prosa in verso

Impressões Contemporâneas de um escritor incluso e deslocado.

Luigi Ricciardi

Luigi acha que a literatura é uma forma de suportar a vida.

QUE AMÉRICA É ESSA?

Contreras constrói uma narrativa ao mesmo tempo seriada e una, mostrando a faceta mais dura, que por vezes é a menos falada, da América Latina.


Javier Arancibia Contreras, nome que nos remete ao mundo hispânico, é sim brasileiro, mas filho de chilenos que vieram ao Brasil fugindo da ditadura de Pinochet. Em 2012, foi escolhido pela revista Granta como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros do século. Seu romance “Soy loco por ti, América”, finalista do prêmio Leya em 2014, foi publicado em 2016 pela Companhia das Letras.

Na mesma esteira de João Gilberto Noll, que publicou “Mínimos múltiplos comuns”, livro fragmentado ao extremo, sem aparente conexão narrativa, e o chamou de romance, Contreras nos apresenta quatro grandes contos (ou pequenas novelas) como um romance. Embora também pareça não ter conexão alguma entre as histórias, podemos perceber uma grande unidade na parte temática e na realidade pujante que acerca e oprime os protagonistas dessa(s) narrativa(s).

Todas as histórias têm uma relação, mais ou menos tênue, com ditaduras militares, guerras e holocausto. Todas narradas em primeira pessoa, reforçando um tom testemunhal, de experiência in loco dos fatos contados. O tempo das narrativas começa em 1960 e chega ao século XXI.

A primeira delas é sobre Diego García, um argentino, ex-professor universitário que, a contragosto do pai também professor, decide largar a profissão para ser obtuarista de um jornal de renome. Ele se especializa no gênero e é procurado por inúmeras pessoas com o intuito de ter o obituário de seu parente querido e influente escrito por García, um mestre na arte de contar a vida de alguém recentemente morto. Quando a Guerra das Malvinas explode, García é enviado para cobrir a guerra, coletar dados da vida dos soldados que lutaram pela pátria: material de sobra para os obituários que ele está acostumado a escrever. Sucesso ou joguete de guerra?

A segunda história se foca na vida de Santiago Lazar, chileno do interior, que acaba por se transformar, ao se mudar para a capital que porta o mesmo nome, em um artista sem intenção de sê-lo. Lazar picha muros de Santiago com frases que lhe vêm à mente. De um dia para o outro se torna o poeta-pichador e precisa sair do país para salvar sua vida. Muitos anos depois, morando em Londres, e conhecido pelo nome de William White, Lazar é um artista reconhecido e premiado. Mas os ecos da ditadura, com seus dedos invisíveis, retorna para assombrar sua vida na figura palpável de um colaborador direto do regime fascista em que viveu na América do Sul.

A terceira história tem como protagonista Sérgio Vilela, um jornalista brasileiro que, no auge da carreira, escreve uma espécie de biografia de um general da ditadura, construindo-o como um ser humano comum, aquele “gente da gente”, arrancando-lhe a imagem de torturador e tirano. Apesar de bem quisto pelo governo, o seu último trabalho causa sua ruptura com a imprensa geral, certamente censurada pelo poder e escandalizada por ver um colega de trabalho louvar um ditador. Em pouco tempo sua carreira declina.

Agora trabalhando em um jornal sensacionalista ao qual ninguém dá importância, Vilela tem a chance da redenção ao receber uma história difícil de ser crível. O pastor de uma igreja evangélica tem um passado obscuro em Paramaribo no Suriname, quando era líder de uma seita que causou não só inúmeras mortes, mas grande dano na vida de muitas pessoas.

Marlon Müller, neto de um alemão nazista que parece querer se curar desse mal tentando fazer o “bem”, é o protagonista da quarta e última história desse romance. Com o foco situado no México, a narrativa mostra um milionário que decide virar escritor e desmascarar celebridades e pessoas influentes, que aparentemente eram pessoas “de bem”, mas que tinham um lado da vida chafurdado na lama da imoralidade, contra toda a moralidade que esses mesmo pregavam.

Jonatan Silva, na edição de abril desse ano do jornal Rascunho, afirma que o romance em questão aponta para um mundo kafkiano, uma atualização sul-americana. De fato, o absurdo de algumas situações pode mesmo beirar o kafkiano. Mas acredito que, na realidade latino-americana, esse é apenas mais um capítulo. O absurdo mora aqui desde os “descobrimentos”.

Felizmente a literatura brasileira começa a cobrir aquilo que chamo de uma lacuna criada por uma memória apagada das mentes nacionais: a ditadura militar. Se nos compararmos ao Chile e à Argentina, por exemplo, falamos muito menos desse período do que nossos vizinhos. Inserindo nosso país nesse contexto latino, Contreras reforça, mesmo em tempos de globalização massiva, uma identidade comum com os países que nos cercam, mostrando as feridas abertas por esses governos ditatoriais, fazendo-nos refletir sobre o eco contrário que reverbera por aqui, eco que sopra aos ouvidos pedindo a volta da intervenção.

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Luigi Ricciardi

Luigi acha que a literatura é uma forma de suportar a vida. .
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