provocações literárias

A arte literária, em uso com as palavras, provocam com sutileza o que há de mais sublime: viver.

Kamila Alves

Kamila Alves, graduada em psicologia e atrevida na arte da escrita.

O LAÇO AMOROSO NA CONTEMPORANEIDADE

A forma com que as pessoas no contemporâneo têm constituído seus laços demonstra sobre a posição e o lugar ocupado em tempos de “modernidade líquida”. Desta forma, há uma questão: O que se pode dizer sobre o desdobramento do laço amoroso no contemporâneo?
Tais proposições abordadas no texto podem ser utilizadas como um dispositivo para refletir sobre o tema.


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Discorrer sobre como o ser humano se engaja e enlaça afetivamente com um outro, percorre desde como este inicia sua jornada na entrada no mundo. Deste modo, os primeiros a oferecer o ingresso é seu núcleo familiar que estabelece e apresenta a importância do contato para que em primeira instância, cumpra as necessidades básicas do filhote humano.

Nesta sequência, aquele quem ocupa a função materna, coloca o seu pequeno bebê não somente no instinto de sobrevivência (amamentação), mas o inclui como parte de um desejo, edificado com sua história e coragem na caminhada da vida, que exige empenho e amor, sem saber se naquele ser haverá as comprovações de seus ideais ou até mesmo o alcance de um laço. O marco está neste momento, na aposta, no ato de assumir e se responsabilizar junto a um outro para além de si.

Entretanto, como mencionado, não há garantias, mas um risco que pode ser suportado à medida que a relação obtenha seus ganhos e suas perdas. Deste modo, o laço amoroso vai sendo constituído e aquele bebê cresce e segue aprendendo com seus futuros empreendimentos em outros núcleos sociais (creche, escola, etc), onde pode oferecer energia e afeto. Neste percurso de estabelecimento de relações e com todo aparato de frustrações, faltas e ganhos, o ser humano introjeta suas vivências e cada pessoa que encontra em seu caminho pode tornar singular em sua história.

Porém, atualmente o modo como as relações estão sendo configuradas e o lugar que um ser ocupa para um outro é volúvel, tornando-se coisificado e possível de descarte. Neste novo paradigma, se assim pode-se descrever, o sujeito ocupa um lugar de objeto, o qual não necessita de responsabilização e comprometimento, e por isso pode ser utilizado para satisfação momentânea e jogado para fora com facilidade.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, retrata que o homem pós-moderno dilui com facilidade em seus relacionamentos e o torna o possível laço amoroso, frágil e líquido. O autor também expõe que este modo de se relacionar este calcado nos valores construídos ao longo do tempo pela sociedade em equiparação ao próprio mercado consumidor, o qual sempre haverá algo melhor para se ocupar no lugar de outro e este produto por vezes pode entrar em promoção, tornando-se barato e rápido para as satisfações pessoais e que pode ser trocado a qualquer momento, não obtendo espaço para relacionamentos sólidos. Desta forma, o ser humano torna-se expert na “habilidade de terminar relacionamentos e começar do início”, não permitindo conhecer o outro a ponto de relacionar verdadeiramente, não havendo tempo de semear e nem de perder.

Neste contexto, o sujeito pode se configurar inseguro, medroso e frágil, e então, dificultar os seus engenhos futuros de sua vida de sonhos e realizações de projetos afetivos. Assim sendo, as dificuldades de se relacionar afetivamente torna-se preocupante na medida em que o não engajamento e responsabilidade com o outro pode provocar desorganizações psíquicas, bem como o aumento da violência. Desta forma, é imprescindível o estabelecimento de laço na sociedade, para que ela esteja sustentada para além da preservação da espécie humana, mas que também o sujeito possa ter um espaço para sua criatividade e evolução. Entretanto, para esta possibilidade, é necessário dos seres viventes neste mundo, investir do seu tempo e estarem dispostos a arriscar-se, pois o Amor é a transcendência que distoa de vitrines. O Amor é o resto entre duas ou mais pessoas que provoca no sujeito um movimento.


Kamila Alves

Kamila Alves, graduada em psicologia e atrevida na arte da escrita..
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