antes das suas ou ganhar mais que você, um homem feito. E se eu for a única que trabalhar, que não haja drama. Até porque já me acostumei a ser abandonada e ser chefe de família. Aliás, arrimo de família. Que nem muro mesmo. Sem poder ceder ou vacilar.

Se eu quero ter filhos, divida comigo toda essa aventura. Respeite o parto que escolhi e compreenda que eu e o bebê somos os protagonistas. E se não quero ter filhos, me respeite também. Lute comigo pelo direito de decidir pelo meu corpo. E que tenho o direito de ter aquela criança ou não. De entrega-la a outra família ou não. Não abandone seus filhos deixando comigo o fardo de cria-los em suas limitações, deficiências e até a microcefalia. Não me lembro de tê-los feito sozinha. Lembre-se que a pensão não é o exercício da paternidade.

E se eu me casei, não me doei a você em um contrato, seu moço: eu resolvi compartilhar um caminho com alguém. Meu pai não te entregou uma nota fiscal. Não sou objeto. Não tenho que seguir as suas regras. Nós definimos acordos comuns. Entenda que um não é um NÃO de verdade. Eu tenho direito sim de decidir transar ou não. E de desistir se não me interessar mais. E se você me traiu, você foi o único (ir)responsável. Nem tente me culpar, que nessa eu não caio mais. Homens têm desejos. E nós também.

Não se ache no direito de me bater porque decidi que você não é mais o companheiro que eu quero na minha vida. Não me toque, que cansei de violência. E não mais me calo. E sim, em briga de homem e mulher, deve-se meter mais que a colher: algema! Que eu morri junto com as duas turistas latinas no Equador. Cansei de levar nos ombros a culpa pelo estupro e pelos maus tratos. Quero valer o mesmo que um homem viajando sozinha. Ou acompanhada de outras mulheres. Quero que a minha amiga negra seja vista como amiga. Que as indígenas sejam simplesmente mulheres. Que todxs que se considerem mulheres sejam vistas e consideradas como tais.

Nossos corpos podem ser fisiologicamente diferentes. Mas queremos ser tratadas como iguais. Então, nesse dia da Mulher, não me dê apenas flores. Trate-me com respeito.

#prontofalei


Graci Marques

Jornalista, cinéfila, melhor amiga da alegria, ama carnaval, dias de sol e andar de bicicleta pelas manhãs. Escreve sobre cinema, música, poesia, pessoas interessantes e inquietas. Acompanhe mais textos no blog pessoal: https://35anosblog.wordpress.com.
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