Priscila David

Geminiana em fuga. Apaixonada e imaginativa. Cheia de interrogações e reticências... Escrevo porque preciso.

Todo Sentimento

Quando o amor adoece há sempre um que decide partir primeiro. Instala-se, então, um tempo de desespero, de reaprender a viver com a ausência do outro, de acostumar-se com o gosto amargo do abandono... Mas o que é ruim também passa e os dois que se amaram e se separaram e choraram a dor da separação voltam a se encontrar... Já não há, entretanto, espaço para confidências nem carícias... Vive-se um tempo diferente agora... E as palavras não ditas e os beijos não dados intimidam todo sentimento... E talvez seja melhor assim...


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Enquanto dirigia, um filme passava em sua mente. Durante os anos mais alegres de sua vida, aquele foi seu caminho de todos os dias. Foram tantos bons momentos que ela já não conseguia sentir raiva. Permanecia, entretanto, a tristeza que nunca mais desocupou o espaço deixado por ele.

As lembranças estavam bem vivas... Memórias de uma época em que os domingos eram de brisa, o amor barulhento e as risadas honestas e fartas. No entanto, com a mesma nitidez, era capaz de recordar o desânimo que se instalou como uma moléstia e que tornou os dias insípidos, os beijos vazios e a alegria fugaz... A reminiscência daquele amor inadiável ainda a arrebatava mas não sabia como livrar-se da angústia do fim prematuro... Do desalento do dia em que ele arrumou as malas e partiu. Depois de tanto tempo, dava-se conta de que apenas a dor havia mudado. Ainda doía, mas era agora comedida, segura, talvez necessária.

Quando ele propôs o encontro, ela aceitou sem fazer perguntas, como se já esperasse por esse convite. Ao chegar, respirou fundo, enxugou uma lágrima que rolou sem permissão e subiu. A porta estava entreaberta e se ouvia lá de dentro um disco do Chico tocando baixinho. Ela entrou devagar... Os poucos móveis estavam lá, arrumados da maneira que deixara; seguiu a música e o encontrou sentado no chão, ao lado da cama, violão na mão, olhar distante e olheiras que denunciavam noites mal dormidas.

Quando a viu parada à porta, levantou e sorriu um sorriso triste. Caminharam, um ao encontro do outro, deram-se um abraço tímido, percorreram o pequeno apartamento em silêncio e sentaram-se no sofá. Ele reparou no novo corte de cabelo dela e ela comentou que ele estava mais magro. Conversaram sobre a família e os amigos em comum; ele contou como os negócios iam bem e ela falou sobre o tempo em que esteve fora. Aos poucos foram esgotando os assuntos banais, e quando se deram conta, estavam os dois em silêncio. Ela tentava digerir a euforia e o pesar que se misturavam e faziam seu estômago doer e suas mãos suarem... Ele a queria desesperadamente mas não saberia dizer por quanto tempo. Por mais que tentassem, não conseguiam discernir que sentimento prevalecia ali.

A música agora tocava mais alto e os dois permaneciam calados, se olhando, imóveis no sofá. Talvez não houvesse nada especial a ser compreendido ou dito... O tempo se encarregou de tudo. Uma nuvem de gentilezas e pudor os envolvia. Eram estranhos que se conheciam muito bem... Sabiam tanto um do outro que não ousariam transpor aquela barreira erguida com tanta dificuldade.

Ele sorriu novamente o sorriso triste, ela enxugou o caminho molhado de outra lágrima que caiu solitária. Sabiam que era hora de se despedir... Guardaram de volta todo o amor que ainda sentiam e, dessa vez, ela partiu primeiro... Ele ficou na varanda, hipnotizado, seguindo os passos dela até onde seus olhos conseguiram enxergar.

Ela caminhou devagar, sem olhar para trás, deixando-se seguir...


Priscila David

Geminiana em fuga. Apaixonada e imaginativa. Cheia de interrogações e reticências... Escrevo porque preciso..
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