provocações literárias

A arte literária, em uso com as palavras, provocam com sutileza o que há de mais sublime: viver.

Kamila Alves

Kamila Alves, graduada em psicologia e atrevida na arte da escrita.

O PARAÍSO INTRÍNSECO DE CLARICE LISPECTOR E A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Nas obras de Clarice Lispector, o leitor se depara com um paraíso intrínseco que produz reflexões relevantes do que concerne a riqueza humana e o que dela pode auxiliar no contorno da vida cotidiana através da arte de autorizar-se a viver, mesmo nos meandros que marca a imperfeição, a qual se desdobra em condição importante para avanço e busca de crescimento pessoal.


Submeter-se a leitura das produções de Clarice denota não somente a riqueza do que com as palavras ela pode dizer sobre a vida cotidiana, mas seu âmbito analítico de descobrir-se frente o mundo que a cerca e permitir através de suas obras, a palavra como saída para simbolizar a vida. Tais proposições indicam não somente o rico conhecimento e o despertar-se sobre as coisas, mas da capacidade do que é possível com a vida junto aos afetos, os contornos e o reconhecimento da imperfeição humana, sendo este o lugar que da onde se pode produzir. Pois, só se pode escrever da onde não se sabe, sendo o não saber força de desejo para a procura de novos empreendimentos e realizações. No conto “Perdoando Deus” Clarice convida a refletir sobre a pequenez humana e como a vida rotineira, como simples deparo com o rato, pode provocar questionamentos, reflexões sobre o modo como a vida é encarada por cada um e do que dela se sente, descobre e faz. Deste modo, é o que a arte em sua riqueza e profundidade pode proporcionar para o leitor. No caso das obras de Clarice, ela provoca a tomada para o íntimo dos seres e das coisas, mesmo que imperfeito possa ser. É a realidade doída em contraponto com a beleza do nascer pra vida. Assim sendo, pode-se relacionar no que lendo Clarice diz sobre os cenários das redes sociais e no estabelecimento de relações entre as pessoas no mundo contemporâneo. Atualmente, a escassez de afeto e reflexões sobre as relações entre as pessoas no contemporâneo, exteriorizam a incapacidade de lidar com o sofrimento, fazendo dele formas de não sentir. A sociedade e seu laço com uma cultura de imagem engajada no instantâneo, a busca por satisfação imediata e contínua do desejo, adquiri um valor de se alcançar um ideal, o qual busca-se permanecer em um estado de prazer e alegria ao preço de eliminar experiências humanas como a dor, tristezas e frustrações. Desta forma, quando o ser humano se depara com situações cotidianas que lhe causam sentimentos contrários a alegria e satisfação, ele não estaria pertencente a sociedade, onde a felicidade necessita ser constante e a exteriorização nas redes sociais comprova tal cenário. Assim sendo, não há espaço para a subjetividade. Esta se dilui no social e então, o eu e o outro torna-se uma única imagem, não obtendo espaço para singular do ser. Desta forma, o não contato com estas disposições de afetos demonstra o quão a sociedade contemporânea perde a possibilidade de verificar que da dor pode ser um caminho de construção. Clarice no conto “pertencer” relata um caminho possível de refletir o que do outro se busca e o lugar assumido para lidar com as situações de busca de pertencimento. “A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.” Portanto, para pertencer a um ou outros, antes é necessário percorrer um caminho de conhecimento de si, perceber-se nos meandros das vivências e autorizar-se diante da vida, sendo um autor no desvelar da existência.

Obras-de-Edward-Hopper-6.jpg


Kamila Alves

Kamila Alves, graduada em psicologia e atrevida na arte da escrita..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Kamila Alves