prosa in verso

Impressões Contemporâneas de um escritor incluso e deslocado.

Luigi Ricciardi

Luigi acha que a literatura é uma forma de suportar a vida.

OS MENINOS DA RUA PAULO E OS MENINOS DE TODAS AS RUAS

De fato, apesar das diferenças culturais, financeiras, linguísticas e perspectívicas, as crianças dos últimos cento e cinquenta anos mais ou menos se parecem quando fantasiam e se descobrem pelas ruas do mundo.


Já dizia Clarice Lispector que o mundo da criança é mais interessante porque ela fabula, tem a mente solta, enquanto o adulto é triste e solitário. Não pude deixar de me lembrar dessa declaração ao ler Os meninos da Rua Paulo, obra infanto-juvenil (discordo um pouco dessa classificação), do húngaro Ferenc Molnár, publicado pela primeira vez em 1907.

Eu ainda não havia lido o livro, havia apenas lido alguns comentários na internet e não tinha real ideia da importância desse romance. Tão importante que é o livro mais conhecido da literatura húngara. Há obras que marcam uma cultura e um país, ao menos visto de fora: Madame Bovary para os franceses, Memórias Póstumas de Brás Cubas para os brasileiros, Romeu e Julieta para os ingleses. Parece que, para os húngaros, foi Os meninos da Rua Paulo. A tradução ao português coube ao reconhecido teórico e tradutor húngaro, naturalizado brasileiro, Paulo Rónai.

Sinto que o livro é um daqueles que estão na esteira de O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Éxupery, que pode ser lido em várias fases da vida e, em cada leitura, se tem uma percepção diferente e não menos rica. O livro até fez que Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, editora responsável pela nova edição, por conta de sua paixão pela obra, assinasse a orelha, coisa que raramente faz. O livro conta ainda com posfácio de Michel Laub.

Basicamente, o romance traz como protagonistas garotos que pertencem à Sociedade do Betume cuja sede fica no grund, um pedaço de terra cercado onde brincam. Tal sociedade tem patentes como em um exército e certas regras devem ser seguidas e que são cabíveis de punição caso sejam descumpridas. Apesar desse aparente universo opressor, a sociedade se constitui como uma irmandade.

Porém, eles têm rivais: os Camisas Vermelhas. Mais crescidos e fortes, os meninos dessa sociedade se reúnem em uma cabana improvisada no Jardim Botânico, correndo riscos de serem despejados a qualquer momento. Por isso, querem a todo custo conquistar o grund que pertence aos rivais. É em torno dessa disputa que se desenvolve a trama do romance.

Destaque para o personagem Boka, que ocupa o posto de general da frente de batalha da Sociedade do Betume. Ele que, ao mesmo em tempo que fará de tudo para salvar o grund inclusive dando a própria vida, é mais responsável e adulto que os outros fazendo de tudo para que ninguém, de fato, acabe se machucando na guerra. Outro personagem importante é Nemecsek, o menino mais franzino do grupo, e também aquele que ocupa a menor patente. É o mais corajoso, virtuoso e imprudente ao mesmo tempo. A maioria das mensagens passadas no livro vem desses dois personagens.

Mas não é um livro sobre guerra, tudo menos isso. Aos meus olhos, trata-se de uma obra que fala de compaixão, lealdade e respeito, coisas raras na sociedade atual. É um livro que fala sobre perda, que mostra a tristeza de ser pobre, a inevitabilidade de ser adulto e viver desgostos. É um romance sobre heroísmo, mesmo que pueril e inocente, sobre fatalidade e imprudência. É uma fábula sobre a fabulação de si mesmo.

Parabéns à Companhia das Letras pela nova e bela edição dessa obra clássica. No fim de tudo, apenas uma crítica: apesar de considerar Paulo Rónai importante para a tradução no Brasil, seria preciso que houvesse uma nova tradução, visto que o teórico traduziu essa obra em 1952, data do primeiro lançamento no Brasil. Sendo assim, seria necessária uma atualização da linguagem, pois em alguns momentos houve, a meu ver, perda de verossimilhança pela falta de correspondência linguística.

Ao ler, não pude deixar de recordar o romance Meninos de Kichute, do londrinense Márcio Américo, outro livro que me deixou nostálgico durante a leitura. Também é um livro sobre transição, mas já em uma realidade diferente: o interior do Brasil nos anos setenta e oitenta. Apesar de distantes geográfica e temporalmente, as obras se completam. É que, no fundo, os meninos da Rua Paulo são os meninos de todas as ruas, guardadas mínimas diferenças. Paul_street_boys_sculpture_PB110359.jpg


Luigi Ricciardi

Luigi acha que a literatura é uma forma de suportar a vida. .
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