prosa in verso

Impressões Contemporâneas de um escritor incluso e deslocado.

Luigi Ricciardi

Luigi acha que a literatura é uma forma de suportar a vida.

O AMOR DE ACORDO COM...

O amor segundo Buenos Aires de Fernando Scheller é uma boa pedida tanto para amantes de literatura, quanto para amantes de viagens.


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Com Paris, je t’aime, lançado em 2008, uma onda de filmes que podem ser classificados tanto como curta tanto como longa metragem começou a pipocar por aí. Nessa onda veio ainda New York, I Love you, Rio te amo, entre outros. Tais filmes consistem em uma reunião de pequenos curtas, cada um dirigido por um diretor diferente e encenado por atores diferentes, que se passam cada um em uma parte da cidade. Todos refletindo sobre alguma forma de amor.

Essa onde também atingiu a literatura. O amor segundo Buenos Aires é mais um desses tantos livros que pegam carona nos títulos de “o amor segundo...”. Como se pode imaginar, é uma história (ou várias histórias) de amor que acontecem na capital portenha.

Inicialmente o título e a sinopse me deixaram hesitante: compraria ou não o livro? Refutei a primeira vez, pois me pareceu muito senso comum e mais uma daquelas histórias “água com açúcar”. Mas a minha paixão por Buenos Aires me fez vencer o preconceito inicial e adquirir o livro.

Os anos e o número de leituras me fizeram um pouco duro para histórias de amor na literatura. É o tema mais explorado desde que a arte da palavra existe. Depois que grandes nomes do gênero escreveram sobre amor é um pouco complicado se meter a besta e querer escrever sobre o tema sem acrescentar alguma coisa deveras substancial. Eu, por exemplo, às vezes me pego pensando que não se pode dizer nada sobre amor depois que Camões disse que ele é “o fogo que arde sem se ver”. Mas não, é implicância, ainda há muito a ser dito, desde que se faça com mestria.

Embora haja mesmo alguns clichês e reflexões de senso comum sobre o amor e a superação, sobre os desafios e dores que o amor traz, sobre como a vida é injusta com o amor das nossas vidas etc, o livro traz belas passagens, tanto no quesito linguagem – de fato, muito bem escrito -, quanto na criação de cenas e descrições das paisagens de uma cidade deveras encantadora apesar de tantos problemas econômicos e sociais que a assolaram nas últimas décadas.

Um ponto positivo para o livro é que ele pode ser lido tanto em forma de contos independentes como em forma de romance. São várias histórias que se entrelaçam e formam uma só. Se alguém deseja fazer uma leitura não linear do livro, aconselho que deixe o último capítulo para o fim mesmo. Quanto aos outros, em geral, a ordem dos fatores não altera mesmo o produto. Uma montagem, já emprestando um termo do cinema, muito bem feita.

Outro ponto muito positivo é a alternância da voz narrativa. Não há um narrador. Às vezes o narrador de um capítulo (conto) é onisciente e no outro o narrador é o protagonista. Isso faz com a que a história fique ainda mais dinâmica, dando uma fluidez na leitura apesar, de aparentemente, parecer dificultar as coisas.

Acredito que a escolha da capital portenha tenha sido muito feliz para escrever histórias de amor. A tão famosa Paris, cristalização máxima da cidade do amor, parece já ter uma rival à altura que já leva vantagem sobre a capital francesa: está muito mais próxima geograficamente do nosso país e é muito mais barata. O brasileiro não só descobriu Buenos Aires como praticamente a invadiu. Portanto, para nós brasileiros a capital portenha começa a ter seus ares de importância. Outro ponto para o autor da obra Fernando Scheller.

E me parece que o autor conseguiu pegar a introspecção e o amor sofrido do portenho. A construção das personagens mostra que o autor é alguém que conhece a alma da cidade e de seus moradores. Evidentemente que não existe apenas um tipo de argentino, como não existe um modelo de como ser brasileiro, mas algumas características, e isso é evidente, transpõem o individual e tocam o coletivo.

Durante a leitura me lembrei de muitas coisas. Dos meus passeios por San Telmo, onde sempre fico quanto visito a cidade, das noites do Palermo, da poeticidade da Recoleta e de uma beleza inesperada ao virar de uma esquina aparentemente desinteressante e sem surpresas. Lembrei-me também de Ernesto Sábato dizendo, em seu El escritor y sus fantasmas, que o tango é, ao contrário de todas as outras danças, uma dança introspectiva, mostrando o mais recôndito do portenho. Esse livro é um tango portenho. De tantos personagens e tantas histórias de amor (de pais e filhos, amigos, casais hétero e homossexuais), destaque para o personagem Hugo, brasileiro que deixou o país e decidiu seguir a argentina Leonor que decide voltar à sua cidade para rever o pai doente. Hugo é apaixonado por Buenos Aires que, aliás, é a personagem central da história. A cidade vai apresentando a Hugo os outros personagens e suas histórias vão se entrelaçando até se tornarem uma só. Uma milonga (leitura) para se dançar só ou acompanhado. Acompanhada de um bom vinho portenho.


Luigi Ricciardi

Luigi acha que a literatura é uma forma de suportar a vida. .
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