prosa in verso

Impressões Contemporâneas de um escritor incluso e deslocado.

Luigi Ricciardi

Luigi acha que a literatura é uma forma de suportar a vida.

DEPOIS DO VENTRE, A PELE

Resenha do romance "Em teu ventre", do português José Luís Peixoto, uma recriação literária das aparições de Nossa Senhora em Fátima, interior de Portugal.


PEIXOTO, José Luís. Em teu ventre. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Um dos fatos mais representativos de Portugal no século XX ganha sua versão literária. Publicado em 2015 em Portugal, Em teu ventre foi lançado no Brasil este ano pela Companhia das Letras. O romance é assinado por um dos jovens escritores portugueses com maior destaque na mídia lusófona atualmente: José Luís Peixoto, vencedor de vários prêmios literários, tais como Oceanos (2016) e Prêmio José Saramago (2001).

Lúcia dos Santos, Francisco Marto e Jacinta Marto. Esses nomes reverberaram não só por Portugal, mas por todo o mundo ocidental de base cristã. Da pequena Fátima para o imaginário coletivo do mundo católico, essas três crianças foram aquelas que viram as supostas aparições de Nossa Senhora entre maio e outubro de 1917 no interior do país.

O ser humano pobre, por vezes miserável, cheio de dúvidas e incertezas de uma vida que poderia ser bem melhor do que é, torna-se uma das grandes marcas desse romance. Uma população ansiosa por respostas, por cura física e interior, sufocando três crianças que, por acaso ou escolha divina, estavam pastoreando perto da azinheira onde a mulher de branco, mãe de Deus, aparecera.

Uma das personagens-chave do livro é Maria, mãe de Lúcia. Uma mãe de pulso forte, que teme pela filha, mas que também não sabe como agir com ela, por vezes duvidando da palavra de Lúcia, pois a aparição só poderia ser coisa da cabeça de crianças, uma brincadeira de mau gosto que pode trazer sérias consequências à família. Se a infância dessas crianças já era curta, pois precisavam ajudar nos afazeres de adultos, as aparições fizeram com que elas tivessem sua infância quase que suprimida, jogando-as em um turbilhão do qual não tinham maturidade nem forças pra sair.

Tal como Saramago – em O evangelho segundo Jesus Cristo e Caim, por exemplo –, Peixoto dá voz aos pequenos, explorando o humano dentro do contexto religioso. A partir de uma história com base mítica, o escritor de Galveias fala muito mais do humano do que do religioso, tendo, por exemplo, um narrador em terceira pessoa que interrompe a voz de um Deus (também narrador) entediante, talvez para falar dos humanos, muito mais imprevisíveis e interessantes.

O grande trunfo do romance está na não aparição de Nossa Senhora de Fátima, ou melhor dizendo, na sua aparição escondida. Assim como toda a população, excetuando evidentemente os videntes, os olhos do leitor não enxergam a mulher de branco, mais brilhante que o sol, que lhes pede oração e vigia. Em lugar da predominância do metafísico, há um equilibro desse com o social.

A literatura tem o poder de por vezes conectar pessoas de perspectivas diferentes. José Luís Peixoto, com sua marca registrada – uma escrita que por vezes beira o poético –, ajuda a perpetuar esse poder agregador da literatura. O romance é riquíssimo aos cristãos, belíssimo para não-cristãos, mostrando a face mais humana em meio ao mítico.

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Luigi Ricciardi

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