prosa e flor

Sobre o amor e coisas simples

Lívine Soares

Baiana por natureza, mineira de criação, estudante de odontologia por amor.Aprendeu escrever antes de andar de bicicleta e desde então não parou mais. Acredita no poder do amor e das palavras. Adora um drama, olho no olho, café quentinho. Uma eterna apaixonada pela vida e coisas simples.

JENECI É ‘DE GRAÇA’

Marcelo Jeneci parece ter alavancado a carreira pela forma inteligente com que expõe suas letras, valorizando a simplicidade das coisas da vida, sempre com uma boa pitada de poesia. Seu álbum mais recente intitulado ‘De graça’ contribuiu ainda mais para que sua popularidade se tornasse crescente, conquistando um publico cada vez mais variado.


Talvez a música popular brasileira nunca esteve tão precisada de novos talentos. Se por um lado apreciar Caetano e Tom Jobim não sai de moda, por outro, é certo que o frescor de novos artistas renove o gênero e nos garanta mais força para expor a boa e velha MPB com uma qualidade digna do nome que leva.

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Acabei conhecendo Jeneci por indicação de uma amiga. “Jene, o que?” " Jeneci"- ela respondeu. "Você vai gostar.” Desde então recomendo pra todo mundo.

Seu primeiro disco 'Feito pra acabar’ lançado em 2010, com um título tanto quanto curioso talvez enfatizando a brevidade da vida foi um tremendo sucesso, tendo a música ‘Felicidade’ como ponto de partida para as demais faixas. O clipe dessa música foi elaborado de uma maneira bastante realista, mostrando o cotidiano de pessoas comuns,com um olhar singelo a cada detalhe de vida que passa desapercebido por nós.

Em 2013, foi a vez do álbum ‘De Graça’ e com uma graciosidade que fez com que o CD se tornasse tão encantador quanto o primeiro.

Apesar de jovem, Marcelo parece já ter vivido um bocado. Isso porque suas letras carregam uma certa sabedoria e serenidade que os mais velhos dizem vir apenas com o passar dos anos. Um exemplo disso é a música ‘De Graça’ que dá nome ao álbum. Esta parece ser uma co-irmã de ‘Felicidade’ sempre seguindo a mesma linha de pensamento: ‘O essencial é invisível aos olhos’ como diria Antoine de Saint-Exupéry.

“Sentir o sol te acordar

Bem de manhã

Quem acha pra comprar?

Viver na pele um grande amor

E o seu calor

Quem acha pra vender?

Uma amizade verdadeira

Ou ir a feira

Só pra conversar.”

Sol, amor, amizade verdadeira... Coisas que o dinheiro não pode comprar e se soubéssemos de fato o valor destas, a vida faria muito mais sentido. Me faz lembrar uma frase de Drummond que resume bem isso.

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.” ― Carlos Drummond de Andrade.

E nessa parte Drummond tem uma pegada bastante realista ao citar os sofrimentos, já que nenhum de nós está imune a isso mas ao elevar-se aquilo que realmente importa, as dificuldades acabam se tornando insignificantes.

A melodia é outro quesito importante nas suas músicas e se parece mesmo com uma daquela cantigas que se cantam em roda. A sanfona por sua vez nos remete ao interior, um toque bastante familiar.

Já a voz feminina que aparece nas canções é de Laura Lavieri, parceira de Jeneci nos seus dois álbuns. Nas músicas ‘Tudo bem, tanto faz’ e ‘Pra gente se desprender’ ela faz um solo e as canções parecem ter sido feitas sob medida pra voz suave dela, que com certeza é um show a parte nos discos. Nas outras faixas é possível ouvi-la fazendo divisão de vozes principalmente nos refrões com Jeneci.

A música Alento é outra que também tem a missão de trazer uma mensagem importante e fala por si só.

“Se a grana apertar e o prazo vencer

Seu copo tombar, seu time perder

Se alguém se foi, não tente entender

O que se passou segue com você

Nossa música que lhe faz bem

Você pode descer desse trem

Olhe um pouco pro lado

Não tem cadeado, no seu pensamento.”

Por fim, a música ‘O melhor da vida’ é como a cereja do bolo. Jeneci acertou em cheio quando usou a linguagem dos algarismos pra descrever o amor. Várias vezes no refrão, ele usa o termo mil.

“A vida vale mil. Mil vezes sou nós dois. Mil meses de amor”

Como se o valor da vida estivesse no máximo de amor que existe. E me faz recordar a linguagem que usamos com as crianças, gostar de alguém de 0 até 1000... Até o infinito ou o amor do tamanho do céu como elas preferem dizer. O romantismo final da música fica por conta da frase:

“ Se a vida é por um fio, valeu pra quem já viu, seu jeito de tocar o coração.”

As outras faixas do CD não diminuem em nada a qualidade do disco e vale a pena conferir.

Jeneci é, sem dúvida, um dos maiores artistas brasileiros e se destaca na forma de cativar o ouvinte por quase que participar do cotidiano das pessoas, usando uma linguagem pura na forma de retratar a vida. Nosso desejo é que existam mais olhares como o dele. Vida longa a Jeneci! Vida longa a MpB!


Lívine Soares

Baiana por natureza, mineira de criação, estudante de odontologia por amor.Aprendeu escrever antes de andar de bicicleta e desde então não parou mais. Acredita no poder do amor e das palavras. Adora um drama, olho no olho, café quentinho. Uma eterna apaixonada pela vida e coisas simples..
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