provocações literárias

A arte literária, em uso com as palavras, provocam com sutileza o que há de mais sublime: viver.

Kamila Alves

Kamila Alves, graduada em psicologia e atrevida na arte da escrita.

O que ainda pode ser dito sobre o cenário político - social no Brasil

O presente texto propõe um olhar mais demorado sobre as questões político - sociais que estão interligadas na construção do sujeito corrupto junto a um sintoma social.


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Na atualidade temos notícias, principalmente pelos veículos de comunicação, sobre o desenrolar das investigações de alguns políticos e o notório sintoma social que vem a configurar sobre o sujeito corrupto.

Denomina por sintoma, pela via psicanalítica, um conflito que emerge entre invenção, satisfação, sofrimento e repetição, que para Jacques Lacan, psicanalista francês, é uma mensagem representada através da linguagem que retém um saber que um sujeito se recusa a reconhecer.

Já a corrupção, pode ser vista como um possível funcionamento perverso, no sentido que renega a lei, colocando um véu encobridor, o qual autoriza o abuso do poder e roubo para satisfação pessoal, certificando na sua realidade que tudo pode.

O apontamento do que articula a maneira desses sujeitos com um sintoma social, se escandaliza sobre a constituição política no país entre os eleitos e aqueles que elegem. Podendo assim, viabilizar um pensamento de sustentação da corrupção partindo da colaboração entre duas partes, não só dos políticos como também quem os escolhe.

Quanto à possível estrutura perversa, esta advém da forma pela qual se constitui uma posição no desenrolar da vida. Pela via da psicanálise, as estruturas psíquicas também se configuram como um modo de um sujeito se posicionar diante a lei simbólica que marca a castração, remetendo que não se pode ser e ter tudo.

O perverso é um encobridor da lei, pois ele sabe da sua existência, mas a desmente para não se haver com o seu horror da falta e assim, coloca um objeto para substituir, denominando seu fetiche. E quanto ao não que recebe do outro, torna-se cego, surdo e mudo, fazendo do poder uma transgressão insuperável. Tais proposições podem ser encontradas nas obras de Freud como: “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, “Fetichismo” e no texto "A fantasia do estupro e a cultura do estupro" por Christian Dunker.

Por este modo, pode-se pensar sobre um sistema que envolve o fazer social, político e constituição de sujeito que pode perpassar pela construção da corrupção, sendo ela um sintoma que nos últimos tempos tem escancarado o “jeitinho brasileiro” como mal - estar social e seu aprisionamento marcante na história do brasileiro.

É sabido que as manifestações surgem como meio para mudança, entretanto, sua eficiência se enrosca com o que Lacan vai dizer sobre o fato que o sintoma torna-se ao mesmo tempo condição do social e o modo particular de inscrição do sujeito no discurso, ou seja, no laço social.

Sendo assim, a corrupção torna-se um modo de fazer e estar no laço, educando as pessoas desde sua infância, mesmo sabendo que a lei precisa ser mantida na palavra. Exemplos cotidianos são os próprios “jeitinhos” para burlar as coisas, como: furar fila, estacionar em lugares proibidos, dirigir alcoolizado, entre outros. Sendo o último citado, um ato que coloca a própria vida em risco, fazendo um circuito de onipotência.

Vale ressaltar que estes pequenos atos demonstram que há um envolvimento de ambas as partes, como destacadas no início. Deste modo as responsabilidades são compartilhadas.

Por isso, os mitos de heróis e vilões não cabem bem, assim como o discurso da estrutura perversa um modo de saída. De acordo com Gisele Campos, psicóloga brasileira, não haverá um salvador da pátria. Pois salvar da dor não é possível, mas sim assumi-las.

Desta forma, é sabido que o ser humano junto à sociedade não serão ideais, justamente pela própria falta constituinte psíquica e da realidade. Não existe a perfeição, mas ainda sim podem haver mudanças, o laço social não está apenas nos ideais.

Portanto, eis a questão: Qual seria uma possível saída autêntica do povo brasileiro, uma vez que o hino descreve “um filho que não foge à luta (...) da pátria amada Brasil”? É tempo de pensar.

Contribuição para edição do texto: Tayla Fernandes Agostinho


Kamila Alves

Kamila Alves, graduada em psicologia e atrevida na arte da escrita..
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